Leituras

O lançamento de 'Evoé, 22!' revelado em entrevista com o autor Luiz Eduardo de Carvalho

 

06/06/2021 14:08

(Divulgação)

Créditos da foto: (Divulgação)

 
Em entrevista exclusiva, Luiz Eduardo de Carvalho, que foi editor de Arte e Cultura da Agência Carta Maior fala da opção de dedicar-se exclusivamente à produção literária e antecipa comentários acerca de sua nova obra Evoé, 22!, publicada pela Editora Patuá após arrebatar três importantes prêmios literários voltados à dramaturgia.

Luiz Eduardo de Carvalho (Arquivo Pessoal)

CM – Livro novo? É o sétimo, não?

EC – Sim, novinho em folha, se permite o trocadilho. O primeiro no gênero dramaturgia. Já publicaram-me dois de poesia, O Teatro Delirante (2014) e Retalhos de Sampa (2015) que saíram pela Editora Giostri; um romance histórico, Sessenta e Seis Elos (2016) que saiu pelo selo da Fundação Cultural Palmares; um romance epistolar, Xadrez (2019) e uma novela contemporânea, Quadrilha (2020), ambos pela Editora Patuá e Frasebook (2020), um pequeno livro de bolso com aforismos e epígrafes que saiu pela KarnaK Edições.

CM – Eclético nos gêneros…

EC – Na verdade, a questão do gênero literário perpassa toda minha obra. Cada um dos livros, embora predomine em um, acaba por misturar-se a outros. O Teatro Delirante, por exemplo, embora seja poesia, mimetiza uma composição de teatro clássico grego; Xadrez, romance epistolar, tem acréscimos de poesia, de crônica dos fatos políticos e sociais do período em que se situa, resenhas artísticas de livros e músicas de então. A rigor, Evoé, 22! é o que mais se prende a um gênero único, no caso, a dramaturgia. É, por assim dizer, uma peça teatral no sentido ortodoxo, sem permeio de outros gêneros.

CM – E do que ela trata? Qual o enredo?

EC – Fala dos destinos de quatro personagens que se encontram cerrados sob a perspectiva de produzirem uma mostra artística paralela à Semana de Arte Moderna de 1922 e em confronto ao grupo de modernistas capitaneado por Oswald e Mário de Andrade e a várias de suas proposições estéticas e ideológicas. A divertida peripécia que os envolve serve como roteiro para o mergulho na atmosfera artística dos dias que anteciparam aquela esquina de tempo para as artes brasileiras dos últimos cem anos.

Situada em janeiro de 1922, com a vantagem de antecipar um século de reflexões, a peça encena uma crítica ao modelo de Modernismo que mal ganhava moldes de proposição, ao passo que adianta vários aspectos fundamentais de sua diluição na Pós-modernidade. Repleta de citações diretas ou indiretas do que sequer ainda fora criado, os personagens vaticinam, naqueles efervescentes dias, resultados que a História só consolidaria no decorrer do século seguinte.

CM – Obra intimamente ligada à comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna?

EC – Sim, ela nasceu para ser inscrita no Prêmio de Incentivo à Publicação do Departamento de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB) do extinto Ministério da Cultura que atende um dos dispostos no Plano Nacional do Livro e da Leitura e que, em 2018, selecionou vinte obras que versavam sobre a efeméride.

CM – E Evoé, 22! ganhou?

EC – Sim, obteve a segunda melhor pontuação e, pelo critério de desempate, ficou em quinto lugar entre os vinte selecionados. Diga-se de passagem, a única obra de dramaturgia contemplada na ocasião. Depois, o original também ganhou o Prêmio Maria Clara Machado do Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores, em 2019 e, nos Prêmios Literários Cidade de Manaus 2019/2020, conquistou o Prêmio Aldemar Bonates de melhor texto teatral para adultos.

CM – Tricampeão, então? Você já recebeu outros prêmios, não?

