Leituras

Quando a violência pretende produzir ordem

No corajoso trabalho do jornalista Bruno Paes Manso está explicada toda a gênese da eleição e do governo Bolsonaro

30/12/2020 15:33

 

 
No volume A República das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro lançado pela Editora Todavia e de autoria do jornalista e cientista político Bruno Paes Manso, o leitor vai encontrar toda a gênese da eleição e do governo Bolsonaro. O livro foi lançado há dois meses, e neste fim de ano está alcançando a grande repercussão a que faz jus. Nele, há uma rigorosa investigação no universo do ''estado terceirizado ou leiloado'' do Rio de Janeiro onde milícias paramilitares e oficiosas de policiais e ex-militares conquistaram amplo poder político e econômico. Na república do ''está tudo dominado'' o eixo central é São Paulo e Rio de Janeiro.

''Mistura rara de reportagem de altíssima voltagem com olhar analítico e historiográfico, A república das milícias expõe de forma corajosa e pioneira uma face sombria da experiência nacional que passou ao centro do palco com a eleição de Jair Bolsonaro à presidência em 2018'', adverte a Editora do volume - e com fundamento.

E lembra que Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega e Ronnie Lessa têm seus perfis nesse trabalho que, certamente, ficará como referência obrigatória para os que estudarem a história do país no atual período e para aqueles que querem entender como se criou o ambiente propício ao descalabro e ao desgoverno do Brasil nos anos mais recentes.

Bruno Paes Manso, autor também de A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP, esquadrinha a formação dos esquadrões da morte, em 1960, atravessa o domínio do tráfico nos anos 1980/1990, vai dos porões da ditadura militar às máfias de caça-níqueis, e esmiúça a ascensão do modelo miliciano de negócios até o assassinato de Marielle Franco.

A narrativa das diferenças de operação dos grupos desse mundo que foi se entranhando nas instituições, faz refletir sobre a falta de conhecimento da grande maioria da população a respeito do universo de onde provém a família Bolsonaro.

Reflexão importante por parte de alguns leitores que comentam essa história é a análise do ''comando único'' do tráfico internacional de drogas, em São Paulo, e do varejo descentralizado desse tráfico no Rio de Janeiro onde não chegou a florescer uma classe operária industrial e onde não ocorreu a criação de comunidades eclesiásticas no interior do núcleo de igreja católica progressista, como sucedeu na capital paulista. Para preservar a governança local substituiu-se um Estado fraco e incapaz com violência, extorsões, assassinatos, sangue e frequentes traições.

Manso é repórter experiente, pesquisador rigoroso e aponta para o perigo que ronda a democracia caso as milícias sigam ocupando cada vez mais espaço.

Logo no primeiro capítulo, narrando o seu encontro e a longa entrevista com um ex-miliciano (pseudônimo ''Lobo''), num café próximo da Estação Central do Brasil, no Rio, a observação determinante de Bruno Manso: ''A amizade e o convívio com policiais reforçavam em Lobo a convicção de que violência produz ordem''.

É este o roteiro dos capítulos desenvolvidos pelo autor:

1. Apenas um miliciano

2. Os elos entre o passado e o futuro

3. As origens em Rio das Pedras e na Liga da Justiça

4. Fuzis, polícia e bicho

5. Facções e a guerra dos tronos

6. Marielle e Marcelo

7. As milícias 5G e o novo inimigo em comum

8. Cruz, Ustra, Olavo e a ascensão do capitão Ubuntu

...

Abaixo, trechos do livro e observações do autor em entrevistas recentes:

''A trajetória da violência, numa espiral crescente, foi tomando formas cada vez mais próximas de uma ocupação criminosa do Estado do Rio de Janeiro, escreve Manso. '' Se antes o Rio convivia com bicheiros, grupos de extermínio, traficantes e facções criminosas, agora o território é disputado e controlado pelas milícias, formadas por policiais civis e militares, membros do Corpo de Bombeiros, políticos corruptos, bandidos comuns e lideranças comunitárias''.

