Literatura

"As Histórias em Quadrinhos premiadas na feira Des.gráfica 2017"

Na feira de quadrinhos Des.gráfica 2017, os prêmios foram para os quadrinhos experimentais

03/04/2018 10:36

 

 
Nos dias 4 e 5 de novembro de 2017, aconteceu na cidade de São Paulo a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica, no Museu da Imagem e do Som, o MIS. Além de palestras com especialistas em HQs, a feira é destinada à exposição e venda do quadrinho alternativo, o que traz duas implicações: (1) porque são quadrinhos alternativos, estão fora do mercado comercial; (2) as editoras, por isso mesmo, também são alternativas.

Escrever a respeito do quadrinho alternativo, consequentemente, é também fazer distinções entre ele e os quadrinhos comerciais. Mas o que significa isso: quadrinho comercial? Em termos gerais, são os quadrinhos da indústria cultural; isto é, são os quadrinhos produzidos em escala industrial. Para quem está na banca de jornais ou na comic-shop, as histórias da Marvel, da DC e alguns mangás são comerciais. Não digo isso com desprezo, leio as aventuras dos super-heróis da Marvel desde os seis anos de idade; sei valorizar a criatividade da DC e da Vertigo; há mangás geniais.

Tenho 53 anos, além de apreciar tudo isso, vivi também um tempo em que havia, nas mesmas bancas, as edições da revista Animal. A Animal circulou no Brasil de 1987 a 1991, em um total de 22 edições, mais 8 edições das Grandes Aventuras Animal e 2 edições da Coleção Animal; um projeto levado adiante por Rogério de CamposCelso Singo AramakiNewton Foot e Fábio Zimbres. A Animal se destaca, entre suas muitas qualidades, por haver publicado e, por isso mesmo, divulgado grandes artistas da HQ europeia pela primeira vez no Brasil. Não eram histórias banais; a Animal publicava narrativas polêmicas, alternativas em seus países de origem. Seus temas referiam-se a drogas pesadas, sexo sadomasoquista, distopia, críticas à cultura de massas; as formas de expressá-los eram inovadoras, com estilos gráficos próximos da cultura pop e da história da arte, inclusive das vanguardas do século XX.

Mas por que mencionar a Animal tratando-se de comentar a Des.gráfica 2017? Em suas publicações do quadrinho alternativo internacional, a Animal se aproximava da vocação também alternativa do quadrinho brasileiro, não apenas por haver publicado autores brasileiros, mas porque expressava essa filosofia de valorização da arte. Essa mesma filosofia pautava a linha editorial de outra revista, a Circo, da editora Circo, fundada em 1984 por Toninho Mendes – quatro anos antes da Animal ser lançada –; a editora Circo foi responsável por reunir autores como Luiz Gê, Laerte, Fernando Gonzales, Angeli. A revista Circo não publicava apenas artistas brasileiros; assim como a Animal, ela divulgava trabalhos de outros países, entre eles, os quadrinhos de Robert Crumb.

Ora, nos dias de hoje, diante dos mostradores das bancas de jornais, sem Circo e sem Animal, o que restaria do quadrinho nacional? Praticamente, nada. Desse modo, por estar às margens da indústria cultural, praticamente todo quadrinho brasileiro, podendo se desenvolver livremente, é alternativo. Isso se reflete na feira de modo geral e nos cinco finalistas, premiados com a publicação em encadernação especial, própria da coleção Des.gráfica; em 2017, os cinco finalistas foram: “Sonho médio”, do Guilherme Wanke; {DR}, do Samuel de Gois; “O Elvis que eu amo”, da Kelly Alonso Braga; “Ainda ontem”, da Taís Koshino; e “Gastrite nervosa”, da Lovelove6.

Em “Sonho médio”, do Guilherme Wanke, é tematizado o passar dos dias na vida urbana contemporânea, expressando um cotidiano bastante específico: o da classe média isolada em condomínios habitacionais. O tema não é inédito; Wanke, contudo, soube expressá-lo por meio de uma figura de linguagem, regente de toda sua narrativa: a repetição. A HQ é totalmente visual, não há texto verbal em nenhuma passagem; trata-se da repetição de cenas de elevadores, garagens, playgrounds, imagens vistas através das janelas, todas elas em diversas horas do dia. Não se trata de repetição simples, mas de repetição com variações sutis, que necessitam da atenção do leitor para fazer sentido.

