Leituras

Notas de Leitura 5: O ataque neoliberal à democracia, segundo Noam Chomsky

Com fina ironia, intelectual descortina o modus operandi das forças que realmente mandam no mundo, imprimindo em seus textos a postura ética dos que se posicionam frente às injustiças

26/08/2021 10:22

(Reprodução/The Economist)

Créditos da foto: (Reprodução/The Economist)

 
Há cinco anos, nós sofremos um golpe no Brasil.

Consumado com o impeachment de Dilma, em 31 de agosto de 2016, o golpe estancou um modelo de desenvolvimento nacional, ao longo de 13 anos vitorioso, substituindo-o por um esquema de pilhagem do patrimônio público e de sangria dos investimentos sociais.

Neste processo, já surgiram as digitais de Tio Sam, desde as denúncias de Snowden sobre espionagem na Petrobras até as revelações de A Pública, em julho de 2020, sobre a atuação conjunta entre FBI e Operação Lava Jato que rendeu, entre outros absurdos, o pagamento de multas elevadíssimas de empresas nacionais aos cofres norte-americanos.

Um ano depois, com as malas prontas para sair do Brasil, Todd Chapman, embaixador de Trump no país, afirmaria em seu discurso de despedida que “o câncer do Brasil é a corrupção” e que não é com a democracia que nós deveríamos nos preocupar, mas sim com “mensalão, petrolão, Lava Jato”.

Um clássico exemplo do abismo que existe entre o que prega a “maior democracia do mundo” e como age o “maior Estado terrorista do mundo”, conforme a precisa definição sobre o próprio país do linguista e ativista político Noam Chomsky.

Com fina ironia, típica dos intelectuais que se divertem em quebrar as expectativas de seus leitores, Chomsky imprime em seus textos tanto a indignação do cidadão ante à ingerência devastadora do próprio país sobre os demais; quanto a postura ética do intelectual que se posiciona frente às opressões do mundo:

“Os intelectuais são geralmente privilegiados; o privilégio enseja oportunidades e a oportunidade confere responsabilidades. Um indivíduo tem, então, escolhas”, afirma (2020:31).

Em seus livros, as escolhas estão sempre postas, na medida em que Chomsky compõe o seleto grupo de pensadores que buscam denunciar o modus operandi das forças que efetivamente mandam. Escritos a partir da perspectiva histórica e geopolítica, seus textos nos trazem referências (estudos, sites, bibliografia...) de primeira linha, permitindo-nos se não combater, pelo menos identificar essas forças e como elas atuam na promoção de nossas tragédias domésticas. 

Em Requiem for the American Dream (EUA, 2015), documentário de Peter D. Hutchison, Kelly Nyks e Jared P. Scott, por exemplo, ele investiga a desigualdade de renda no mundo, elencando dez princípios promotores da concentração de riqueza e de renda na América. O roteiro deste documentário, acrescido da transcrição de conteúdo inédito, foi publicado em livro de mesmo título, pela Bertrand Brasil, em 2017. Assista ao documentário.

Os dez princípios de concentração e riqueza e poder na América são: 1. Restringir a democracia. 2. Moldar a ideologia. 3. Reestruturar a economia. 4. Transferir o fardo para os mais pobres e para a classe média. 5. Atacar a solidariedade. 6. Controlar os órgãos reguladores. 7. Controlar as eleições pelo financiamento privado. 8. Usar o medo e o poder do Estado para manter os menos desfavorecidos na linha. 9. Fabricar o consenso. 10. Marginalizar a população.

Diretrizes, portanto, que garantem que a riqueza se mantenha concentrada na mãos das corporações, em particular, pelo financiamento privado das campanhas eleitorais, que força “partidos políticos a ficarem ainda mais dependentes e controlados pelas grandes empresas. Esse poder político logo se transforma em leis que aumentam a concentração de riqueza” (2017:13).

