Métodos de Análise Econômica para Leitor de Esquerda

Plural, livro não é só dirigido ao leitor de esquerda, mas também a todos leitores cultos interessados no método científico

22/11/2018 15:38

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Por que eu sugiro a todo o pessoal de esquerda ler meu livro recém lançado pela Editora Contexto, “Métodos de Análise Econômica”? Por ser um livro plural não só dirigido a vocês, mas também a todos leitores cultos interessados no método científico.

Este é o conjunto das normas básicas seguidas para a produção de conhecimentos com o rigor da ciência. Então, é um método usado para a pesquisa e a comprovação de determinado conteúdo.

Ele parte da observação sistemática de fatos e dados. Em ciências laboratoriais, é seguido da realização de experiências, das deduções lógicas e da comprovação dos resultados obtidos em distintos lugares e tempos sob condições normais de temperatura e pressão. É a lógica racional aplicada à obtenção de conhecimento.

Porém, em Ciências Sociais, o método científico deve ser adequado à análise de experiências vivenciadas em condições diversas no tempo e no espaço. Elas fogem do controle do observador científico. À distância dos eventos históricos, um trabalho sistemático, na busca de respostas às questões estudadas, é o caminho a ser seguido para levar à formulação de uma teoria científica. A verdade é sobretudo o caminho da verdade inalcançável. O rumo ao verdadeiro segue um caminho sistemático.

Se a verdade é o todo, como disse Hegel, nenhum autor é capaz de abarcar todo o instável mundo. Mas é possível compreender suas mudanças com um pensamento metódico. Para ser capaz de o conhecer, necessita transitar em diferentes níveis de abstração, desde o conhecimento analítico dos fenômenos econômicos puros até a tomada de decisões práticas. A formulação de um argumento lógico a partir de premissas simples transmite mais conhecimento realista se comparada a uma discussão superficial acerca de “tudo sob o sol”.

Para tanto, o leitor interessado necessita seguir o método apresentado no livro:

1 - um conhecimento plural de todas as correntes de pensamento econômico, ortodoxas e heterodoxas,

2 - um conhecimento multidisciplinar com a reincorporação dos métodos de todas as demais Ciências Afins antes abstraídas para a elaboração da Teoria Econômica Pura, e

3 - um conhecimento aplicado capaz de datar e localizar o objeto de suas análises e sugestões, ou seja, um conhecimento histórico e geográfico para tratar das dimensões tempo e espaço e tomar decisões práticas.

O método científico é a ferramenta do pesquisador ou estudioso. No fim de seu processo de pesquisa, explica e prevê um conjunto de ocorrências provenientes da aplicação de suas hipóteses. Se testadas e aprovadas, segue adiante. Senão, trata de levantar novas hipóteses. Esta é a forma de comprovar ou não a veracidade de algumas teses desacreditadas pelo ceticismo apriorístico. O método empírico, por sua vez, é baseado unicamente na experiência, sem nenhum teste de hipóteses.

Particularmente, por que o leitor de esquerda poderá apreciar sua leitura? Primeiro, ele apresenta a lógica básica de seus adversários. Para a batalha ideológica, é essencial a empatia, isto é, a capacidade de se colocar no lugar do outro para verificar qual é a lógica de seu raciocínio. Isto possibilita você o antecipar com bons contra-argumentos.

Se não for economista, melhor ainda: aprenderá a classificar economistas, entender “querele des écoles” entre diferentes correntes de pensamento econômico, evitar o narcisismo típico da profissão e perceber como eles necessitam deitar no divã. Saberá a razão da fragmentação da direita econômica entre ultraliberais e neoliberais. Compreenderá a razão do ódio neoliberal ao crédito e a retórica da intransigência em torno do credo fundamentalista: tratar desiguais com igualdade de oportunidades.

Recordará também o método de análise da Economia Política e a importância da dialética para a análise da história. Terá a possibilidade de reciclagem do conhecimento pelo método de análise interdisciplinar. Envolve Economia Comportamental ou Psicologia Econômica, Economia Institucionalista ou Sociologia Econômica, Economia Evolucionária ou Biologia Econômica, Economia da Complexidade ou Econofísica.