Sobre a tolerância política: ''Na leitura de Lobo, a parceria com o batalhão local e a tolerância política aos trabalhos dos milicianos são estruturais e condição para o funcionamento dos serviços de milícia no Rio''. (Lobo:) "Não adianta. Se não tiver policial junto, o trabalho não vinga. O policial vai se sentir oprimido, ver os caras andando com cordão de ouro, cresce os olhos''.

Tráfico e milícia: “O segredo de ganhar a comunidade era fazer o que o Estado não conseguia fazer. Até escola particular pra criancinha especial o Betinho pagava. Quando o tráfico quis voltar, os moradores amavam tanto o pessoal que alguns até pediam armas para ficar atirando da janela nos traficantes' contou Lobo.''

Os grupos: (Jornais cariocas) ... ''apontaram a existência de onze grupos, seis deles chefiados por policiais militares, como protagonistas da ofensiva que teria tomado 42 favelas de Jacarepaguá e da Barra da Tijuca, na zona oeste.''

Jacarepaguá nos anos 2000: ''A trajetória de Lobo me ajudava a entender o contexto de Jacarepaguá no começo dos anos 2000 e o papel do 18o Batalhão naquela região; dava mais cores ao cenário onde trabalhou o sargento Fabrício Queiroz, cuja carreira policial transcorreu, na maior parte do tempo, naquele batalhão. Desenrolando o fio, também era possível chegar ao então tenente Adriano Magalhães da Nóbrega, que depois viraria capitão. Queiroz e Adriano da Nóbrega se conheceram em 2003 no 18o Batalhão. Anos depois, em 2007, Queiroz se tornou o faz-tudo do gabinete do deputado Flávio Bolsonaro. Já Adriano da Nóbrega foi protegido pela família Bolsonaro durante anos, com parentes empregados no gabinete de Flávio, mesmo durante o período em que mergulharia no crime do Rio para se tornar um dos criminosos mais violentos da cena local''.

Forças Armadas: ''Ao lado da polícia, também desempenham papel central nessa narrativa em defesa de uma ordem violenta as Forças Armadas. Desde a redemocratização, em 1985, alguns grupos militares se ressentiram da perda de protagonismo e se uniram em torno de ideais que só vieram à tona depois da eleição de Bolsonaro em 2018. Durante anos, esses movimentos ficaram longe do debate público, com as instituições, a imprensa e os políticos praticamente alheios, como se a democracia, reconquistada a duras penas com a Nova República, pudesse se perpetuar por inércia, sem que fossem necessários cuidados e ajustes''.

Turbilhão: ''A eleição de Jair Bolsonaro se deu nesse turbilhão. Com ele, foram eleitos políticos que desdenharam do assassinato de Marielle e que a difamaram depois de sua morte. O interventor do Rio, o general Walter Braga Netto, desafiado e humilhado pelos milicianos, assumiu em 2020 o cargo político mais importante do governo Jair Bolsonaro, a chefia da Casa Civil. Braga Netto passou a liderar o governo de um político que sempre defendeu a ação, e até mesmo a legalização, dos grupos paramilitares e que havia feito pouco caso do assassinato de Marielle.

Pandemia: ''A dimensão dos problemas em que o país se enredou tornou-se ainda mais assustadora com a pandemia do novo coronavírus a partir de março de 2020, com um governo repleto de militares e um presidente negacionista que deixou o vírus se espalhar de forma descontrolada. Desenrolar o fio dessa história, sem a intenção de buscar culpados, ajuda a compreender a lógica por trás das escolhas feitas e dos caminhos seguidos por seus protagonistas. A raiva e o ressentimento que inundaram as ruas levaram representantes desses autodestrutivos à liderança do país. Entender essa trajetória, para evitar que esses erros se repitam, é uma das poucas saídas que restam aos brasileiros''.

Informações:
A república das milícias: Dos esquadrões da morte à era Bolsonaro
por Bruno Paes Manso (Autor)

Editora : Todavia
Idioma: : Português
Capa comum : 304 páginas
ISBN-10 : 6556920614
ISBN-13 : 978-6556920610
Dimensões : 20.8 x 13.6 x 1.8 cm

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