Em {DR}, do Samuel de Gois, é tematizado o diálogo. Sua HQ também está baseada na repetição visual; em toda página par há o perfil direito da cabeça humana, que contrasta com o perfil esquerdo em todas as páginas ímpares. Uma vez aberta, as faces entram em constante diálogo; cada dupla de páginas par-ímpar é uma variação sobre a repetição das faces, em que o Eu, longe da subjetividade vulgar, constrói-se sempre através do Tu.

Os trabalhos de Kelly Alonso Braga e Taís Koshino também são sobre relacionamentos humanos; enquanto o primeiro, “O Elvis que eu amo”, está próximo da comédia, “Ainda ontem” tem conteúdos bem mais dramáticos. “O Elvis que eu amo” é composto por colagens, nas quais Elvis Presley, em fotografias, atua com desenhos da narradora, que fala, em tom confessional, de suas obsessões com o cantor. Entre fotos e desenhos de si mesma – com traços irregulares, feitos para simular desenhos amadores –, a autora simula, na construção do álbum, sua obsessão; a HQ pode ser cópia de seu diário maluco e não apenas, obra de ficção.

Esse desenho ingênuo, próximo da criatividade das crianças, é levado adiante e intensificado por Taís Koshino em “Ainda ontem”. Na dedicatória que a autora fez para mim, quando adquiri a HQ, ela escreve: “para poder ver as escolhas que não podemos escolher”. Por ser quadrinhos, isso é literal; as expressões e percursos das personagens permitem ver, em imagens, os paradoxos tematizados na frase da artista. A simplicidade do traço, vista com atenção, revela-se paradoxalmente complexa; as linhas, em função do tema do arbítrio – que se fundamenta não na subjetividade da narradora, mas em suas relações com as outras subjetividades –, de arte ingênua, tornam-se expressionistas.

Por fim, gostaria de me deter na arte da Lovelove6, “Gastrite nervosa”. Lovelove6 é militante feminista? “Gastrite nervosa” é quadrinho engajado? Como todas essas questões se articulam na linguagem da história em quadrinhos? Antes de tudo, “Gastrite nervosa” é um trabalho fantástico, tanto na arte, quanto no engajamento político.

Não vou me perder fazendo análises do feminismo, não sei o suficiente a respeito do tema, nem vou buscar enquadrar a autora em agendas ideológicas; vou escrever sobre o que eu li: um sufoco. Isso mesmo, “Gastrite nervosa” soa, paradoxalmente, como quando não se pode falar. Não me refiro apenas ao que se faz com a protagonista da HQ, uma trabalhadora que entrega seu corpo como mesa para sushi erótico; refiro-me ao que isso simboliza, seja como exposição da realidade, denunciando o machismo, seja como metáfora da condição feminina.

O machismo é uma ideologia feita para justificar o patriarcado, mas não de forma sutil, seus valores tendem para a falta de inteligência e exacerbação da brutalidade. Em outras palavras, o machismo é a face mais espúria e opressiva desse tipo de sistema social. O feminismo, em meio a isso, é uma forma de lutar, antes de tudo, contra a morte simbólica da mulher. No patriarcado, como se sabe, não há diversidade entre as mulheres, elas são esposas ou prostitutas; isso se confirma em “Gastrite nervosa”: a protagonista vende seu corpo não especificamente para relações sexuais costumeiras, mas para um fetiche bastante específico, sendo, a seu modo, também prostituta; lá está ela na capa da HQ, completamente reificada, servindo de bandeja para o sushi.

Espero, com essas breves observações, haver despertado o interesse dos leitores para quadrinho nacional. Infelizmente, a coleção Des.gráfica é limitada, seus volumes não são fáceis de encontrar fora da feira; resta ficar atento para a Des.gráfica 2018, provavelmente no final do ano.





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