EC – Já sim. Na verdade são os prêmios que me permitem a dedicação exclusiva à produção literária, uma vez que as vendas são poucas e sobre elas os direitos autorais são razantes. Somam-se mais de trinta conquistas nos últimos cinco anos, entre eles O Primeiro Prêmio Oliveira Silveira da Fundação Palmares – MinC com a obra Sessenta e Seis Elos, o Prêmio Cidade de Belo Horizonte com Xadrez e outro de Incentivo à Publicação da DLLLB com Um Conto de Réis (e de Rainhas).

CM – E o que te levou a escrever dramaturgia, parece um gênero menos frequentado pelos autores e leitores?

EC – É engraçado pensar nisso, pois há aí um marco distintivo de minhas andanças pela vida, desde o mais remoto princípio. Subi ao primeiro palco quando tinha seis anos, justamente para ser apresentador mirim da Festa do Livro, quando, no final do pré-primário (nomenclatura jurássica), recebemos a cartilha que nos alfabetizaria no ano seguinte. Eis o elo originário que só agora, depois de exatos cinquenta anos, refaz-se com esse primeiro lançamento de meus livros feitos para o palco.

            Nesse difuso cinquentenário de experiências ligadas à arte e à cultura, por mais que perambulasse por outros lugares, como os tablados escolares ou as redações jornalísticas, jamais me distanciei dos livros e dos palcos. Poder reuni-los em Evoé, 22! é consagrar a mim mesmo a comunhão de meus propósitos mais sinceros.

CM – E por que o título? Evoé, 22! o que mais nos diz além de estar ligado à comemoração da Semana de Arte Moderna?

EC – Evoé, todos sabem, é o grito que conclama os dionisíacos à jornada de representação do que fomos, somos e seremos. Um chamamento, um alento. Creio que é tudo o que precisamos nestes nossos dias, em termos gerais, e mais especificamente no campo tão alijado da cultura, um chamamento, uma incitação, um grito de coragem e determinação para a construção de nossa significação enquanto artistas, cidadãos, brasileiros. Então: evoé, bravos leitores!

A obra Evoé,22! encontra-se disponível para compra em: 
https://www.editorapatua.com.br/produto/249877/evoe-22-de-luiz-eduardo-de-carvalho

***

Leia a primeira cena de Evoé, 22!:

Evoé, 22!

(Enredo, sob luzes apolíneas, acerca de um dionisíaco triângulo desamoroso

num mefistofélico contraponto de intuída pós-modernidade ao modernismo de 1922.

Axé, Nietzsche, meu camarada! – Desfile com vinte e duas alas)

- uma tragédia de costumes modernistas em dois atos -

Local:
uma despensa subterrânea de um antigo imóvel na Barra Funda, São Paulo.

Época: os dias que antecedem a Semana de Arte Moderna de 1922.

Personagens:

Faustino Sucupira, o artista (sem nenhum caráter);

Doutor Otto Salgado, cientista e versado teólogo responsável pela Mostra de Arte Moderna e Integralista de 1922, homem sexagenário de profundos saberes; prodigioso na rapidez de raciocínios muito bem articulados. Requintado, com um tanto de afetação, misógino e homofóbico. Conservador, veste sóbrios algodões e linho claros, adornos e acessórios dândis, bengala (não claudica, mas a ostenta à guisa de cetro ou báculo), chapéus clássicos e até capas nas entradas e saídas de cenas;

Diego Mercúrio, erudito desde jovem, professa várias artes e algumas técnicas. Articulador e mediador por excelência, um diplomático e oportunista arquiteto de pontes ideológicas. Trinta e sete anos, veste ternos e camisas claras, chapéu paleta, goma no cabelo;

Conceição, jovem negra de vinte e poucos anos, modos bastante rudes e beleza escultural. Veste, com mediana sobriedade, quase elegante, roupas surradas e justas, nitidamente de número menor, herdadas do gosto e do uso de alguma cocote de então.

