Literatura

Cartografias culturais: a tradução da poesia contemporânea brasileira para a língua inglesa

Editores da revista Saccades realizam encontros (09.08 e 14.08) em São Paulo para discutir desafios da tradução literária. Confira entrevista com Sean Negus e Rodrigo Bravo...

06/08/2019 14:57

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Sean Negus (San Francisco State University) e Rodrigo Bravo (Faculdade Santa Marcelina), editores da revista pela revista Saccades, dedicada à tradução da poesia contemporânea brasileira para a língua inglesa, realizam dois encontros em São Paulo para debater os desafios da tradução literária, no dia 9 de agosto (19h _as 21h) na Casa Guilherme de Almeida, e no dia 14 de agosto no prédio de Letras da USP (sala 261, 14h às 16h).

Os eventos têm por objetivo apresentar os desafios de traduzir a poesia brasileira contemporânea para a língua inglesa, focando-se no projeto desenvolvido pela revista Saccades (www.saccadesreview.org), atualmente em sua décima edição mensal. Como explica Rodrigo Bravo, diferentemente de outros gêneros de discurso, traduzir arte requer a tradução não somente de seu conteúdo, mas também de elementos pertencentes à sua expressão. “No caso da tradução de poesia, isso significa traduzir, junto dos sentidos transmitidos pelas palavras, efeitos estéticos produzidos pelo ritmo, pela fonologia, pela morfologia e pela sintaxe, com o objetivo de recriar a experiência de leitura das obras originais ao leitor dentro do contexto da língua de chegada”, detalha.

Partindo da perspectiva de tradutores brasileiros importantes, como Haroldo de Campos, Jaa Torrano e Vilém Flusser, Bravo e Negus discutirão os critérios estéticos e as soluções empregadas para traduzir poetas brasileiros contemporâneos e suas obras para o público anglófono, enfatizando a importância da tradução literária para o intercâmbio cultural e para o estreitamento das relações entre as cenas poéticas brasileira e americana. “Lamento entusiasticamente que muitas das melhores obras da literatura brasileira ainda precisam ser traduzidos para o Inglês. Entusiasticamente porque significa que há muito trabalho a ser feito, ainda que seja triste porque o acesso à literatura brasileira [nos EUA] é limitado”, aponta o professor Negus*, da San Francisco State University.

Confiram a entrevista:

Sean, quais são os maiores desafios da tradução de literatura?

Sean Negus
– Tradução é o processo de reconstruir uma determinada obra não apenas semântica, mas cultural e contextualmente. Cada obra apresenta desafios específicos para manifestar o estado de ser completo de um texto por meio da tradução. Há muitas teorias e abordagens para a tradução; cada uma é válida a seu próprio modo. Uma vez que cada obra individual deve ser abordada como ser único, a parte mais desafiadora do traduzir pode ser determinar o que a obra traduzida precisa para atingir um estado completamente realizado, preservando o quanto for possível de significado e nuance do original em outro contexto linguístico e cultural. É nisso que também se encontram os prazeres e a alegria da tradução: fazê-la é quase arqueologia, escavação e descoberta do texto para a apresentá-lo de maneira contextualmente clara para uma nova audiência.

Rodrigo, como surgiu o projeto Saccades?

Rodrigo Bravo
– Em 2018, o professor Marcelo Tápia (Diretor da Casa Guilherme de Almeida) me pediu que traduzisse um de seus poemas para o inglês, “A Princesa e o Viandante”, para publicação na revista de arte Dusie, com a qual o Sean também colabora. Na ocasião, o poema foi lido, junto com outras traduções de outros poetas feitas por outros tradutores em um evento na Casa das Rosas. Foi nesse dia que eu e o Sean nos conhecemos. Após o evento, fizemos uma pequena confraternização e, inspirados pelo espírito desse alegre simpósio, tivemos a ideia de criar a Saccades como publicação online para divulgar, entre o público anglófono, os autores mais expressivos da poesia brasileira contemporânea. A revista hoje está em sua décima edição, concentrada na publicação de autores brasileiros traduzidos para o inglês, mas começará a incluir, a partir das próximas, poetas americanos contemporâneos traduzidos para o português.

