Uma ponta do véu escuro

No livro de Eduardo Reina, recém lançado, Cativeiro sem fim, depoimentos de testemunhas e de familiares das crianças que também foram sequestradas durante a ditadura civil-militar no Brasil, e não apenas em outros países do Cone Sul

15/04/2019 10:26

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O livro reportagem de Eduardo Reina, Cativeiro sem fim, não poderia ter nascido em momento mais oportuno. O momento em que o capitão que ocupa a presidência escolheu para nos informar que 1964 não foi golpe e o que se seguiu não foi ditadura.

Nele se levanta um pouco mais o véu escuro que durante 21 anos cobriu o Brasil. Em suas páginas tomamos conhecimento, de forma clara e documentada, daquilo que intuíamos de forma nebulosa, mas que agora vem à tona em toda sua crueldade. O sequestro de crianças não ocorreu apenas nas demais ditaduras do Cone Sul. Esta prática se deu também em nosso solo, mãe gentil.

Tomamos conhecimento, através da minuciosa pesquisa feita por Reina, que pelo menos dezenove crianças e adolescentes foram vítimas de sequestro, todos filhos de pessoas que se opunham ao regime ditatorial de então. Onze foram sequestrados no Araguaia e oito em outros estados, entre os quais Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Pernambuco, sendo alguns em aldeias indígenas.

Bebês e crianças foram entregues para adoção irregular a famílias de militares ou largados em orfanatos. Paulo Fonteles Filho era filho de Hecilda Fonteles Veiga. Nascido na prisão, foi sequestrado logo ao nascer para aumentar a pressão sobre a mãe. Tempos depois entregaram o bebê aos avós.

Entre tantos outros, impressiona o depoimento à Comissão de Anistia de Iracema de Carvalho Araújo. Em Recife, no dia 19 de maio de 1964, foi presa com sua mãe militante do PCB, encapuzada e levada para o DOPS. Lá, a menina de onze anos foi colocada num tanque cheio de água com fios desencapados que provocavam choques. Não conseguia ver a mãe, mas ouvia os gritos que esta dava ao ser torturada. Depois de certo tempo foi levada para a Praça do Derby, onde foi abandonada. Com esforço, conseguiu voltar para casa e foi abrigada por vizinhos. Nunca mais viu a mãe.

Os adolescentes sequestrados na região do Araguaia sofreram um processo de tortura e lavagem cerebral dentro de destacamentos militares. Com documentos falsificados, serviram o exército, exercendo as mais baixas funções, sem que lhes fosse dada nenhuma instrução. Dentre eles destacam-se os nomes de José de Ribamar, José Wilson de Brito Feitosa e Osniel Ferreira da Cruz, o Osnil.

Os três estiveram presos na base militar de Bacaba, na região da Transamazônica. Esta base, assim como outras na região, tinha como masmorra o Vietnã, um grande buraco sem cobertura, cavado na terra, de três metros de profundidade. As pessoas ali ficavam vários dias, muitas vezes nuas, sem receber água ou comida, expostas ao sol inclemente da região. Pelo Vietnã da base de Xambioá passou José Genoíno.

Todos os fatos apurados por Reina foram levados ao conhecimento do Ministério Público Federal, o qual, através da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, transformou seu depoimento em diversas representações junto aos órgãos ministeriais competentes.

A barbárie da repressão levada a cabo entre 1964 e 1985 tinha o objetivo de aterrorizar a população e matar até o último militante político e camponeses ou simpatizantes que com eles colaboravam ou denunciavam o regime. Todos os meios justificavam os fins: torturas de crianças na frente dos pais, de pais na frente de crianças, sequestrar estas últimas para extirpar de suas mentes a ideologia dos pais ou, no caso dos bebês e crianças pequenas, impedir que viessem a se contaminar com o que consideravam o vírus do “grande mal”. Estas as diretrizes do Alto Comando Militar avalizadas pelos generais presidentes – Médici e Geisel.

Na opinião dos militares, a fim de corrigir desvios, fazia-se necessário pasteurizar a sociedade, tornando-a homogênea e dócil aos princípios por eles considerados elevados e corretos. Entre estes se destacava o nacionalismo a qualquer preço e o anticomunismo acima de qualquer coisa, cuja versão atual é “o Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Não vamos aceitar que deturpem nossa história. Ela não tem que ser negada. O que lhe falta é ser melhor contada com a inclusão de novas descobertas, como a desta infâmia que o livro de Eduardo Reina traz à luz.











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