Ato I

Cena 01

Após o terceiro sinal, começa o Coro dos Escravos Hebreus da ópera Nabuco de Giuseppe Verdi. Fade out
na plateia e fade in no cenário que apresenta, numa cela de boa amplitude – um porão sem janelas, com duas portas, uma em cada lateral – Faustino a tomar café em uma mesa recoberta de papéis e uns tantos livros espalhados. O Dr. Otto Salgado entra sem cerimônia e junta-se a ele. Interrompe-se o coro (aproximadamente com um minuto e meio de execução da ária).

Dr. Otto Salgado – Bom dia, Faustino Sucupira, meu criativo artista! Espero que tenhas dormido bem e repousado teu espírito para a demanda que nos resta! Chegamos ao ponto dos arremates, meu prestigioso poeta!

Faustino Sucupira (contrariado) – Caro doutor Otto Salgado, se teus votos fossem sinceros, agradeceria e retribuiria! No entanto, como sei que são meros ecos de teus augúrios pessoais acerca do teu próprio dia, dispenso-os, pois é notório que o teu dia de hoje será tão bom quanto os demais têm sido. O meu, contudo, amargará mais uma jornada de desagradável detenção nesta cela, obrigado a tão só escrever o nosso libelo. E, assim, dada a privação de minha liberdade, tão cara à minha boa inspiração, eu pergunto, caríssimo doutor, como poderei eu, diante de tal paradoxo, ter um bom dia?

Dr. Otto Salgado – Calma lá, para que tanta aspereza matinal? Eu, como sempre, venho em paz e trago meu espírito em luz. Além do mais, é em nome de nosso pai o Deus Criador que eu te desejo um bom dia e, nesse intento de comunhão, jamais nos faltará fraternidade. Assim que Diego juntar-se a nós, teremos mais uma importante reunião a respeito do grande projeto. (pequena pausa) Hoje, materializaremos a versão definitiva de nossa obra já tão discutida e rascunhada. Nossa não, a Obra de Deus, melhor dizendo, deixemos, pois, bem claro em que direção emana nossa eterna servidão e qual o valor que há nela. Somos instrumentos de algo transcendente que, em nossos particulares paraísos, apenas intermediamos. Somos demiurgos: eu, tu e Diego, que hoje se atrasa um bocado... (consulta o patacão tirado da algibeira)

Faustino Sucupira – Não sabia que falava por Nosso Senhor. Tornou-se clérigo, doutor?

Dr. Otto Salgado (diplomático, em tom quase sábio) – Gosto de ti, meu jovem, és deveras perspicaz, um opositor digno para qualquer debate. Sempre tendes, no entanto, a resistir nos campos em que deverias integrar-te! Não tentes testar as minhas convicções com tuas ironias. Não as testas e não me ofendes tampouco com esses arroubos pueris. Professo sim as ciências calibradas na observação da Lei e em suas certezas. Também sou homem de tamanha fé que transcende os achados científicos e significa o que eles não podem significar. De tanto falarmos nas últimas semanas, tu já deverias saber que ambos os conhecimentos integram-se em mim, como deveriam também se coadunar em ti. Mas não, tua legenda libertária precede-te: és o massificador de talentos, para ti, todos nascem sem dons e sem ideologias! Fartei-me desse teu caráter e de tuas predisposições! Tudo o quanto falamos nesse tempo que passamos juntos já exauriu o debate. Abdico dele agora, de forma definitiva e cabal, a fim de celebrarmos aquilo que, de consistentemente material, há entre nós. Hoje, vinte e dois de janeiro, é uma data emblemática em muitos aspectos e, quase todos eles, diretamente ligados à tua ilustre pessoa e à tua função neste enredo que juntos descortinamos!

Faustino Sucupira – Enfim, uma dádiva: recobro a noção do tempo! Depois de três semanas isolado do mundo, preso neste lugar que não reconheço e que não imagino onde fica... Cômodo abafado, feito de paredes imunes ao som, ao toque, ao desespero. Paredes frias de um quarto sem um mísero vestígio do sol. E eu fui feito prisioneiro, vigiado pela luz desta lâmpada que zurra sua incessante eletricidade, e sou forçado a trabalhar todo o período de vigília no teu projeto revisionista.

