Pela liberdade de ensinar

Fernando Haddad no seu prólogo do livro 'Educação contra a barbárie', que acaba de ser lançado: ''A eleição de Jair Bolsonaro recoloca com toda força o debate sobre educação na ordem do dia, mas de pernas para o ar''

17/05/2019 11:51

(Reprodução/Boitempo)

Créditos da foto: (Reprodução/Boitempo)

 

Contrapondo-se ao discurso sobre educação pautado apenas por indicadores, rankings e eficiência, a Editora Boitempo lança o volume Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar.

Fernando Cássio, organizador da obra e especialista em políticas públicas de educação, convidou mais de 20 autores para propor um debate franco e corajoso sobre as principais ameaças à educação pública, gratuita e para todas e todos: o discurso empresarial, focado em atender seus próprios interesses; a perseguição à atividade docente e à auto-organização dos estudantes; e o conservadorismo que ameaça o caráter laico, livre e científico do ambiente escolar.

Neste novo volume da coleção Tinta Vermelha, selo da Editora que pretende provocar reflexões sobre assuntos atuais, temas como o revisionismo histórico, experiências de educação popular, financiamento do ensino público, dilemas da educação à distância e a polêmica ideologia de gênero são abordados com rigor teórico e linguagem acessível.

A obra conta com prólogo de Fernando Haddad e quarta capa de Mario Sergio Cortella.

Um trecho do prólogo do professor Fernando Haddad:

''( ... ) Eis que a eleição de Jair Bolsonaro recoloca com toda força o debate sobre educação na ordem do dia, mas de pernas para o ar. A laicidade da escola pública, o financiamento da educação, nosso patrono Paulo Freire, a figura da professora, o processo de socialização, a forma de incorporar tecnologias, a questão da diversidade, para ficar em alguns pontos, tudo é tomado por Bolsonaro pelo avesso do que é recomendado pela melhor referência teórica e Empírica''.

''Nosso encontro com a educação é recente. Ele vinha produzindo bons resultados, sendo controverso apenas o ritmo da melhora. Com cinquenta anos de atraso, estávamos pelo menos tentando saldar nossa dívida para com a educação''.

''A vitória do ultraliberalismo obscurantista (prefiro a expressão neoliberalismo regressivo) nas últimas eleições deixou a comunidade de educadores apreensiva. Depois de algum oxigênio dado à educação desde 1988, mas, sobretudo, entre 2004 e 2014, o setor passou a conviver com a sensação de sufocamento. Objetivo e subjetivo. Material e psicológico''.

''Escola sem Partido, militarização, imposição de métodos, revisionismo histórico, corte de verbas, negação da diversidade, tudo parece caminhar na contramão do que sucessivos governos pretenderam construir, obtendo mais ou menos êxito''.

''Não se trata de uma agenda liberal contra uma ''visão de esquerda'', mas de uma agenda pré-moderna contra o próprio Iluminismo...''.

A primeira parte do livro trata dos desafios à condução e à organização do ensino público. Daniel Cara e Ana Paula Corti desenvolvem concisos panoramas sobre as políticas educacionais no Brasil nos últimos anos e a situação do Ensino Médio, respectivamente.

Os textos de Carolina Catini e Marina Avelar ampliam o debate sobre a educação como mercadoria e o avanço dos interesses privados sobre o ensino público, enquanto o de Silvio Carneiro volta-se aos reflexos dessa concepção de educação na formação dos alunos, no que ele chama ''ideologia da aprendizagem''.

Catarina de Almeida Santos trata de um modelo educacional que, embora apresente aspectos positivos em determinados contextos, tem sido usado para ampliar a mercantilização da educação e precarizar a formação dos estudantes: o ensino à distância.

Já os ensaios de José Marcelino de Rezende Pinto e Vera Jacob Chaves discutem o financiamento da educação pública e os movimentos de financeirização no ensino superior privado lucrativo.

A segunda parte da obra volta-se às atuais ameaças às práticas docentes e à educação democrática.

Isabel Frade e Bianca Correa escrevem sobre as disputas na definição de políticas para a alfabetização e a primeira infância, respectivamente.

Matheus Pichonelli aborda a educação domiciliar, prática polêmica defendida pelo atual governo e incluída como meta para os 100 primeiros dias de governo, enquanto Rudá Ricci faz a crítica da militarização das escolas.

O debate das religiões de matrizes africanas e indígenas em sala de aula é feito por Denise Botelho, seguido por uma reflexão de Maria Carlotto sobre a guerra do governo federal contra os intelectuais brasileiros e a academia.

Alexandre Linares e Eudes Baima abordam o famigerado Escola Sem Partido e a perseguição aos professores que ele tenta impor nas escolas enquanto Rogério Junqueira procura esclarecer o que seria, afinal, a ''ideologia de gênero''.

Sérgio Haddad fecha a segunda parte com um texto sobre o educador Paulo Freire, mundialmente reconhecido, mas cada vez mais um alvo do discurso reacionário no Brasil.

A terceira e última parte aponta caminhos e desafios para uma educação democrática. Rodrigo Ratier tece um elogio à raiva e à revolta nas escolas, e Pedro Pontual aborda os desafios e as propostas para a educação popular e a participação social.

A busca por novos recursos educacionais e o conhecimento como bem comum são os assuntos do ensaio de Bianca Santana, seguido por uma exposição de Sonia Guajajara sobre o modelo da educação indígena como forma de enfrentamento da barbárie.

Alessandro Mariano aborda o projeto educativo das escolas do MST, que há três décadas formam pessoas de todas as idades e fomentam inovações pedagógicas. Já o texto da Rede Brasileira de História Pública coloca em pauta os perigos do revisionismo histórico.

Aniely Silva escreve a respeito de sua experiência como participante das ocupações estudantis das escolas paulistas em 2016, assunto retomado e ampliado no texto da Rede Escola Pública e Universidade.

Fecha o livro a tradução inédita de um artigo sobre educação democrática escrito pela educadora e ativista estadunidense bell hooks.

E a quarta capa do volume é de autoria de Mario Sergio Cortella.

* Com informações da Editora Boitempo

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