Um círculo vicioso que vem agravando, por meio da total desregulação que gera, com a crise civilizatória sem precedentes, que atravessamos. “A ameaça de destruição da vida humana organizada em qualquer forma reconhecível ou tolerável - isso é inteiramente novo. A crise ambiental em curso é de fato única na história humana, e é uma verdadeira crise existencial. Os que estão vivos hoje decidirão o destino da humanidade - e o destino das outras espécies que agora estamos destruindo, a um ritmo não visto por 65 milhões de anos, quando um enorme asteroide atingiu a Terra” (2021:157).

Para nos situarmos em meio a tantas crises, nada melhor que uma dose dupla de Chomsky: Quem Manda no Mundo? (Crítica, 7ª. ed. 2020), reunião de ensaios e artigos escritos durante o governo Obama, que traz em sua sétima edição, um posfácio sobre o governo Trump. E The Precipice: neoliberalism, the pandemic and the urgent need for social change (Thruthout, 2021), ainda não traduzido em português, que reúne as conversas de Chomsky com o jornalista C. J. Polychroniou (Thruthout) ao longo dos quatro anos de Donald Trump.




Quem manda no mundo?

Em geral, a pergunta acima é respondida na escala dos Estados nacionais (Estados Unidos, China, Rússia...). O que não é errado, afirma Chomsky, no entanto, “esse nível de abstração pode ser extremamente enganoso” porque “os Estados têm estruturas internas complexas, e as escolhas e decisões das lideranças políticas são influenciadas pelas concentrações internas de poder, ao passo que a população, em geral, é quase sempre marginalizada”.

Ao respondê-la, Chomsky aconselha seguirmos o exemplo de Adam Smith que denominava os que mandavam à sua época de mestres da humanidade. Naquele tempo, eles eram "comerciantes e industriais da Inglaterra"; hoje são “conglomerados multinacionais, gigantescas instituições financeiras, impérios de varejo”. Nos dois casos, porém, é sempre a mesma máxima: “tudo para nós e nada para os outros” (2020:297).

Então, por que não os enfrentamos? Segundo Chomsky, “uma das grandes realizações do sistema doutrinário norte-americano tem sido desviar a raiva em relação ao setor corporativo para o governo, que implementa os programas que o setor corporativo elabora”.

Ao contrário do setor corporativo, “o governo está, até certo ponto, sob a influência e o controle popular, de modo que é bastante vantajoso para o mundo empresarial fomentar o ódio e o desprezo aos burocratas governamentais intelectualoides que roubam o dinheiro dos cidadãos na forma de impostos. Isso ajuda a extirpar da mente das pessoas a ideia subversiva de que o governo pode se tornar um instrumento de efetivação da vontade popular, um governo constituído do, pelo e para o povo” (2020:325)

(Foto de Charles Albert Sholl)

Eis acima um exemplo doméstico desse ataque do setor corporativo contra o Estado. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), representante da elite econômica brasileira, em ostensiva campanha contra um governo (o governo Dilma) democraticamente eleito por 54,5 milhões de pessoas, após uma das mais agressivas campanhas ideológicas promovidas pela imprensa corporativa, principal baluarte da Operação Lava Jato.

O que Chomsky nos ensina é que não é só aqui que a democracia e os direitos fundamentais são negociados pelas corporações. A restrição da democracia pelo poder econômico é um fenômeno global, e uma de suas tragédias é a ascensão da extrema direita que acompanhamos, estarrecidos. 

Guinada à direita


Ao demonstrar como esse processo atinge os sucessivos governos do país econômica e militarmente mais poderoso e agressivo do mundo, Chomsky analisa as idiossincrasias do sistema eleitoral norte-americano, denunciando a homogeneização do debate político, com notória guinada à direita de ambos os partidos, Republicano e Democrata, financiados pelo setor corporativo, em campanhas eleitorais cada vez mais claras. 

“Os democratas do mainstream são agora o que costumávamos chamar de ´republicanos moderados´. A ´revolução política´ que Bernie Sanders, com razão, exigiu não teria deixado Dwight Eisenhower muito surpreso”. Já o Partido Republicano “praticamente abandonou a política parlamentar normal. A mudança de direção dos republicanos de hoje para a direita foi tão drástica, em sua dedicação ao setor rico e corporativo, que, em face de seus atuais programas, eles não podem esperar obter votos”.