Dr. Otto Salgado – A rigor, estarias dispensado da gênese criativa a partir de agora. O prazo que estipulei no princípio do desafio, encerrou-se há poucas horas, quando eu dormia o sono dos justos e, tão somente agora, ao raiar do domingo, dia vinte e dois, venho anunciar-te o adiamento da redenção desta penosa etapa de reclusão criativa.

Faustino Sucupira – Reclusão criativa? Sou prisioneiro aqui. Forçado ao trabalho sem outras alternativas, ao debate até a exaustão dos argumentos, à escrita e reescrita das falas desse espetáculo infernal que pretendes opor à Semana de Arte Moderna. Um prisioneiro. Sinto-me um Mário Cavaradossi sem Angelotti e, em ti, vejo um Scarpia sem Tosca! Afinal, qual a motivação dessa farsa?

Dr. Otto Salgado – Sim, sim, vejo que, enfim, podemos despir-nos da artimanha burlesca. Era pura precaução, despiste para não gerar especulações que desgastam a obra antes da estreia. Mas, entre nós, a partir de agora, o selo pode ser quebrado. Que se revele a plena intenção da obra que ofertas com a genialidade de tuas utopias e quimeras a um mundo que pasmará com o fulgor da tradição, dos costumes, das instituições familiares e religiosas, dos indeléveis valores de moralidade perpetuados pelos séculos e com o restante do sumo de nosso caloroso debate dos últimos dias que tu, vate abençoado, tão bem expressaste no brilhante roteiro para o nosso espetáculo, que projetará a modernidade a ser erigida sobre a laje e a sob a égide desses valores.

Faustino Sucupira – Nosso roteiro? Qual a participação que tive na seleção de seu conteúdo? Até o momento, fui voto vencido em todos os quesitos, um mero escriba de tuas ideologias. Nosso espetáculo, nosso, ahhh...

Dr. Otto Salgado – Não te queixes tanto por tão pouco, meu caro Faustino. Teu nome acompanhará os tempos, eternizado na obra para a qual emprestaste teu esmerado estilo e tua imensa capacidade de envolver o espectador com falas que espelham com vividez o âmago de suas mais pungentes aflições.

Faustino Sucupira – Dispenso bajulações e confesso desde já o medo do que verei no palco como resultado dessa insanidade a que temerariamente aderi.

Dr. Otto Salgado – Verás apenas que, para haver arte moderna, não precisamos destruir tudo o que nos precedeu, meu jovem. Não podemos amaldiçoar a escola que nos educou, tampouco podemos nos desfazer do clássico em busca das novidades passageiras, emanadas das vanguardas que só olham para frente e acham-se inéditas por destratarem a tradição. Infiltram-se novidadeiras nos vãos da ignorância das massas alienadas das artes de antanho e brindam ao desinstruído público garatujas pueris de mulheres com cabelos verdes, homens amarelos, estudantes russas... O que é isso, agora? Ainda que Anita demonstre uma qualidade subliminar aos tons orientais, coisa ainda pior vem das máscaras africanas de Picasso, que os artistas brasileiros já transpõem em ícones mal assemelhados e deformados de nossos indígenas, dos negros importados a este país e, ainda pior, de ambas as proles miscigenadas. Um escândalo sem precedentes!

Faustino Sucupira – Conheço e aprecio quase todas essas obras a que aludes com o juízo discriminatório dos inquisidores!

