Leituras

Memórias de Woody Allen enfim publicadas

Autobiografia do cineasta foi atacada e desqualificada embora poucos, até o momento, tenham lido o volume. Acusação e culpa automática cada vez mais é um modo de agir e de pensar

25/03/2020 14:21

O Hachette Book Group abandonou seus planos de publicar as memórias de Woody Allen, %u21CApropos of Nothing%u21D, cuja publicação estava prevista para abril (AP)

Créditos da foto: O Hachette Book Group abandonou seus planos de publicar as memórias de Woody Allen, %u21CApropos of Nothing%u21D, cuja publicação estava prevista para abril (AP)

 

No início deste mês a editora Hachette Book Group anunciou que publicaria a autobiografia de Woody Allen, A propos of Nothing. Naqueles tempos longínquos, em que as pessoas pensavam em outros temas e não no coronavírus, o anúncio provocou alvoroço.

O jornalista Ronan Farrow, filho de Allen e de quem o cineasta está afastado, criticou a decisão e disse que encerraria seu relacionamento com a editora com a qual publicou livro de sua autoria. Funcionários da Hachette promoveram uma manifestação contra a publicação do trabalho de Allen, saindo em protesto dos escritórios da empresa em Nova York e Boston. A editora levou apenas alguns dias para ceder à pressão.

“Depois de ouvir, chegamos à conclusão que seguir adiante com a publicação não seria viável para a HBG”, disse a editora através de porta-voz.

Note-se com que frequência hoje em dia a cultura do cancelamento é efetuada usando a linguagem suave da “escuta”. Note-se outra coisa também: o livro foi desancado apesar de quase ninguém tê-lo lido; certamente não os seus críticos mais acirrados.

“Sentenciar primeiro, anunciar o veredicto depois” deveria ser o tipo de coisa que ocorre em Alice no País das Maravilhas, e não o que parece ser um julgamento literário nos Estados Unidos.

Meu próprio viés é fortemente favorável à publicação, tanto por questão de princípio quanto de interesse público. Para que fique claro: Woody Allen é meu conhecido superficial; não somos amigos, mas temos amigos em comum. Para que fique claro também: sou membro do júri que concedeu um prêmio de jornalismo a Ronan Farrow por sua investigação sobre Harvey Weinstein.

Mas, para me certificar de que os críticos não têm razão, decidi providenciar um exemplar do livro e fazer a sua leitura. O que descobri: o livro é muito bom. Allen escreve bem. Há humor em quase todas as páginas.

Woody Allen é uma presença criativa importante no palco das artes americanas há 60 anos, de modo que seu elenco de personagens é grande. O segundo plano é povoado por gente como Ed Sullivan, Dick Cavett, Johnny Carson, Pauline Kael, Scarlett Johansson e Timothée Chalamet. O primeiro plano conta com Louise Lasser, Diane Keaton e Mia Farrow.

A história de como Allen fez sucesso nos anos 1950 e 1960 foi, em sua maior parte, uma novidade para mim. Interessantíssima.

Igualmente fascinantes foram etalhes sobre filmes que continuam a representar marcos culturais para milhões de pessoas, de Bananas e Annie Hall até Maridos e Esposas e Ponto Final – Match Point.

Mesmo assim, o mais interessante no livro é o relato que Allen faz do seu relacionamento com Mia Farrow – e, muito mais ainda, sobre a destruição desse relacionamento. Como os leitores certamente já sabem, isso ocorreu depois de Farrow descobrir o relacionamento de Allen com a filha adotiva dela (mas não de Allen) Soon-Yi Previn, a atual mulher de Allen, então com 21 anos. Em seguida, Farrow acusou Allen de molestar sexualmente a filha adotiva dos dois, Dylan Farrow, com sete anos na época, durante uma visita que fez à casa de campo dela em 1992.

Woody Allen realmente fez isso? Ele sempre negou categoricamente; nunca foi acusado criminalmente de fazê-lo; e duas investigações formais, uma conduzida pelo Yale-New Haven Hospital e outra pelo Departamento Estadual de Serviços Sociais de Nova York, o absolveram.

Por sua parte, Dylan insiste que a acusação tem fundamento, assim como afirma Ronan, que a descreve como “uma alegação digna de crédito, mantida por quase três décadas, confirmada por relatos e evidências contemporâneos”.

Nenhum de nós jamais saberá a verdade. As pessoas que tendem a acreditar em Dylan deveriam pelo menos ler o relato em primeira mão feito pelo irmão mais velho dela, Moses Farrow. Assim como quem tende a acreditar em Woody Allen deveria ler a decisão do juiz Elliot Wilk quando negou a Woody Allen a guarda de Moses, Dylan e Ronan.

É isso o que exige a imparcialidade em uma sociedade livre: dar às duas partes o direito de apresentar seus argumentos, ouvir ambas com a mente aberta e estender o pressuposto de inocência a quem está sendo julgado, quer seja num tribunal de justiça ou no tribunal da opinião pública.

Fazer outra coisa não significa demonstrar respeito pelos sentimentos da vítima. Significa prejulgar, com base em informação incompleta, quem é a vítima real. Aliás, essa é uma via de mão dupla.

O livro de Allen alega que Mia Farrow não apenas promoveu a lavagem cerebral de Dylan para levá-la a acreditar que fora molestada assim como vitimou alguns de seus filhos adotivos física e psicologicamente. Alegações essas plenamente corroboradas por Moses e Soon-Yi. Certa vez, segundo Moses, Mia trancou seu filho adotivo deficiente Thaddeus “em um galpão fora de casa, devido a uma transgressão sem importância”.

Se Mia, Dylan ou Ronan Farrow escrevessem um livro rebatendo as acusações de Allen, e se uma editora comprasse o livro e então desistisse de sua publicação no último instante, certamente haveria manifestações de indignação. E seriam justificadas. Então, por que tudo isso tem importância neste nosso momento dominado pelo coronavírus?

A resposta não é porque isso é censura. A Hachette é uma empresa e precisa levar o seu mercado em conta, enquanto Woody Allen tem a liberdade de oferecer seu livro a outra editora. (O livro foi lançado pela Arcade Publishing).

A resposta tampouco é que a autobiografia é algum tesouro literário de valor inestimável que simplesmente tem que ser levado a público. Por mais que eu tenha gostado, ela não o é.

Isso tudo tem importância porque a cultura do cancelamento ameaça nosso bem-estar coletivo de maneiras múltiplas e fundamentais: o isolamento imposto a pessoas impopulares, a recusa em examinar evidências que contrariam o que pensamos e a levar em conta pontos de vista opostos; o hábito de automaticamente traçarmos uma equivalência entre acusação e culpa, o encurralamento de pessoas encarregadas de preservar as instituições da cultura liberal; o poder crescente das turbas digitais e o medo que essas turbas atinjam qualquer pessoa que ouse se opor ao seu pensamento ou que se aventurem na expressão de ponto de vista heterodoxo.

Essas ameaças atacam a essência dos hábitos de uma sociedade livre. Visto por si só, o drama de Woody Allen não passa de uma confusão sem importância no meio de uma crise. Em termos das questões mais amplas que levanta, é um sintoma desalentador do estado atual de nossos valores.

*Publicado originalmente em 'The New York Times' | Tradução de Clara Allain publicada em 'Folha de S. Paulo'

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