Frente à impossibilidade de vencer nas urnas, os republicanos mobilizaram setores da população norte-americana “que sempre estiveram lá, porém não como força política organizada: os evangélicos, os nativistas, os racistas e as vítimas decorrentes da globalização”. Ou mais precisamente, “cristãos evangélicos aguardando a Segunda Vinda de Jesus; nativistas que temem que ´eles´ estejam roubando de nós o nosso país; racistas estagnados; pessoas com queixas reais que confundem suas causas; e outros que, como eles, são presas fáceis de demagogos que podem tornar-se uma insurgência radical” (2020:287).

Soma-se a isso, a forte influência da cultura conservadora, tradicional e religiosa sobre a sociedade norte-americana. Ele conta, por exemplo, que “uma das dificuldades em despertar a preocupação da opinião pública estadunidense acerca do aquecimento global é que 40% da população do país acredita que Jesus Cristo voltará à Terra em 2050 e, portanto, não enxerga como um problema as severas ameaças do desastre do clima em décadas futuras. Porcentagem semelhante está convencida de que o mundo foi criado há apenas uns poucos milhares de anos. Se a ciência entra em conflito com a Bíblia, azar para a ciência” (2020:326).

A guinada à direita da política norte-americana não é fenômeno recente, frisa. Ela é parte do projeto Reagan-Thatcher “de aumentar o poder empresarial desenfreado, levado adiante e estendido por seus sucessores”, enquanto “extensão política de uma campanha dedicada e coordenada pelas classes empresariais para reverter a ´crise da democracia´ da década de 1960”. Naquele momento, “as elites liberais internacionais ficaram extremamente preocupadas com o aumento do engajamento das classes populares na arena política, onde pressionavam o Estado, ameaçando o domínio do mundo dos negócios”. (2021: 61).

O universo corporativo dedicou muitos recursos, afirma Chomsky, para reverter o progresso democrático e a regulação daquele capitalismo, altamente bem-sucedido após a II Guerra. 

“O contra-ataque neoliberal venceu substancialmente essas ameaças, ao aumentar drasticamente o poder privado e a riqueza de um minúsculo segmento da população. Enquanto isso, a maioria da população enfrentava estagnação ou declínio econômico, com vidas cada vez mais precárias e a perda de sua influência política, enquanto o poder econômico privado e concentrado ganhava um domínio ainda maior” (2021:62).

"As vítimas de Greenspan"

Ao investigar o perfil do eleitor de figuras como Donald Trump, Chomsky nos lança na questão da precarização do trabalho e da redução da qualidade de vida nos Estados Unidos. “É importante reconhecer o veemente e fervoroso apoio que Trump recebeu dos raivosos e descontentes, notadamente eleitores brancos sem educação universitária, a classe operária e a classe média baixa”. Grupos, aponta, que foram “vítimas das políticas neoliberais da geração passada”, em particular, das diretrizes políticas de Alan Greenspan. 

"Santo Alan" como era chamado o então presidente do Federal Reserve (FED), “em seus tempos de glória”, dizia que “o sucesso de suas políticas de gestão econômica baseava-se em larga medida na maior insegurança para o trabalhador”. Afinal, “trabalhadores intimidados não exigiriam aumento de salários, nem benefícios, mas aceitariam de bom grado padrões de vida mais baixos em troca da mera possibilidade da manutenção do emprego”.

A brutalidade das ideias de Greenspan, seguida por vários governos nos Estados Unidos, revela-se diante dos números. “Em 2007, antes da crise promovida por Wall Street, os trabalhadores estadunidenses recebiam salários reais (corrigidos pela inflação) mais baixos que a remuneração dos trabalhadores em 1979, “quando o experimento estava apenas em seu estágio incipiente”.

Hoje, “os salários dos trabalhadores do sexo masculino estão nos níveis da década de 1960, ao passo que lucros espetaculares foram para os bolsos dos pouquíssimos que ocupam o topo da cadeia – nem mesmo o 1%, mas uma fração do 1%. E isso não é resultado de mérito, nem de realização ou tampouco de forças do mercado, mas fundamentalmente de decisões políticas deliberadas”. (2020:323)

Enquanto isso...

