Leituras

O Império britânico sem máscara

''O povo do abismo - Fome e miséria no coração do império britânico'', uma reportagem de Jack London de 1903, agora reeditada no Brasil, é leitura sobre o tempo de agora

17/12/2020 14:24

Foto utilizada na capa da primeira edição de 'O povo do Abismo', em 1903: mulheres dormindo em bancos no East End, Londres, Inglaterra (Reprodução)

Créditos da foto: Foto utilizada na capa da primeira edição de 'O povo do Abismo', em 1903: mulheres dormindo em bancos no East End, Londres, Inglaterra (Reprodução)

 
Com a tradução de Hélio Guimarães e Flávio Moura, e apresentação de Maria Sílvia Betti, professora de Literatura da Universidade de São Paulo (USP), O povo do abismo é uma reedição lançada pela Editora Expressão Popular em parceria com a Fundação Perseu Abramo. É leitura fundamental para os dias atuais. A longa reportagem de Jack London descreve o submundo social dos excluídos e dos miseráveis da Londres do início do século XX, centro do mais poderoso império da época e se tornou o título mais procurado de dezembro do Clube do Livro Expressão Popular.

Jack London vestiu-se com as mesmas roupas dos milhares de desabrigados e desempregados do East End londrino para escrever tudo aquilo observado por ele no seu trabalho, e chegou a viver junto às famílias dos desempregados e dos sem-teto.

Inicialmente, London aportou na Inglaterra em 1902, contratado para fazer a cobertura jornalística da Revolução dos Bôeres, na África do Sul. Usava o pseudônimo de John Griffith Chaney. O contrato foi cancelado e então o escritor decidiu viver durante três meses na zona mais pauperizada da capital do país, o East End, passando-se por um marinheiro estadunidense desempregado.

Durante esse tempo ele alugou um quarto, morou entre famílias de trabalhadores e também junto aos sem-teto que dormiam nos bancos das praças e na grama dos jardins. Além da reportagem narrada na primeira pessoa, Jack também fez diversos registros fotográficos da situação da população que era explorada no coração do capitalismo industrial.

A reportagem segue os critérios de investigação jornalística, com um levantamento sobre as condições de vida dos trabalhadores ingleses,  e avalia a qualidade de vida do proletariado londrino. O texto é marcado pela liberdade de expressão do jornalismo opinativo de caráter claramente socialista.

Com vales distribuídos na noite anterior, desempregados aguardam o café distribuído pelo Exército da Salvação

A reportagem de Jack London, depois de cinquenta anos da publicação de Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, de 1885, confirma a tese marxista de que o progresso capitalista traz benefícios apenas para os burgueses, enquanto aumenta o abismo que já segregava os trabalhadores londrinos no final do século XIX.

Jack compara a estimativa de vida dos londrinos divididos em bairros burgueses e proletários, e a alta mortalidade entre as pessoas que vivem no gueto: " Um papel terrível. A expectativa de vida dos moradores do West End é de 55 anos. A do East End, 30 anos. Isso quer dizer que uma pessoa no West End tem chance de viver o dobro do tempo do que vive uma pessoa no East End''.

Depois da publicação da reportagem O povo do abismo, que mostrou a verdadeira face do Império Britânico do início do século XX, Jack London trabalhou na construção do romance O tacão de ferro no qual buscou mostrar a necessidade de conter a violência destrutiva do capitalismo, com personagens organizados na luta pelo socialismo e contra o fascismo, o qual ele já havia previsto.  A literatura de Jack London formou a nova geração de trabalhadores e sindicalistas desejosos de construir uma sociedade livre da exploração. Uma sociedade socialista.

''Com mais de um século de distância da primeira publicação, os registros e interpretações da reportagem infelizmente ainda nos soam familiares; sua leitura atual, no entanto, nos possibilita comprovar mais do que nunca o caráter decrépito, insustentável e desumano de um sistema que não se remenda, e apenas merece e precisa ruir''. Maria Sílvia Betti, professora de Literatura norteamericana/USP.

Crianças de East End, Londres, Inglaterra, 1903

Abaixo, fragmentos do texto de Jack London, um americano que  sofreu, na infância, com as dificuldades econômicas da sua família e que, e quando adulto, desenvolveu intensa militância no Partido Socialista. A reportagem é um retrato das duas semanas em que viveu e conviveu, nas suas casas precárias, com os trabalhadores da capital do império britânico. E retrata com precisão a Londres no início do século passado.

''Surgiu uma nova raça – o povo das ruas. Passam a vida no trabalho e nas ruas. Eles têm tocas e covis para os quais rastejar na hora de dormir, e é tudo. [...] Da calçada imunda recolhiam e comiam pedaços de laranja, cascas de maçã e restos de cachos de uva''.

''Quebravam com os dentes caroços de ameixa em busca da semente. Catavam migalhas de pão do tamanho de ervilhas, miolos de maçã tão sujos e escuros que ninguém diria que eram miolos de maçã, e os dois homens punham essas coisas na boca, mastigavam e engoliam; isso entre 6 e 7 horas da noite de 20 de agosto, do Ano de Nosso Senhor de 1902, no coração do maior, mais rico e mais poderoso império que o mundo jamais viu''.

''Os rejeitados e os inúteis! Os miseráveis, os humilhados, os esquecidos, todos morrendo no matadouro social. Os frutos da prostituição – prostituição de homens e mulheres e crianças, de carne e osso, e fulgor e espírito; enfim, os frutos da prostituição do trabalho''.

''Se isso é o melhor que a civilização pode fazer pelos humanos, então nos dêem a selvageria nua e crua. Bem melhor ser um povo das vastidões e do deserto, das tocas e cavernas, do que ser um povo da máquina e do Abismo''.

''De manhã cedo, nas ruas por onde passam os trabalhadores a caminho do serviço, diversas mulheres ficam sentadas na calçada com sacos de pão. Quase todos compram pão para comer no caminho. Nem chegam a molhar o pão no chá que se compra por um penny nos cafés. É incontestável que um homem não está preparado para um dia inteiro de trabalho com uma refeição dessas. E é igualmente incontestável que o prejuízo recairá sobre o empregador e sobre a nação''. Há algum tempo, os governantes começaram a bradar: 'Acorda, Inglaterra'! Seria mais sensato se mudassem o bordão para Alimenta ''!

Ao contrário do que ocorreu com tantos outros escritores, a opção de Jack London foi entregar jornais, pescar lagostas, trabalhar na patrulha marítima e marinha mercante e como operário fabril, entre outras atividades de ganha-pão para tentar suprir as necessidades básicas da sua família. Em consequência disso, apenas aos 19 anos conseguiu retomar os estudos interrompidos anos antes.

Na sua apresentação, Maria Silvia Betti escreve: ''Seu primeiro livro, O filho do lobo, foi publicado em 1900. Em 1903 escreve O povo do Abismo e  O chamado da floresta. Torna-se um dos mais populares escritores de seu tempo e passa a viver profissionalmente do que escreve. Desenvolve também intensa militância política no Partido Socialista destacando-se como brilhante defensor dos valores socialistas, em palestras, artigos e romances. Morreu precocemente aos 40 anos, com uma overdose de morfina durante uma crise renal, no seu rancho''.

*Com informações da Editora Expressão Popular

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