Leituras

Marx e Engels na Nova Gazeta Renana

O conjunto dos dois volumes traduzidos para o português são importante instrumento de ação política de Marx

04/01/2021 12:57

(Reprodução/Opera Mundi)

Créditos da foto: (Reprodução/Opera Mundi)

 
A edição completa e inédita de Karl Marx e Friedrich Engels, organizada e traduzida do alemão pela cientista social marxiana Lívia Cotrim (1958-2019), reúne os artigos publicados no diário da Liga dos Comunistas, Nova Gazeta Renana, no período da Revolução Alemã e da contrarrevolução na Europa (1º de junho de 1848 - 19 de maio de 1849), em dois volumes: o primeiro com os artigos de Marx (600 p.) e o segundo com os artigos de Engels (817 p.).

A autora da tradução, apresentadora e organizadora dessa importante edição, Lívia Cristina de Aguiar Cotrim, era Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e graduada em Ciências Sociais pela Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo.

Lívia Cotrim foi professora do Centro Universitário Fundação Santo André e militante que dedicou sua vida à tradução, estudo e divulgação das obras de Marx.

Conforme ela destaca, esse conjunto de artigos “foi o principal instrumento de ação política de Marx nas revoluções que então se desencadearam” e foi organizada em dois volumes, conforme observa, para o estudo das análises de Marx e de Engels sobre o contexto da revolução e da contrarrevolução na Europa.

Foram muitos as envolvidas e os envolvidos para que essa obra viesse à luz. A Editora Expressão Popular agradece aos familiares de Lívia Cotrim, falecida precocemente em 2019, Ana, Vera e Ivan, que gentil e solidariamente cederam os direitos de publicação deste monumental trabalho de tradução, fruto de estudos e pesquisas de Lívia por mais de 15 anos.

De acordo com Ana e Vera, “este trabalho é parte de um projeto maior, a análise da visão de Marx sobre a política e o estado, que foi intitulado por Lívia como Marx: Política e emancipação humana - 1848 -1871. Nele, Lívia Cotrim percorre toda a produção marxiana, centrando no período desde a NGR até os textos sobre a Comuna de Paris”.

A obra é fundamental e atual para estudantes, educadoras, educadores, estudiosos do marxismo e militantes populares para compreender a relação entre teoria e prática, os instrumentos da análise da conjuntura para a transformação da realidade, bem como o entendimento de temas como a natureza do Estado, a diferença entre o Estado bonapartista e o Estado democrático, a aliança de classes, a criminalização da classe trabalhadora, a violência de Estado, o papel contrarrevolucionário de setores da esquerda em aliança com a burguesia, o lumpemproletariado, a questão nacional e internacional, o chamado “etapismo” na transição ao socialismo, entre outros.

Na apresentação do Gazeta Renana/Volume 1/Karl Marx/, Lígia Cotrim escreve:

“(...) Entretanto, diante do ineditismo quase completo desses materiais no Brasil, vale lembrar que Marx se debruçou especificamente sobre a política em três ocasiões: a primeira em 1844, quando, iniciada já a viragem ontológica que dá origem a seu pensamento próprio, aborda a insurreição dos tecelões silesianos; a última, motivada pela revolução que instaura a Comuna de Paris, em 1871; e, entre ambas, a que ora nos ocupa, delimitada pelas revoluções de 1848 e seus desdobramentos imediatos (cf. Chasin, 1989)''.

E continua:

''Destes, são bem mais divulgados os materiais que examinam o processo francês e seu desaguadouro, o golpe de Estado de Luís Bonaparte, enquanto o vasto manancial composto pelos artigos da Nova Gazeta Renana tem sido relegado, senão ao esquecimento, ao menos ao segundo plano. Não é muito diversa a situação quanto aos estudos sobre esse material, igualmente raros.”

E na apresentação do Volume 2/ Friedrich Engels/ a organizadora e tradutora observa:

“A análise de Engels, assim como a de Marx, do processo revolucionário alemão e do papel das diversas classes, nele, particularmente o dos trabalhadores (e por extensão dos comunistas), aponta para o problema da transição para o comunismo; mais especifica­mente: quais elos poderiam vincular reivindicações imediatas da classe trabalhadora, nascidas das condições de vida igualmente imediatas, a uma revolução comunista, isto é, à reivindicação de supressão do capital, das classes e do estado [Estado]? Questão que se coloca mesmo em países de capitalismo plenamente objetivado, mas que se complica ainda mais quando sequer tal objetivação se efetivou”.

Um trecho de Karl Marx na Nova Gazeta Renana/ Volume 1:

“Trazemos a nossos leitores o texto integral da acte d’accusation da Presse. Em contraposição a todos os jornais europeus, de formatos grandes ou pequenos, nós compreendemos a Revolução de Junho, como a história confirmou. É preciso voltar de tempos em tempos a seus momentos e atores principais, pois a Revolução de Junho é o centro em torno do qual giram a revolução e a contrarrevolução europeias. O distanciamento da Revolução de Junho marcou, como dissemos ao tempo em que se realizava, o zênite da contra-revolução, que devia percorrer a Europa. O retorno à Revolução de Junho é o verdadeiro início da revolução européia. Portanto, de volta a Cavaignac, ao inventor do estado de sítio”.

Escreve Friedrich Engels na Nova Gazeta Renana/Volume 2:

“A irrupção parece estar marcada aqui em Colônia para o segundo dia de Pentecostes. Espalhou-se o boato de que nesse dia tudo vai “começar a andar”. Tentarão provocar um pequeno escândalo, a fim de pôr as tropas em ação imediatamente, ameaçar bombardear a cidade, desarmar a Guarda Cívica, encarcerar os chefes agitadores, em síntese, nos maltratar à maneira de Mogúncia e Tréveris. Alertamos seriamente os trabalhadores de Colônia para esta cilada que a reação lhes arma. Pedimos insistentemente que não deem o menor pretexto ao partido velho-prussiano para submeter Colônia ao despotismo da lei marcial. Pedimos que passem os dois dias de Pentecostes de modo muito especialmente tranquilo, e assim frustrem todo o plano dos reacionários”.

*Com as informações da Editora Expressão Popular

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