Em teoria econômica aplicada conjuntamente com outras áreas de conhecimento fará uma releitura da breve história da humanidade, confrontando-a com a desumanidade. Distinguirá o papel do Estado e do mercado no processo civilizador. Verá como a revolução comunista revirou a sociedade consumista ao baratear os anteriormente denominados bens de consumo capitalista. Refletirá sobre o quiproquó entre a esquerda e a propriedade. Verificará o capitalismo ter surgido tardiamente, e melhor, já era! Sem determinismo histórico, é esperada uma re-evolução no processo de conquistas progressivas de direitos de cidadania sem regressão nos deveres correspondentes. Será um novo modo de vida ao superar o modo de produção capitalista. Pensará se assina ou não embaixo do Manifesto da Esquerda Democrática.

Quanto à Geopolítica e/ou Geoeconomia, terá disponível a comparação entre indicadores socioeconômicos, demográficos, graus de urbanização, estruturas produtivas e ocupacionais do G15, isto é, das quinze maiores economias no mundo. Em Economia Política experimentará a mistura brasileira entre parlamentarismo e presidencialismo. Com nomenclatura e sem meritocracia, leva à corrupção do poder.

Em Sociologia Econômica, comparará a renda do capital financeiro com a renda do trabalho e perceberá: a classe média não vai ao paraíso. Distinguirá o direito à moradia do direito à casa própria. Conhecerá detalhes da concentração financeira per capita. Através de castas de natureza ocupacional ficará mais fácil entender a complexidade brasileira. Confrontará suas ideias com a do advogado do diabo em favor da maldita financeirização e da desalmada desindustrialização. Cruz credo!

Em Economia Comportamental, perceberá os conflitos de interesses dos diversos valores morais das castas. Entenderá a intolerância dos conservadores com a vida alternativa. Terá mais informações críticas à nova direita no Brasil.

Praticamente não houve debate público-presencial na eleição de 2018, mas no livro há um confronto entre as ideias-chave de três projetos de País: o ultraliberal vitorioso (FGV-RJ), o novo-desenvolvimentista de Ciro Gomes (FGV-SP) e o social-desenvolvimentista de Haddad (IE-UNICAMP/UFRJ). O neoliberal (Alckmin/PUC-Rio), coitado, já era.

Na parte final, depois de o pensar e o querer, cabe o julgar.  Trata da arte de tomada de decisões econômicas práticas. Desde a escolha do regime de política econômica até a dos instrumentos a serem combinados. Começa da seleção da equipe econômica ou programa governamental, depois analisa como a política econômica necessita adequar-se às circunstâncias políticas e contextuais. Chega ao estado da arte da política econômica contemporânea e ensina distinguir entre variáveis-metas e variáveis-instrumentos da política econômica em curto prazo.

Busca respostas para uma questão-chave: por que a taxa de juros é tão elevada no brasil? Para matar de raiva os neoliberais, apresenta a política de crédito de bancos públicos como um instrumento de política econômica desenvolvimentista, assim como a política habitacional é peça-chave na redistribuição de riqueza. Atua em defesa do social-desenvolvimentismo no BNDES. Enfrenta também o debate sobre política cambial e de controle de capital. Critica a intervenção arbitrária em preços-básicos, tipo congelamento dos preços dos combustíveis, diminuição de tarifas de energia elétrica, desoneração fiscal e até mesmo a maxidesvalorização cambial. Não se trata de não atingir um equilíbrio geral, mas sim de provocar uma série de efeitos colaterais incontroláveis ou uma dependência de trajetória caótica. A experiência recente não terminou bem.

Os últimos tópicos do livro “Métodos de Análise Econômica” distinguem a Economia Positiva (o que é) e a Economia Normativa (o que deveria ser) em referência à carga tributária, aos déficits e endividamento público, ao relacionamento entre o Tesouro Nacional e o Banco Central do Brasil.

Se todo esse conteúdo não lhe for atraente, por que o público de esquerda se interessará por ler este livro onde reúno, ordenadamente, meus artigos? Meu propósito é oferecer uma leitura sintética dos conteúdos encontrados em grandes livros. A atual geração universitária (e audiovisual) com “mil afazeres” em estágios não costuma ler os imensos livros originais citados em bibliografia. Sintetizei seus conteúdos para os jovens acostumados a ler rapidamente em sites e blogs.  Resumo o conhecimento essencial para ser lido e aprendido por conta própria, de maneira ligeira, mas reflexiva, sob forma de posts reescritos sob forma de pequenas crônicas econômicas.

Em poucas palavras, leia o livro porque ele provoca reflexões – e até mesmo é divertido para a gente de esquerda. Quanto à direita, não sei se ela o amará... Snif, snif... Fazer o que, né?

Fernando Nogueira da Costa é professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). Clique aqui e acompanhe seu blog / E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com



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