Literatura

Notas de Leitura 1: Caminhos da resistência em ''Torto Arado''

Fenômeno editorial, 'Torto Arado' traz, a partir de uma escrita fluida e poética, o cotidiano de sobrevivência e a luta de resistência de uma família quilombola na Chapada Diamantina (Bahia)

18/03/2021 09:57

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 
É muito provável que a ilustração acima, da artista visual Linoca Souza, tenha chegado até você. Ela é a imagem de capa de Torto Arado (Todavia), romance do escritor Itamar Vieira Jr., pela segunda semana consecutiva a obra de ficção mais vendida na lista da Publishnews, e outras de igual relevância.

Em fevereiro deste ano, quando o livro bateu a marca de 70 mil exemplares vendidos, a piauí registrou o fenômeno, trata-se de um sucesso raro no mercado editorial do país, cujas edições raramente ultrapassam a tiragem de 5 mil cópias. E estamos falando em autor fora do eixo Rio-São Paulo e praticamente estreante.

E que estreia...

Lançado em Portugal após levar o Prêmio LeYa 2018, Torto Arado venceu outros dois prêmios – o Jabuti e o Oceanos – em 2020. Resenhas, análises, entrevistas e diversas participações do escritor na mídia somam-se a recomendações de leitores tocados pelo romance.

Entre eles, personalidades da cultura e até mesmo da política, como o ex-presidente Lula que disse ter se lembrado de sua infância no sertão.

Com a chancela de todas essas premiações, o poder de disseminação do mercado, o boca a boca de leitores turbinando o romance pelas redes, o céu parece o limite para Torto Arado, mas...

O que é que esse romance tem?

Pergunta que acena às origens baianas de Itamar, conterrâneo de Jorge Amado e de Glauber Rocha, dois gigantes da cultura nacional, com carreiras internacionais e poder de mídia, capazes de trazer o povo para o primeiro plano de suas histórias. Torto Arado segue a trilha...

Desde a capa é possível identificar a ancestralidade africana de suas personagens. E a ilustração concretiza esse encontro, ao se inspirar em duas trabalhadoras rurais clicadas pelo fotógrafo Giovanni Marrozzini, na Aldeia Abam, em Camarões, na África:


(Giovanni Marrozzini)

Fazendo do facão a espada de São Jorge e transpondo, em sua combinação de cores, a força e a amizade dessas duas mulheres, Linoca constrói a presença das irmãs Bibiana e Belonísia, personagens centrais no romance, que acompanharemos da infância à idade adulta.

Torto Arado traz, a partir de uma escrita fluida e em vários momentos poética, o cotidiano de sobrevivência e a luta de resistência de uma família quilombola instalada na fazenda Água Negra, na Chapada Diamantina (Bahia).

Escrito em primeira pessoa, o romance combina os acontecimentos nesta fazenda e as memórias de três vozes narrativas. A cada capítulo é uma personagem do romance que irá nos contar a história, o que cria várias perspectivas sobre uma mesma realidade, complexificando as questões trabalhadas no romance.

A referência temporal, citada de memória por Zeca Chapéu Grande (pai de Bibiana e Belonísia), é a seca de 1932 no Nordeste, quando os primeiros trabalhadores chegaram em Água Negra, pedindo morada. Pedir morada é quando você não sabe para onde ir, porque não tem trabalho de onde vem. Não tem de onde tirar o sustento (p.185).

É sobre esse Brasil que diz Torto Arado, acenando para questões nunca resolvidas e perpetuadas até hoje. Suas personagens descendem daqueles que viveram o horror da escravização, e estão submetidas a uma situação de total precariedade, desassistidas de qualquer amparo e à mercê de sistemáticas violências.

A história, inclusive, é contada sob a perspectiva de mulheres quilombolas, que se encontram na base da cadeia de exploração do negro pelo branco, da mulher pelo homem, do pobre pelo rico. Morada em Água Negra, por exemplo, só se for de barro porque desmancha com o tempo, e ninguém deve se apegar às terras do patrão.

Um mundo sem leis e sem direitos. Sem médico, sem escola, sem justiça, sem salário, sem nada...

Mas se tem opressão, tem resistência.