Dr. Otto Salgado (explode e recupera a fleuma) – Recuso-me a esta repetida penitência. Já debatemos a Inquisição neste cenário e essas digressões tomam o tempo que já não temos. Ah sim, ainda acerca do dia de hoje, quase me esquecia de acrescentar à efeméride o aniversário de meu pupilo, Diego Mercúrio, que completa trinta e sete anos de crescente e entusiasmado nacionalismo. Por isso deve estar atrasado, talvez uma pequena comemoração matinal tenha retido o aniversariante. E, por fim, e mais importante, é hoje o grande dia da abertura do portal que se fechará em vinte e dois de fevereiro. (pequena pausa, retoma em tom profético) Eis que tudo o que se suceder em planos edificadores e passar sob os poderosos arcos desse portal será diretriz do pensamento durante o próximo século, até que se abra um novo ciclo em 2022. (retorna ao tom altaneiro, quase surtado) O importante é que, quando essa farsa mal armada que os anarquistas encenarão no Theatro Municipal já estiver terminada, e a nossa obra contraposta igualmente exibida no Theatro São Pedro, comemoraremos o triunfo do ciclo virtuoso. E com essa triunfante vitória de nossos argumentos, o dia 22 de 2 de 22 cerrará a passagem que só se reabre a cada século e que, nos próximos trinta dias, revelará aos iniciados ora viventes a quinta-essencialidade do que é, em verdadeira natureza, a manifestação dual entre a realidade e a mente. Será um mês a ditar as diretrizes de um século. Assim determinam os arcanos.

Faustino Sucupira (ri, entre perplexidade e sarcasmo) – A salada está servida: agrião, escarola, tomates, alface, couves-flores, cenouras, pepinos e beterrabas… É em nome de deus que também fazes tuas previsões agnósticas? Astrologia divina? Bruxaria? O que mais? E a discriminação, é em nome de quem? Em nome de qual de tuas crenças discriminas tudo e todos? Em nome de qual deus me fizeste prisioneiro onde eu seria teu convidado?

Dr. Otto Salgado – Pobre artista sem espírito! Ora se vê, és bem mais apegado às coisas da matéria do que eu, meu jovem. Exceto, é claro, pela tua afinidade com a abstração das palavras. Ah, soberano, nisso rendo-me qual um Salieri diante do gênio de Mozart. Pulverizas teu talento, entretanto, pois vives a escravidão da matéria ao tencionar torná-la equidistante de todos. Cada um, neste mundo, pelo mentalismo sim, como nos ensinou Nosso Pai, somos capazes de alcançar Suas graças. Senão, de que resultariam as preces? A que se reduziria a fé? A mesma fé, incrédulo artista, reflete-se de inúmeras fontes iluminadas pela razão divina. Não me repetirei contigo a calçar a estrada trilhada pelo hermetismo, com seu entreposto socrático e platônico, e sua absorção pelo Cristianismo primitivo, pois são muitos os tijolos já vistos até aqui. A ironia que os não iniciados jamais compreenderão é que o pêndulo do gnosticismo e do agnosticismo balança desde sempre e jamais se deterá, pois conhece o segredo de seu próprio moto-contínuo. E, além do mais, a veracidade de certas reivindicações é desconhecida do intelecto humano. O segredo é incognoscível. Eis o perímetro da fé, como já alertou Agostinho de Hipona. Mas eu concordo que deixemos de lado essa salada teológica, que, apesar de apartada do nosso debate, jamais será indigesta como sugeriste.

Faustino Sucupira – Ótimo, pulemos a salada! Sugiro, então, para entrada deste requintado e incoerente menu, a discriminação que explicitei e da qual te recusaste a falar. Teu deus e todos seus insignes interlocutores são claros em quaisquer passagens nas quais abordam o tema: amai-vos uns aos outros, sois todos filhos na casa do pai, sois irmãos em meu nome…

Dr. Otto Salgado – Que súbita e enfadonha disposição ao debate! Saibas, tu tens te tornado meu verdadeiro cilício. Aperta-me bem mais do que a carne, apalpa-me com furor as entranhas em busca de minhas convicções. Sou-te grato também por isso, meu caro rapaz. Agora, com o mesmo entendimento que citaste acerca dos dizeres do senhor, aponta-me um irmão idêntico ao outro... sequer dois iguais, entre tantos, encontrarás. Diga-me se, entre eles, o pior não deve amar igualmente o melhor e vice-versa? Diga se o pai não deve acolher ambos, independente dos merecimentos. Tais gestos que o Filho de Deus pregou não eliminam nem evidenciam nas pessoas os dons e méritos que as diferenciam.

