Leituras

Vida e morte da rosa vermelha de Berlim

Leitura indispensável, 'Rosa Luxemburgo - Pensamento e Ação' é biografia indispensável e de referência da lendária e combativa revolucionária do socialismo, uma inspiração para as estudantes e mulheres brasileiras em particular

14/03/2019 09:45

 

 
Nesta esquálida temporada de lançamentos do mercado editorial brasileiro – assim como a do mercado livreiro -, um dos que mais sofrem com a entrada em recessão à qual dois golpes (2016 e eleições 2018) e as crises sucessivas políticas dos dois últimos anos nos levaram, uma novidade da Editora Boitempo em aliança com Edições Iskra traz luz, força e inspiração aos resistentes, militantes, estudiosos e pesquisadores da história do socialismo.

O volume Rosa Luxemburgo – Pensamento e Ação, biografia recém editada no Brasil da célebre revolucionária polonesa, conta com três trunfos e a faz material de referência obrigatória.

Um deles, o próprio autor, o alemão Paul Frölich. Companheiro da líder comunista em diversas batalhas, ele conseguiu salvar e reunir grande parte dos escritos da sua amiga apesar das imensas perdas de artigos, cartas privadas e políticas, de anotações preciosas, e do boicote e desaparecimento desse material, fruto de sérias dissensões entre facções da Internacional Comunista, não admitidas até hoje.

Pois essa mesma Internacional encarregou o militante alemão de selecionar e elaborar o trabalho intelectual da mestra e assim recuperar o seu legado de modo a evitar o risco, como registra o prefácio da edição de 1948, ‘’ de que de toda a realização histórica de Rosa Luxemburgo só restassem uma pálida memória e uma lenda enganadora. ’’

O segundo trunfo é o lançamento da biografia chegar às livrarias no mesmo mês em que tradicionalmente é celebrado o Dia Internacional da Mulher*, este ano data comemorada de modo notável com a afirmação definitiva da formidável organização do movimento feminista no mundo inteiro, com todos os seus matizes, através das imensas e vibrantes manifestações de rua em praticamente todos os países.

E outra ferramenta é inspirar as moças das novas gerações brasileiras, estudantes secundaristas e alunas das universidades, aquelas que, sem dúvida, serão a linha de frente para moldar a nossa realidade futura de um modo mais fraterno, mais justo e mais igualitário.

O livro reproduz o início da militância de Rosa, nascida na pequena cidade de Zamosé, próxima da então fronteira da Polônia com a Rússia, com apenas 14 anos de idade.

No belo prólogo especial à edição brasileira (370 páginas), a jovem historiadora Diana Assunção, trabalhadora na Faculdade de Educação da USP e dirigente do Movimento Revolucionário de Trabalhadores comenta:

“Imagino o efeito que teria, para milhares de mulheres e meninas de todo o mundo que agora se levantam como uma força incomparável contra o patriarcado, saber que Rosa ainda era uma estudante secundarista quando se uniu ao movimento revolucionário clandestino na Polônia, passando a partir daí a exalar energia comunista em cada uma de suas ações e discursos, buscando atingir a todos como uma trovoada.”

Forte, generosa e criativa, como diz o autor, a trovoada Rosa Luxemburgo foi uma liderança de ‘’talento genial’’, um temperamento intempestivo, dona de alegria constante e de inesgotável energia política na prática da polêmica e dos encontros e debates com trabalhadores.

O trabalho atual é uma ‘’ obra de referência indispensável, ‘’ anota Michael Löwy, estudioso brasileiro do marxismo radicado na França, na orelha que produziu para o volume. “A vida e a obra de Rosa Luxemburgo se caracterizam pela extraordinária unidade entre pensamento e ação, teoria e prática, conhecimento científico e compromisso com a luta dos oprimidos. ’’

Paul Frölich cobre a trajetória da revolucionária e percorre, num estilo vivo, ágil e cativante a sua juventude na casa dos pais inteligentes, cultos e cosmopolitas – uma família russificada - e ao lado das quatro irmãs. A mudança para a Suíça para onde se transferiu para estudar, ainda bem moça, e sua visão de mundo marxista.

Em Zurich, a narrativa segue com o encontro de Rosa com outro célebre líder do movimento socialista, o discreto e reservado lituano Leo Jogiches, com quem manteve, durante boa parte de sua vida, uma relação amorosa e, depois da separação, de estreita amizade a qual perdurou até a morte dele.

Também as suas considerações importantes sobre poder político, sobre a Rússia de 1905, as decepções, a guerra e, depois, a Rússia de 1917 com a crítica construtiva aos bolcheviques e os contatos com Lênin. O retorno a Berlin, a criação da célebre Liga Spartakus, a contra-revolução protofascista da social-democracia e a fundação do Partido Comunista.

A partir desse ponto, o autor descreve a consciência da mestra, como se referiam a ela, de quanto ela se encontrava exposta ao risco da prisão e da morte violenta. Transcreve a observação de Luxemburgo em uma carta endereçada a outra sua grande amiga, Sonia Liebknech: “Você sabe que eu, apesar de tudo, espero morrer a postos: numa batalha urbana ou na penitenciária.”

Os ‘’caçadores de cabeças’’ a procuravam através da cidade, em especial nos bairros proletários, e caçavam-na e aos companheiros, para matá-los e receberem os cem mil marcos de recompensa prometidos, pagos depois a eles pelo Partido Social-Democrata alemão.

O assassinato da Rosa Vermelha como era chamada pelos trabalhadores alemães ocorreu no dia 15 de janeiro de 1919 quando ela e o companheiro Karl Liebknecht, outro alvo preferencial, foram presos.

O crânio da filósofa e economista foi esmagado por duas coronhadas desfechadas por um tenente dentro de uma delegacia. O corpo inerte foi jogado num carro, e ela, semi consciente, foi alvejada com um terceiro golpe. Em seguida, um tiro na cabeça matou Rosa Luxemburgo.

O corpo foi levado no carro, como registra Frolich, ‘’para o zoológico de Berlin e atirado da ponte Liechtenstein no canal Landwehr de onde ressurgiu em maio de 1919. “

Trotsky escreveu, evocado por Diana Assunção no seu prólogo de Pensamento e Ação, se referindo a Rosa Luxemburgo e a Liebknecht ‘’ (...) eles já não estão mais em nosso mundo, mas seguem entre nós; viveremos e lutaremos animados pelas suas idéias (...)

São idéias de um ‘’feminismo socialista e operário‘’ como acrescenta Assunção, que, certamente, inspiram e animam as meninas e as mulheres brasileiras em particular nestes tempos adversos em que as todas as forças da resistência e da energia política são exigidas de nós.

*Clara Zetkin, grande amiga e companheira de lutas de Luxemburgo foi quem criou e proclamou o dia 8 de março como Dia Internacional da Mulher, em 1910.







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