Leituras

Um guia irreverente da história do socialismo

'O manifesto socialista: em defesa da política radical numa era de extrema desigualdade', de Bhaskar Sunkara, lançado esta semana, é uma visão realista de um futuro à esquerda

08/02/2021 17:45

Bhaskar Sunkara (Erin Baiano/NYT)

Créditos da foto: Bhaskar Sunkara (Erin Baiano/NYT)

 
Que cara teria um sistema socialista no século XXI? O livro que está sendo lançado pela Editora Boitempo, O manifesto socialista, do fundador da revista Jacobin, Bhaskar Sunkara, responde a pergunta mergulhando, com descontração, na história do socialismo. E apresenta uma visão realista de como pode ser o futuro dessa tradição política hoje.

Com a crescente popularidade da nova esquerda nos Estados Unidos, representada por Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar e Ayanna Pressley, os estadunidenses estão abraçando a política classista do socialismo. Mas o que, afinal, significa socialismo?

Utilizando a história e sua própria experiência de militância, o editor da Jacobin explica como os socialistas podem conquistar melhores condições de vida e moradia, criar instituições democráticas nas comunidades e locais de trabalho, e, ao mesmo tempo, combater opressões como o racismo e o machismo.

Sobre o livro, Naomi Klein escreveu: “Acessível, irreverente e divertido, Bhaskar Sunkara produziu um guia afiadíssimo da história do socialismo, sua promessa transformadora e seu caminho de conquista do poder. É também um convite irresistível para se juntar na construção desse poder, e dar forma ao futuro radicalmente democrático que representa nossa melhor esperança nestes tempos tão críticos.”

Para degustação do leitor, abaixo, trechos do prefácio de Sunkara:

''É evidente que as coisas estão mudando. Na época do meu ensino médio, quando eu dizia que era socialista, as pessoas me olhavam como se fosse um louco. Hoje, quando digo isso, elas simplesmente assentem e continuam tocando o dia, sem demonstrar indício algum de repulsa física. (...) Descobri o socialismo praticamente por acaso. Meus pais imigraram para os Estados Unidos vindos de Trinidad e Tobago com quatro filhos, logo depois do meu nascimento. Minha mãe trabalhava à noite como operadora de telemarketing e meu pai, um trabalhador não qualificado, acabou assumindo um cargo como servidor público da cidade de Nova York.''

(...)''Depois de rodarem um pouco pelo país, meus pais acabaram alugando uma casa numa cidade suburbana com um bom distrito escolar. Mesmo não possuindo muito, eu tinha o suficiente – um lar decente, uma boa educação, quadras de basquete e uma biblioteca pública onde passei tempo demais da minha juventude. Minha vida foi muito mais confortável se comparada à de meus pais no mundo no qual nasceram, ou mesmo à dos meus irmãos mais velhos.''

(...) ''O motivo, para mim, era claro: os esforços incansáveis da minha família, certamente, mas, mais do que isso, o ambiente à minha volta. E aquele ambiente não teria sido possível sem o Estado. Temos uma social-democracia nos Estados Unidos – mas ela é excludente e é financiada por um sistema regressivo de tributação sobre propriedade (no caso dos meus pais, alugar foi a brecha que encontraram).''

(...) ''Por um acaso, nas férias de verão da sétima série, retirei um exemplar de Minha vida, de Leon Trótski – a leitura não me agradou particularmente (ainda não me agrada), mas me deixou intrigado o bastante para ir atrás das biografias de Trótski escritas por Isaac Deutscher, as obras de pensadores socialistas democráticos como Michael Harrington e Ralph Miliband, e, por fim, até as do misterioso Karl Marx.''

(...) ''Vejo pessoas dizerem que seus corações são socialistas, mas que suas mentes, ao se tornarem mais pragmáticas com o passar do tempo, são liberais moderadas. Talvez eu tenha trilhado o caminho oposto. Pude constatar a importância das reformas cotidianas, tendo sido inclusive beneficiário direto dessas conquistas graduais.''

(...) ''O marxismo forneceu um arcabouço teórico para compreender por que as reformas conquistadas no interior do capitalismo eram tão difíceis de sustentar e porque havia tanto sofrimento em sociedades de muita abundância. Por fim, combinei meu coração social-democrata e meu ainda rudimentar cérebro marxista de modo a formar a política à qual hoje me filio: um radicalismo ciente da dificuldade da transformação revolucionária e, ao mesmo tempo, de quão profundos podem ser os ganhos com as reformas.''

E alguns trechos do posfácio à edição brasileira:

(...) ''Cinco anos atrás, a esquerda estadunidense era praticamente inexistente, ao menos em qualquer forma mais visível. As duas campanhas de Sanders mudaram isso, confirmando nossas suspeitas de que os programas social-democratas são populares e que há milhões de pessoas cansadas de passar aperto para conseguir sobreviver em sociedades profundamente desiguais. Encontramos na figura de Sanders um porta-voz sem papo furado para uma política franca e direta e fomos recompensados com duas oportunidades viáveis de chegar ao poder estatal.''

(...) ''Já no caso da Grã-Bretanha, as duas derrotas de Jeremy Corbyn se mostraram mais frustrantes. Ainda assim, é difícil argumentar que a esquerda do Partido Trabalhista britânico se encontra hoje em uma situação pior do que há meia década. De vozes marginais de consciência, os esquerdistas passaram agora a representar o maior bloco de filiados do partido, especialmente entre os jovens''.

(...) ''Bernie Sanders, em particular, abriu uma rota alternativa para a luta de classes no país onde esse cenário parecia o mais fantasioso. Nosso objetivo era usar uma campanha eleitoral e, finalmente, a plataforma privilegiada da presidência para fazer uma engenharia reversa do processo e estimular a luta de classes de baixo para cima. De fato, a campanha de Sanders estava repleta de propostas que teriam facilitado a formação de sindicatos, e seus apoiadores estavam prontos para criar órgãos duradouros da classe trabalhadora a fim de transformar a política dos Estados Unidos.''

(...) ''Com a derrota de Sanders, talvez não tenhamos retrocedido ao ponto de partida, mas me vejo forçado a reconhecer que construir o socialismo democrático no coração do império não será uma tarefa tão fácil. Temo, além do mais, que estão sendo tiradas muitas lições equivocadas das derrotas de Corbyn e Sanders''.

*Com informações da Editora Boitempo





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