E Torto Arado constrói essa resistência em vários âmbitos. Nas redes de solidariedade e sororidade entre mulheres que se amparam (e se salvam). Na vivência religiosa enquanto resistência, cultural e política. Na organização em torno da luta pela terra, que irá delimitar a transição geracional na família e na comunidade.

Uma dessas manifestações é a vivência do jarê, religião de matriz africana, exclusiva da Chapada Diamantina, com base na cura e na crença nos “encantados” – orixás do candomblé, caboclos e santos católicos, espíritos locais da Chapada (mais aqui) – que se manifestam através da incorporação.

Nas noites de Santa Bárbara, por exemplo, Zeca Chapéu Grande acordava mal-humorado, com respostas lacônicas às perguntas que lhe faziam, porque se envergonhava de ter que deixar as calças que honravam sua posição de liderança na fazenda, como pai espiritual, e vestir saias, emprestando seu corpo a uma mulher (p.63).

Curandeiro e liderança espiritual do povoado, Zeca Chapéu Grande juntamente às mulheres dessa família vivem assistindo os mais necessitados do povoado. De parto à expulsão de demônios, da cura pelas ervas à negociação com os gerentes da fazenda, eles também contam, às vezes, com a interferência direta dos encantados, como no dia em que Santa Bárbara,

... com sua espada apontada para o prefeito, a quem fez honras, como se cumprimentasse um monarca, mas também como se se dirigisse a um súdito, para lhe pedir, na frente da audiência, que cumprisse a promessa feita no passado – e que não me recordo de sabermos – de construir uma escola para os filhos dos trabalhadores (p.66).

Erguida no cruzamento dos rios Santo Antônio e Utinga, a escola se torna um divisor de destinos. E, entre elas, os destinos de Belonísia (ligada à terra) e Bibiana (ligada aos livros) que voltarão a se encontrar na luta pela terra e na conscientização política.

O ponto de virada é quando a propriedade é vendida, e todos se veem submetidos às regras (e à brutalidade) da nova gerência que proíbe os trabalhadores de enterrar seus familiares na “Viração”, o cemitério da fazenda:

Os mais jovens não viram muita diferença em enterrar os mortos na cidade ou na Viração. Mas para os mais velhos aquela interdição era uma ofensa. A Viração existia havia mais de duzentos anos, era o que contavam. As mulheres diziam em suas conversas que só saíam de suas casas, só se recolheriam de suas vidas, para a Viração. Que não haveria conversa nem interdito, que não abriam mão de serem sepultadas naquele chão. (p.179).

“Coisa com coisa”

Esses detalhes da vida cotidiana, como vemos na relação entre os trabalhadores e a Viração fazem Torto Arado tão crível; e seus personagens, vide o constrangimento de Zeca Chapéu Grande em usar o vestido de Santa Barbara, tão reais, quase palpáveis. E isso diz muito da proximidade de Itamar com a questão fundiária e a luta quilombola.

Geógrafo de formação, ele pesquisou a demarcação quilombolas em seu doutorado, defendido no departamento de Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Além disso, Itamar atua há mais de quinze anos como servidor público no INCRA, de Salvador, onde mantém contato direto com a luta e as graves violações que denuncia.

Com essa consistência, Torto Arado se apresenta como o primeiro volume de uma trilogia sobre as comunidades quilombolas na Chapada Diamantina.

Não foi à toa que Raduan Nassar, e meio mundo, ficou impressionado com a participação de Itamar no Roda Viva, no dia 15 de fevereiro. “Fiquei impressionado. Ele fala de forma ponderada, diz coisa com coisa”, disse à Folha.

Em meio ao caos que estamos vivendo, alguém que “diz coisa com coisa” atingir números tão expressivos de leitores... é de se comemorar.

Tatiana Carlotti é jornalista de Carta Maior, mestre e doutora na seara das Letras. Contato: tcarlotti@gmail.com

______________________
 
Itamar Vieira Jr. 

Torto Arado
Todavia, 2019

Leia um trecho do romance e confira o conto "Na vastidão, o céu da Noite", publicado no Suplemento Pernambuco
______________________


Leia também Notas de Leitura 3: "As Mulheres de Tijocupapo" de Marilene Felinto.

















Conteúdo Relacionado