Leituras

Sobre o complexo de vira-lata

Em 'O Brasil não cabe no quintal de ninguém', a defesa firme da soberania nacional e a pergunta do economista Paulo Nogueira Batista Jr.: ''Que culpa tem o país, afinal, de ter elites ou camadas dirigentes que não chegam a seus pés?''

14/11/2019 15:13

(Reprodução/Editora 247)

Créditos da foto: (Reprodução/Editora 247)

 

Não podia ser mais adequado o momento atual, com os diversos lançamentos acompanhados de palestras e debates do livro mais recente de autoria do economista Paulo Nogueira Batista Jr., O Brasil não cabe no quintal de ninguém. O título irônico cai como uma luva quando se vê, novamente escancarada, a cobiça permanente do grande irmão do norte e o seu olho grande nas nossas riquezas e potencialidades.

Considerem-se também os mais recentes acontecimentos apontando para mais uma investida violenta tentando a desestabilização política/econômica urgente da América Latina e se aproveitando, nessa urgência, das sombras neofascistas que pairam sobre a democracia no continente e, em particular, no Brasil.

Esta semana, por exemplo, em mais uma demonstração da força autoritária vigente em Brasília, a venda do volume foi censurada na livraria da Câmara dos Deputados onde o autor fizera palestra, no Seminário Brics dos Povos, uma preparatória da Cúpula dos Brics.

Durante essa reunião organizada por movimentos populares do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, na Câmara, Nogueira Batista Jr. teve a venda do seu livro proibida na livraria da casa pela segurança do local, uma iniciativa do Setor de Eventos da Câmara, certamente com o conhecimento do seu responsável maior, o presidente da instituição.

Para que a venda dos livros fosse aprovada, os volumes deveriam ser analisados, um a um, pela equipe de segurança da Câmara.

O que faz com que o livro de Nogueira Batista Jr. seja objeto de censura, no entender da Câmara? Talvez observações do ex – vice - presidente do Banco dos BRICS como esta, recente:

“Infelizmente, tivemos um revés na Bolívia, com um golpe violento contra o presidente Evo Morales. Mas a luta é assim, feita de vitórias e reveses. Eu diria que, apesar disso, a tendência geral da América Latina é no sentido positivo, no passado recente. ’’

‘’ Positivo no sentido de recuperar a autonomia, de recuperar governos voltados para a inserção social e a distribuição de renda. O alinhamento com os EUA afeta a credibilidade do Brasil,” declarou o autor do livro cujo subtítulo é Bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e nos BRICS e outros textos sobre nacionalismo e nosso complexo de vira-lata.

Nele, a linha mestra de Nogueira Batista Jr. é justamente a defesa e reafirmação da soberania do Brasil, e a narrativa privilegiada dele, como ex-diretor do FMI pelo Brasil, mostrando a altivez, a independência e o profissionalismo de quadros dos nossos economistas e diplomatas, nas últimas décadas, aqueles que vinham conduzindo as políticas comerciais econômicas internacionais, sobretudo no âmbito do Banco de Desenvolvimento dos BRICS criado em Xangai e efetivado em Fortaleza, em 2014, e do qual Nogueira Batista foi vice-presidente.

‘’Cada texto é independente e pode ser lido isoladamente. É uma vantagem, ’’ adverte o autor na dinâmica apresentação do volume (escrita em junho deste ano), com 32 páginas, pequeno ensaio sobre o trabalho intitulado Nacionalismo – herança, fio condutor.

‘’Dois terços do conteúdo do livro são textos inéditos, ’’ ele registra, ‘’escritos recentemente, e cujos temas são o FMI e o grupo dos BRICS; este, um processo ‘’ainda embrionário, de constituir mecanismos independentes de financiamento internacional.’’

‘’Um processo que continua ou precisa continuar em todas as frentes. E este relato pode ajudar, espero, nessa retomada. ’’

 Os primeiros capítulos são técnicos: Reforma da arquitetura financeira mundial: FMI e G20; BRICS e banco dos BRICS; Nação, nacionalismo, caráter nacional, e Economia política brasileira. No quinto, Perfis. Deliciosas considerações informais sobre Leonel Brizola, Celso Furtado, Juscelino Kubitschek, John Galbraith, Getúlio Vargas, Gustavo Kuerten – o Guga, Maurice Barrès, Otto Lara Resende (e Nelson Rodrigues), Abraham Lincoln e sobre Lula - este, com o titulo de Lembranças de um outro Brasil, onde ele testemunha e participa de um encontro do ex-presidente com organizações de catadores de lixo.

Um trecho‘’ (...) ele me perguntou se eu não gostaria de participar da próxima reunião na sua agenda que era com as lideranças de catadores de lixo. Aceitei e acabei presenciando um diálogo muito interessante. Vieram lideranças do Brasil inteiro, homens e mulheres, pessoas articuladas e inteligentes, representantes de um movimento social organizado. Lula conhecia todo mundo e mostrou impressionante domínio dos detalhes do trabalho dos catadores, da história do movimento e das suas reinvidicações. ’’

‘’Mas o que mais me ficou na lembrança foi a natureza da relação entre Lula e as lideranças de um movimento popular. A relação era de respeito, mas não de veneração e muito menos de adulação.”

(...) “Era o diálogo franco e substantivo de um líder político natural, autenticamente democrático, com integrantes de sua base social. ’’ Sua conclusão: ‘’ Saí dali energizado, confiante de que o Brasil estava entrando em nova etapa da sua história. ’’

Nogueira Batista Jr. encerra o livro com um sexto capítulo: Humor econômico e outras crônicas. Uma compilação de textos seus publicados em diversos meios de comunicação entre 2005 e este ano. Em um deles, O complexo de vira-lata, relembra uma reportagem de 2010 publicada na influente revista alemã Der Spiegel, com várias páginas, intitulada Lula Superstar onde o redator se refere ao complexo brasileiro de vira-lata que, segundo ele, teria sido superado há pouco; cerca de dez anos.

Ele arremata e fecha o seu trabalho com esta observação: ‘’Não iria tão longe. O complexo de vira – lata tem raízes históricas, culturais, raciais muito mais fundas do que se pode imaginar. ’’

O Brasil não cabe no quintal de ninguém, como se vê, é leitura técnica, em alguns casos, porém de linguagem acessível ao leigo - não é o economês dos especialistas. Uma leitura necessária e recomendada, sobretudo neste perigoso momento de transição que vivem o Brasil e o continente sul-americano.




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