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O romance da vida de Heredia segundo Padura

Editado agora em português, o livro de Leonardo Padura, de 18 anos atrás, 'O romance da minha vida' é mais uma fascinante viagem pelo universo insular da América Central na companhia do poeta José Maria Heredia e onde Havana é a cidade sempre celebrada

21/02/2020 11:23

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Como de costume na sua obra literária, o passado e o presente se entrelaçam em camadas, no trabalho do escritor cubano Leonardo Padura, um dos grandes romancistas contemporâneos - não apenas de língua espanhola -, desde que ele encerrou sua conhecida série de histórias policiais em que o detetive Mario Conde, famoso em vários países, era o seu protagonista. Com o volume recém editado em português, O romance da minha vida, (Ed. Boitempo) - lançado em 2002, em espanhol - Padura volta a presentear o leitor com uma narrativa suculenta e repleta da essência, detalhes, cores, cheiros e de extremo afeto por Cuba, pelo bairro da Havana do meio e pelo universo insular que congrega na Centro América a ''grande pátria'' colonizada pelo europeu onde a religião, o idioma e os costumes comuns foram a herança deixada a essa região.

Aos 64 anos, Premio Princesa de Astúrias, uma distinção considerada como o Nobel da língua espanhola (ver aqui entrevista a Carta Maior sobre o assunto), Padura volta a ser lido com fidelidade pelos seus leitores aficionados, desta vez uma narrativa onde um dos eixos centrais é a vida de um dos primeiros grandes poetas românticos de língua espanhola, José Maria Heredia, que viveu nas ilhas, no fim do século 19, nasceu na Cuba colônia, viveu lutando pela independência do seu país e morreu exilado no México, tuberculoso e na miséria, aos 36 anos. " Talvez tenha sido o primeiro a ter real consciência de que era ser cubano”, disse Padura diversas vezes.

Quem detona a narrativa da vida desse fundador da literatura de Cuba, inspecionada em detalhes até então desconhecidos, é outro poeta, o jovem Fernando Terry, um desterrado que retorna a Havana no início do século atual, depois de 18 anos de exílio.

Terry é autorizado a retornar a Cuba pelo período de um mês. Chega atraído pela possibilidade de encontrar a lendária e desaparecida autobiografia do histórico poeta insubmisso e injustiçado, e aproveita para reencontrar antigos companheiros de estudos. Um deles, do seu grupo, é quem o teria denunciado - qual deles? - como conspirador contra o regime político, vinte anos atrás, quando Terry começava a ser reconhecido como o maior poeta da Ilha e acaba expulso da universidade.

Encontro de contas com o próprio passado, digerir o rancor e clarear a dúvida da traição que o acompanha vida a fora, e encontrar a inconveniente e misteriosa autobiografia romanceada de um poeta insubmisso, um dos primeiros escritores cubanos a buscar o exílio por questões políticas, são as duas missões de Terry. Duas missões policiais, existenciais, políticas.

Através do filho de Heredia o mistério do desaparecimento dos papeis poderá ser deslindado.

Para o próprio Padura, O romance da minha vida é o seu livro principal - e não o excelente O homem que amava os cachorros, que costurou para si uma projeção internacional. “Para mim, Heredia é uma espécie de Lord Byron cubano; eu tenho grande admiração por ele”, declara. Na sua construção ficcional ele cria um jogo de espelhos no qual protagonista, escritor investigado e o próprio autor, são a mesma entidade porém romances diversos. Serão mesmo?

O presente livro de Padura serviu de base para o roteiro cinematográfico de sua autoria e do cineasta francês Laurent Cantet que o dirigiu. O filme, intitulado Regresso a Ítaca foi lançado no Brasil há cinco anos. (ver resenha em Carta Maior aqui).

Ele se passa num terraço da Havana do meio onde um grupo de amigos se reúne para festejar o retorno de um companheiro vindo do exílio. O encontro, comovente, transcorre durante uma única noite e nele afloram lembranças, ilusões, desilusões e a realidade de cada personagem.

Praticamente toda obra de Padura, nos seus livros, sobretudo em Hereges, assim como no filme Retorno a Ítaca, o tema do exílio, das distâncias, ausências, lapsos, perdas e deserções é uma constante desse universo insular tão particular como o dos mares e países da América Central.

Talvez até porque ele próprio, um habanero legítimo, nunca deixou (a não ser em breves viagens) a casa simples da família, onde vive, no simpático bairro de Manilla, nas imediações da sua amada Havana; e onde seus pais e avós sempre viveram.

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