Leituras

O Brasil comandado pelos 'mandões' da ditadura

Netas e neto de Maria Prestes lançam livro infantil que reforça o valor da liberdade e é homenagem às avós que enfrentaram a ditadura civil-militar de 64

15/02/2021 14:45

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
"Escrever o Minha Valente Avó foi um empreendimento familiar, coletivo e afetivo. Lembrar a história de nossa avó, Maria Prestes, é homenagear todas as mulheres que lutaram e resistiram bravamente à ditadura militar, à repressão e às atrocidades que assolam todas as mulheres que se colocam no espaço público e na política desde sempre nesse Brasil''.

''O livro é um tributo à memória daquelas que são sistematicamente invisibilizadas em nossa sociedade", diz Ana Prestes sobre o volume lançado em dezembro de 2020 com a vida da viúva de Luiz Carlos Prestes narrada em linguagem para crianças e uma homenagem às mulheres que lutaram contra a ditadura civil-militar iniciada em 1964.*

Os autores são o neto de Maria, Eduardo, e as duas netas, Ana e Andreia. O título é Minha valente avó, o volume foi produzido pela Editora Quase Oito, do Rio de Janeiro, e é Marinete Silva, mãe da vereadora Marielle Franco, quem assina a contracapa. Andreia, historiadora, atua na área de responsabilidade social e é doutoranda em Educação.

Acessível a todas as crianças a partir da alfabetização, a faixa de idade sugerida para sua leitura é entre os oito e os 12 anos.

Mas como explicar aos pequenos o que é um ditador? E de que forma criar uma linguagem infantil para fazer o contraponto entre ditadura e liberdade? A forma foi encontrada na delicada, comovente e curiosa narrativa sobre a vida de Maria Prestes, mãe de nove filhos, sete dos quais com o líder comunista Luiz Carlos Prestes com quem se exilou (de 1964 até 1985) para sobreviver à perseguição do regime militar brasileiro.

Surgem na narrativa os "mandões" e os pássaros livres - estes como metáforas da esperança que permeiam episódios sobre a história do Brasil contados pela avó que vai buscar a netinha na saída da escola. No caminho de volta para casa, a criança desfruta com alegria a companhia dela e descobre, por meio dos relatos, uma avó valente e corajosa, muito dedicada à família e aos cuidados com as plantas e os animais ao longo dos seus 90 anos de vida.

O livro revela também momentos íntimos da relação entre os netos e Maria, como cantar juntos a marchinha carnavalesca Ouro de Moscou ou saborear o feijão especial que ela prepara.

As ilustrações de Marilia Pirillo transportam o leitor e a leitora para dentro da casa da avó, com sua estante cheia de referências ao comunismo, fotografias do marido e o livro de memórias que escreveu. As pinturas de Marilia, com tinta acrílica sobre papel cartão, revelam ainda aos pequenos leitores um país governado pelos tais "mandões".

Mas ao mesmo tempo em que mostra momentos difíceis daquele período, Marília revela nos seus desenhos o profundo afeto existente entre netos e a avó, e o valor da liberdade.

A ver, abaixo, a entrevista de Carta Maior com Ana, socióloga, doutora em Ciência Política, doutoranda em História e analista internacional. Com Andreia, historiadora, professora do ensino básico, consultora em Educação e doutoranda em História. E com Eduardo, produtor musical, músico e professor de Música do ensino básico e mestre em Educação e pesquisador na área de currículo e cotidiano.

Os três estão agora na casa dos 40 anos; nasceram na virada dos anos 70 para os anos 80 em Moscou, na União Soviética. Andreia e Edu são irmãos, filhos de Rosa Prestes. Ana é prima deles, filha de Ermelinda Prestes. Andreia e Edu vivem no Rio de Janeiro e Ana mora e trabalha em Brasília.



Carta Maior: Qual a relação do lançamento do livro de vocês com os tempos sombrios de agora, da história política que o Brasil está vivendo hoje?

Ana Prestes:
Há tempos tínhamos a idéia de fazer uma homenagem para nossos avós via literatura infanto-juvenil. Não havíamos encontrado a embocadura correta ainda. No ano em que a vó Maria completou 90 anos, em 2020, pensamos que era o momento de colocar a mão na massa. Os tempos sombrios vividos no Brasil atualmente, com o retorno da ameaça autoritária, reforçaram esse desejo e nos deram mais estímulo.

CM: Em família, vocês costumam relembrar as histórias vividas pela avó Maria?

Ana:
Em família, frequentemente contamos e recontamos as histórias vividas pela família, e a vó Maria aparece em posição de destaque nesta narrativa, - seja por sua coragem e valentia demonstrados em tantos episódios de sua vida - seja por seu jeito simples, acolhedor, sorridente... sempre vestida com roupas coloridas, cantando ou ouvindo alguma música. Ela sempre vê esperança no caminho e nos anima muito, especialmente em tempos difíceis do país. Quisemos registrar isso em letras e cores. Compartilhar esse afeto e esperança. Fazer um registro histórico.

CM: Qual a objetivo principal do livro, Andreia?

Andreia:
Ao introduzir temas sensíveis no universo infantil, contando a história de uma avó que lutou pela democracia, o livro pretende incentivar o interesse de crianças e adolescentes pela história política do Brasil.

CM: E como você vê o papel da avó Maria como companheira do carismático marido, seu avô?

Eduardo:
Precisamos falar também do papel dessas mulheres fortes que vinham de uma militância na juventude e muitas vezes eram tornadas invisíveis por serem responsáveis pela casa e pela criação dos filhos. Continuavam sendo mulheres fortes e de fundamental importância, inclusive para que seus companheiros permanecessem na luta.



Para a degustação do leitor, um trecho de Minha valente avó:

"De mãos dadas caminhamos enquanto ela me conta histórias incríveis. Imagina minha cara ao descobrir que seu nome verdadeiro não é Maria? Eu ainda não sabia que minha avó e tantas outras mulheres precisaram mudar seus nomes para fugir e se esconder, num tempo em que o Brasil era governado pelos 'mandões'".

*O livro é vendido diretamente pelo site da editora (clique aqui). À venda também no site da Livraria Anita Garibaidi (clique aqui).

Editora Quase Oito: contato@quaseoito.com.br | (21) 97117-7070



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