Leituras

O que você sabe sobre a Guerrilha do Araguaia?

O conflito visto por desde os princípios teóricos do PCdoB

15/06/2021 11:51

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Créditos da foto: (Divulgação)

 
Em plena vigência de desmedido regime de pós-verdade, que “envolve uma combinação calculada de observações corretas, interpretações plausíveis  e  fontes  confiáveis  em  uma  mistura  que  é,  no  conjunto, absolutamente falsa e interesseira”, como pensa Christian Dunker, a pergunta título torna-se mais que oportuna, torna-se essencial e necessariamente associada à outra: qual foi sua fonte de informações sobre a Guerrilha?

O lançamento de Guerrilha do Araguaia: verdades, fatos e história, vem trazer uma abordagem inserida na história do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), em suas teorias e nas lutas de libertação dos brasileiros. O mergulho, na busca do amplo contexto em que se deu a Guerrilha, busca oferecer uma visão que responde ao “avanço de versões sobre o tema com viés de direita na forma de livros, teses acadêmicas e espaços na mídia”, afirma o autor, Osvaldo Bertolino.

Especificamente aos relatos oferecidos pelos meios de comunicação, ele argumenta que “a opção pela ficção é um claro viés ideológico, a militância de um certo de tipo de jornalismo que se propagandeia isento para, do alto dos impérios midiáticos, lançar diatribes e forjar empreendimentos ideológicos a serviço de causas escusas”.

Bertolino retoma a questão sobre a legitimidade do golpe de 64, levantada pelo documento O golpe de 1964 e seus ensinamentos, publicado em agosto de 1964, pela Comissão Executiva do Partido Comunista do Brasil:

“Um grupo de oficiais controla a ditadura militar. Em consequência da deposição do presidente da República instaurou-se uma ditadura militar a serviço das forças reacionárias internas e do imperialismo norte-americano.

O novo governo se apresenta como tendo surgido de uma revolução que se fizera para restaurar a democracia, impor a moralidade na administração pública, acabar com a inflação e sanear as finanças. Mas, em realidade, o governo chefiado pelo Mal. Castelo Branco é fruto de uma quartelada nos moldes tradicionais latino-americanos, viola flagrantemente as normas constitucionais e não passa de um poder discricionário. Embora a ditadura militar procure, desde o início, mascarar-se com aspectos legais, proclamando hipocritamente sua obediência à Constituição de 1946, no país não se respeita a lei. A vida e a liberdade dos cidadãos estão à mercê de um grupelho de generais retrógrados.

Lidera o novo governo um punhado de militares de alta patente que têm como centro a Escola Superior de Guerra, fundada por inspiração do Pentágono. Desde a sua criação, essa Escola vem elaborando, com a ajuda de técnicos norte-americanos e de reacionários brasileiros, todo um programa de administração do país calcado nas ideias dos monopolistas dos Estados Unidos. Tal programa abarca tanto questões econômicas e financeiras quanto de política interna e externa. (…)

Aquele punhado de militares, conhecido como o grupo da Sorbonne, constituiu-se, embora camuflado, em partido político, que se caracteriza, fundamentalmente, por seu aspecto antipopular e antinacional.”

A orientação do PCdoB em relação à luta armada, expressa no documento Guerra popular: o caminho da luta armada no Brasil, nos conta o autor, tem como viga mestra a participação das grandes massas na luta libertadora. O documento de janeiro de 1969 afirma:

“A ditadura que se instalou no país com golpe do primeiro de abril coloca-se frontalmente contra os interesses nacionais. Nenhum governo como o atual foi tão despótico e entreguista. Os movimentos democráticos e patrióticos são duramente perseguidos.

As massas populares sofrem as consequências da nefasta política ditatorial e quando se erguem para lutar por suas reivindicações têm que enfrentar a polícia e tropas do Exército. Mas os imperialistas norte-americanos e seus agentes gozam de todos os privilégios. Apossam-se de ramos inteiros da produção, apoderam-se de vastas áreas do território brasileiro e exercem controle direto da administração pública.

(…)

O povo brasileiro, que sempre desejou construir uma pátria livre da opressão, da miséria e do atraso, não aceita o infame regime que vigora no Brasil. Arrostando o banditismo dos militares, lança-se à luta e realiza enérgicos protestos. Nunca foram tão altos os reclamos de liberdade, jamais atingiu tanta veemência a condenação ao imperialismo ianque e aos seus lacaios. A ideia da revolução amadurece na consciência das grandes massas. Cada vez é maior o número de brasileiros que sentem, como exigência imperiosa, a necessidade de derrubar a ditadura através da luta armada.”

Bertolino compara a semelhança entre o tratamento histórico dado à “Inconfidência Mineira” e aos movimento de Canudos e do Contestado, o da Guerrilha do Araguaia:

“A tentativa de desqualificar a resistência armada do Araguaia insere-se na mesma lógica de certos falsificadores da história sobre o levante mineiro – a chamada “Inconfidência Mineira” –, afirmando que o episódio só teve repercussão devido à morte violenta de Tiradentes, ignorando a clareza de objetivos e a amplitude do movimento.

Foi assim também com Canudos e Contestado - revoltas populares impiedosamente esmagadas – e tantos outros episódios marcantes da luta do povo. Os repressores sabiam perfeitamente o que faziam - ao punir com rigor os revoltosos, tinham consciência do que estava em questão. As calúnias ao Araguaia dão razão a esses repressores. Cumpre desmascará-las sistematicamente. É o que faz este livro.”

Disse João Amazonas, em maio de 1996:

“Seria oportuno que as Forças Armadas proclamassem que tais crimes contra o povo jamais serão repetidos. As Forças Armadas são instituições pagas com o dinheiro do povo, não podem tê-lo como inimigo principal. É necessário que repudiem tais crimes, condição para que possam contar com a simpatia do povo, preparando-se para as grandes batalhas que poderão advir em defesa da soberania e da independência da Pátria.”

Tal proclamação, pelas Forças Armadas, talvez fosse ainda mais oportuna neste sombrio 2021.

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O Livro

Guerrilha do Araguaia - verdades, fatos e histórias, por Osvaldo Bertolino

Editora Apparte e Editora Anita Garibaldi

O autor

Osvaldo Bertolino - Jornalista, escritor e historiador. Nasceu em 1962, em Maringá, Noroeste do estado do Paraná, e mora atualmente em Brasília. Foi diretor de imprensa do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, editor de economia do "Portal Vermelho", assessor de imprensa na Câmara dos Vereadores de São Paulo, na Central Única dos Trabalhadores (CUT) e na Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB). Escreveu os livros "Testamento de luta — a vida de Carlos Danielli", "Maurício Grabois — uma vida de combates", "Pedro Pomar — ideias e batalhas", "Vital Nolasco — vale a pena lutar", "Trinta Anos da UJS" e "Aurélio Peres — vida, fé e luta".

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