Faustino Sucupira – Sim! E é precisamente nas diferenças que tu atuas. Meritocracia, a justificativa para qualquer discriminação!

Dr. Otto Salgado – Todos têm méritos. Todos podem acumular méritos. Aprendê-los e praticá-los é o estímulo de nossa ideologia. A ninguém é vedado o conhecimento, mas a voz da sabedoria fala apenas aos que tem ouvidos.

Faustino Sucupira – Simmm, lembro-me de tua exaustiva explanação. É assim desde Trimegisto, o três vezes iniciado. É assim desde que, no remoto Egito, nasceu o Estado como projeção da família, da propriedade e da Lei.

Dr. Otto Salgado (altaneiro) – Alma anarquista, não vês! É assim desde que nasceu a civilização que nos apartou da barbárie. O Estado, de que desdenhas, é a moldura da civilização. Acaso rejeitas a civilização para justificar teus ideais igualitários e libertários?

Faustino Sucupira – Não, eu apenas rejeito o modelo civilizatório que traz em seu bojo a contrariedade à barbárie com que todos nascemos e que todos carregamos como algo que deva ser exterminada em vez de ter sua vitalidade selvagem domada a favor da potência civilizatória!

Dr. Otto Salgado – Barbárie e civilização são apenas mais um par de gêmeas xifópagas que constituem a imensurável constelação das dualidades. Em toda parte, tudo é feito de céu e inferno!

Faustino Sucupira – Não, não e não... jamais me renderei às evidências estagnantes dos teus sofismas acerca da obviedade das dualidades. Vejo o visgo que te prende e reconheço-me absolutamente antiaderente. Para cada antagonismo que puderes citar, há uma síntese dialética que conduz à evolução do pensamento, das ideias, das coisas, da ordem do mundo rumo a este espelhamento de perfeição do incompreensível que tu chamas de deus.

Dr. Otto Salgado – Chamamos de Deus, meu querido. Nós chamamos... no acolhedor e indiscriminante plural. Tu mesmo, com teu espírito arguto acaba de elucidar com clareza de entendimento a fonte a que chamamos Deus, de cuja perfeição somos apenas ecos repletos de sons e fúria. Trovões e relâmpagos de Sua tempestade, eis o que somos! Ecos no retorno aos ouvidos do Criador. Ou então, se ainda presos à viagem de ida em busca de Seu infinito conhecimento, somos menos que o hálito de Seu espírito que nos impele em busca da luz que nos tornará o eco de volta à fonte. O princípio e fim de todas as coisas. Alpha et Omega!

Faustino Sucupira – Ehh, eis a retorta do báculo! Retórica curvada com adereços que se repetem a contar as mesmas histórias, a mesma História, determinista e destroçada, feita de erros cíclicos. Depuração pelo sofrimento, crescimento pela dor, chagas por medalhas. Não comungarei jamais desse mundo que precisa destroçar seus deuses a fim de se respingar de sua essência evolutiva!

Dr. Otto Salgado – E que mundo não seria assim? (pequena pausa) Evoé, meu jovem artista. Eis tua tragédia! A medida de teu metro, de teu erro! O teu pecado original. Aliás, coisa feia esta interjeição clássica! Detesto helenismos fora de catálogo. Evoé, evoé… Prefiro dizer... hum… ãhn... anauê? Que tal anauê? Os tupis que nos guardaram o paraíso assim se expressavam ao chamar e incentivar os irmãos com coragem! Alguém deveria anotar! (ri-se) Anauê, jovem artista! Anauê, Dioniso dos trópicos! (ri-se diabolicamente) (olhando para a plateia) Anauê, esta é mesmo boa! Alguém deveria realmente anotar. (repete e gesticula) Anauê! Anauê!

Faustino Sucupira – Meu avô, que era índio, diria: te aquieta, curumim, nem colheste o palmito ou pescaste o peixe e já recheias a tapioca! Mas anauê não deixa de ser uma tradução, ainda que aproximada, como todas. Eu prefiro Evoé!

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