Leituras

Os ex-votos do 'Minha Casa, Minha Vida'

Uma Crônica de Pesquisa

31/01/2019 11:47

 

 
Era sábado, quente, abafado, no final do ultimo mês de agosto. Em viagem de pesquisas pelo sertão do Cariri no Ceará, resolvemos conhecer a pequena e linda cidade colonial de Icó, fundada em 1773, ainda na região do semiárido cearense. Situada a uns 142 quilômetros da cidade de Juazeiro do Norte, cidade base de nossa pesquisa. Chegamos na hora do almoço, comemos alguma coisa muito rapidamente e saímos em visita ao centro histórico da cidade. Naquela encalorada tarde Icó praticamente dormia. Um sol e um silêncio muito eloquentes passaram a nos acompanhar.   Percorremos suas ruas centrais feitas em linhas retas que desembocam em uma praça também em linhas muito retas onde estão localizadas as principais edificações de arquitetura colonial, incrivelmente preservadas. Surpresos, soubemos que Icó possui seis igrejas barrocas. Dirigimo-nos a de Nossa Senhora da Expectação.  Ali, em meio aos altares de madeira com imagens, quase sem cores, apenas as da própria madeira, tudo encontrava nas paredes brancas o seu fundo de destaque. Uma beleza! O tom geral das imagens e dos altares era de ocre queimado, por vezes caminhava para um caramelo forte.   Muito discretamente percebia-se alguma cor mais viva, no caso, dois anjos ladeando o altar –mor. Ambos os anjos alados, pintados nas cores vermelha, laranja-amarelada e azul.   Em meio àquela homogeneidade cromática dos ornamentos, ganhavam com suas cores muita força ornamental, para não dizer força dramática mesmo. Foram pintados para transmitir certa leveza de movimentos como se estivessem chegando muito cuidadosamente em lugar de silêncio, aqueles passos de espreita para não acordar, para não assustar, apenas para insinuar com leve dobradura dos joelhos um movimento de inclinação do corpo. Assim chegavam quase levitando a um lugar sagrado, misterioso. A composição era muito bonita, muito delicada de reverencia e respeito.

  Naquele torpor de admiração e surpresa que nos envolvia ouvíamos a voz de uma espécie de guia, um jovem que explicava a algumas pessoas a historia da igreja. Assim que os visitantes saíram o jovem se dirigiu a nós para continuar seu trabalho.  Ao final da exposição, quando já nos preparávamos para sair rumo a outra visita, o jovem nos indagou se não gostaríamos de visitar a sala dos ex –votos. Dissemos que sim, claro, e para lá fomos. Confesso que normalmente me entedia um pouco visitar sala de ex-votos, exatamente pela sua repetição de objetos ali deixados: muletas, restos de gesso de braços quebrados, fotografias, e tudo mais. Contudo naquela sala nos esperava uma grande novidade.  Em um cantinho meio esquecido estavam penduradas de modo precário três desenhos de casas residenciais, casas simples, janelas, quase sempre duas, que margeavam uma de cada lado a porta de entrada da casa que era antecedida de pequena escada de tijolos.   Uma das casas era toda pintada de branco.  Perguntamos ao guia que significado tinham aqueles  desenhos tão diferentes dos outros existentes na sala, pois não remetiam a  sofrimento e dor, mas, pelo contrário, pareciam saudar alguma coisa.  O guia continuou falando muito naturalmente sobre os significados dos desenhos e fotografais, e, diante de nossa insistência, disse maquinalmente. Ah! São os ex- votos do minha casa, minha vida, ganharam as casas, e como todos os outros, vieram aqui agradecer a graça!   Sua voz e expressão eram daquelas de quase enfado diante da insistência sobre certa obviedade!  Como quem diz o que há de novo nisto que todos fazem: pedir a ajuda de Nossa Senhora para realizar um forte desejo e no atendimento dele vir aqui para agradecê-la. Muito simples.

 Como é que é? Indagávamos perplexos. Quase irritado, respondia, Ué! Estão pagando a graça concedida. Cada um agradece como quer como pode...  Demoramos alguns segundos para nos perguntar. Ah! Uma politica pública, talvez em um dos raros casos do mundo, sendo reconhecida como graça de Nossa Senhora da Expectação!

Walquiria Gertrudes Domingues de Leão Rego é professora da Faculdade de Ciências Sociais da Unicamp



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