Leituras

Todos na Mesma Quadrilha

Em 'Quadrilha', que a Editora Patuá apresenta aos leitores em 2020, Luiz Eduardo de Carvalho retorna à narrativa ágil que caracteriza sua escrita

09/04/2020 14:16

(Reprodução/Facebook)

Créditos da foto: (Reprodução/Facebook)

 
Quadrilha, de Luiz Eduardo de Carvalho, ex-editor de Arte e Cultura na Carta Maior, é uma vibrante e atual novela que transcorre no período de um único dia, 24 de junho de 2019, marcado pela última festa de São João que anualmente se repetia pela tradição dos moradores de uma vila de classe média emergente em São Paulo.

Todos os personagens estão de alguma forma empenhados com o preparo da celebração que culminará com uma quadrilha, não a simular um casório na roça, mas, para a surpresa de quase todos, ser o altar de um matrimônio real, seguido de outros contratos vantajosos para os envolvidos.

As cenas transcorrem em um cenário de contida tensão política que separou mentalidades opostas em dois distintos grupos irreconciliáveis e exacerbou as diferenças a ponto de gerar a intolerância recíproca e bilateral. Momento propício para o estreitamento de laços entre iguais para projetos comuns, sejam quais forem, até mesmo aquela fraterna comunhão para a formação de uma inocente quadrilha junina.

Em Quadrilha, que a Editora Patuá apresenta aos leitores em 2020, Luiz Eduardo de Carvalho retorna à narrativa ágil que caracteriza sua escrita em um impactante texto que também evidencia outra marca de sua arquitetura ficcional: o desafio à rigidez dos gêneros literários.

Muitos leitores de Sessenta e Seis Elos (FCP, 2016 – I Prêmio Oliveira Silveira - MinC) fecharam o livro sem conseguir decidir se leram uma novela contemporânea, um romance histórico ou uma profusão de contos entremeados. Em Xadrez (Patuá, 2019 – Prêmio cidade de Belo Horizonte), voltou à carga com um romance histórico, desvirtuado pelo caráter epistolar que roga prerrogativas de mini resenhas de acontecimentos políticos e culturais do período da redemocratização brasileira, dando-lhe enxertos salpicados de crônica. Todos trazem alguma poesia incidental.

Quadrilha é, a rigor, uma novela. O prólogo, no entanto, e logo de partida, impele à leitura de um breve ensaio a situar e contextualizar a geografia e a cronologia da curta narrativa que, a seguir, levará ao desenlace de um conflito central único, amplamente compreendido apenas no final, como num conto. Tal enredo é tecido por oito distintos e entremeados núcleos, cujos dramas internos são secundários, mas concorrem para a construção do principal, como é aconselhável que aconteça em uma novela. Além da extrema contemporaneidade, todas as ações estão restritas ao Dia de São João e tratam, no decorrer de poucas horas, de fatos corriqueiros e afeitos à crônica dissimulada na voz dos personagens que os comentam. Na conclusão, contudo, resta subentendido o deslinde de uma história maior, como se tudo fora o espectro de um romance fantasma que narrou, sem que o fizesse, a longa e permanente mutação da grande metrópole paulistana, concebida como uma complexa personagem, central e subjacente a todas as oportunidades.

Assim, as vias das transformações urbanas ocupam, sem serem notadas, o foco do enredo que se fragmenta e dispersa nas ocorrências do cotidiano para expor, entre projetos e edifícios, entre obras e ruínas, os atores do progresso e suas motivações imersas em um contexto político de total bipolarização de mentalidades excludentes, tema de fundo que tensiona a narrativa em todas as suas nuances. Um mundo partido, sem partidos, fragmentado e calcado na escalada das oportunidades, nem sempre lícitas, que contemplam os oportunistas, nem sempre ilibados.

Da estranha comunhão que possa haver entre os tantos destinos díspares, urde-se um intricado tecido social que agrega o diversificado grupo de personagens confinados numa vila e unidos em uma quadrilha, por uma noite, para comemorarem o São João.

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Luiz Eduardo de Carvalho (Silvana Barreto)

Eduardo Carvalho sempre atuou na intersecção entre Cultura, Educação e Política e emprestou da Comunicação Social as ferramentas para as pontes. Estudou Farmácia e Bioquímica e Letras na USP e formou-se em Comunicação Social na ESPM, licenciado em Língua Portuguesa pela Uninove. Foi professor, teatrólogo, jornalista, publicitário, assessor político. Sempre militou pela Cultura. Desde 2015, dedica-se exclusivamente à Literatura e já recebeu dezenas de prêmios, entre eles o Oliveira Silveira de 2015 (Sessenta e Seis Elos), dois de Incentivo à Publicação em 2018 e 2019 (Evoé, 22! e Um Conto de Réis – e de Rainhas, respectivamente), e o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2016 (Xadrez).

Publicou também O Teatro Delirante (2014 – poesia erótica e lírica), Retalhos de Sampa (2015 – poesia), ambos pela Editora Giostri, Sessenta e Seis Elos (2016 – romance) pela Fundação Palmares MinC e Xadrez (2019 – romance) pela Editora Patuá.

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