“As vítimas de Greenspan” sentem a brutal diferença entre “trabalho estável numa fábrica, com salários e benefícios negociados por sindicatos e garantidos por contrato, como ocorria em anos anteriores, e um emprego temporário com pouca segurança em alguma atividade na área de serviços. Além da perda de salários, de benefícios e de segurança, há perda de dignidade, de esperança acerca do futuro, e da sensação de que este é um mundo no qual a pessoa pertence e no qual exerce um papel relevante, que vale a pena”.

É neste contexto, de total precarização, que se deu, em 2016, na maior potência do mundo, a eleição de “um vigarista egoísta que tem um princípio: EU!” (2021:164). Para Chomsky, a eleição de “um presidente que obtém sua imagem do mundo da Fox and Friends não é um fenômeno inteiramente novo” na história norte-americana.
“Quarenta anos atrás, um venerado predecessor (Ronald Reagan) estava aprendendo sobre o mundo por meio do cinema e ficou tão hipnotizado que chegou a acreditar que havia participado da libertação dos campos de concentração nazistas (sem deixar a Califórnia). Trump, porém, “não pode ser comparado a Reagan, assim como a farsa não pode ser comparada à tragédia, parafraseando Marx” (2021:164).

Contudo, a ameaça do fascismo é concreta.

“Durante muitos anos venho escrevendo e falando sobre o perigo da possibilidade do surgimento de um ideólogo carismático nos Estados Unidos: alguém capaz de tirar vantagem do medo e da raiva que há muito tempo fervem em grande parte da sociedade, afastando esses sentimentos dos malfeitores e direcionando-os contra alvos vulneráveis. Isso poderia levar ao que o sociólogo Bertram Gross, em um perspicaz estudo escrito várias décadas atrás, chamou de ´fascismo amigável´. Mas isso requer um ideólogo honesto, uma espécie de Hitler, não alguém cuja única ideologia detectável é o narcisismo. O perigo, no entanto, é real e concreto faz muito tempo” (2020:328).

E o fascismo, como sabemos, é uma entre outras ameaças que pairam sobre a civilização humana, como o perigo de destruição instantânea pelas armas nucleares -- e ele conta  sobre vários momentos em que isso quase ocorreu --; e o perigo de destruição a longo prazo, afinal, a destruição ambiental e o aquecimento global prometem alterar substancialmente o modo como vivemos no planeta. “As perspectivas de sobrevivência decente no longo prazo não são altas, a menos que haja uma significativa mudança de rumo”, alerta.

Mudança que depende do resgate do poder democrático pela população, para além do dia da eleição. Em suas palavras:

“Ao longo de minha vida de ativismo (quase oitenta anos), estive familiarizado com duas doutrinas sobre o voto. Uma é a doutrina oficial que sustenta que a política consiste em aparecer a cada poucos anos, empurrar uma alavanca e depois voltar para suas atividades particulares. Os cidadãos são ´expectadores´, não ´participantes da ação´, podem escolher um ou outro membro da classe dirigente ('os homens responsáveis'), mas esse é o limite da participação popular."
"Uma segunda doutrina é aquela que sempre prevaleceu na esquerda, chame-a de “doutrina da esquerda”, na qual a política consiste em um engajamento popular direto e constante nas questões públicas, incluindo uma ampla variedade de ativismo em muitas frentes. Ocasionalmente, surge um evento na arena política formal chamada ´eleição´” (2021:269).

Livros de Noam Chomsky e documentário:

2021, The Principice (Thruthout)
2020, Quem Manda no Mundo? (Crítica, 7ª. ed. atualizada)
2017, Réquiem para o Sonho Americano (Bertrand Brasil)
2015, Réquiem for the American Dream (Doc. EUA)
2008, Chomsky & Cia. (Doc. EUA)


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Tati Carlotti escreve para as editorias de Arte-Literatura / Arte-Leituras de Carta Maior. É graduada em história, mestre em crítica literária e doutora em linguística. tcarlotti@gmail.com
Leia também as Notas de Leitura 4: Hasta la victoria, Che!









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