A ideia para o nome da revista surgiu de um feliz jogo de palavras em inglês em português: ao passo que na nossa língua “Sacada” quer dizer, além do cômodo da casa de onde se mira a paisagem, uma “boa ideia”, em inglês, “Saccades” se traduz por “golpe de vista”, o movimento feito pelos olhos ao correr a folha de papel em leitura. Foi dessa interessante polissemia que escolhemos a palavra não só como título da revista, mas também nosso critério estético de tradução literária.

Sean, por que a língua portuguesa?

Sean Negus
– Meu interesse pelo Brasil começou na infância quando encontrei a música brasileira pela primeira vez. Fiquei muito intrigado com seus diferentes padrões sonoros e suas variantes geo-culturais, de modo que passei muito tempo bebendo de várias culturas musicais do mundo. Eu procurava por elas sempre que podia; em 1995 minha família comprou um computador básico e eu passava horas usando softwares de enciclopédia bastante rudimentares, ouvindo centenas de clips de diferentes culturas globais e linhas do tempo históricas, tentando acessar a codificação social na música e mapear de onde essas culturas tinham se originado. Os clips eram incompletos, mas suficientes para ampliar e diversificar meu repertório de ouvinte. Esses talvez tenham sido meus primeiros atos de tradução: mover uma assinatura afetiva (uma canção, por assim dizer) por fronteiras do ouvir.

Também encontrei músicas brasileiras específicas, como um cover de "Águas de Março" em um lado B de Cibo Matto que comprei em uma loja de música, e a música de João Gilberto. Esses encontros musicais foram muito edificadores para mim. Procurei quantas paisagens sonoras pude encontrar. Muito da Bossa Nova e da música dos Tropicalistas me tocaram de modo imediato. Também fui exposto a batidas de música Afro-Brasileira em partidas de futebol municipais que aumentaram meu interesse na cultura brasileira de modo mais geral. Fui convencido de que se tratava de um local musicalmente espiritual, que elevava a música em direção às qualidades tonais que eu acreditava faltarem em minha paisagem cultural imediata. Essas eram as suposições que eu fazia baseado em minha exposição limitada, mas foi o suficiente para suscitar-me interesse geral.

Rodrigo, por que a língua inglesa?

Rodrigo Bravo
– Sendo eu um dos filhos dos anos 90, não consigo encontrar um momento da minha vida, desde a infância, em que o bilingualismo não esteve presente de maneira radical. Não houve um momento em que comecei a “estudar inglês”. Estar cercado pela cultura anglófona desde o começo, presente em filmes, músicas e, principalmente, video-games; somado ao fato de que, em minha família, sempre houve o incentivo de me instrumentalizar em diversos idiomas, permitiu que eu desenvolvesse o amor e o interesse por culturas do mundo além da minha nativa. O idioma sempre esteve vinculado à perspectiva de me comunicar com o outro e consolidar-me como cidadão do mundo. O mesmo vale para os outros idiomas em que me instrumentalizei e em que me instrumentalizo até hoje, ao longo da vida. A cada língua nova sinto a expansão de minha própria existência, sinto-me um pouco mais próximo da solução da equação humana e mais aberto para aceitar novos costumes, expressões e perspectivas culturais. Não me faço menos brasileiro por interessar-me por outras culturas, mas menos provinciano e mais cosmopolita.

Sean, como a literatura brasileira chegou até você?

Sean Negus
– Não havia privilegiado a cultura brasileira de outras formas além do filme estrangeiro que ocasionalmente alugava na locadora durante minha adolescência, de modo que o Brasil permaneceu compartimentalizado em meu imaginário até que fiz um curso na pós-graduação em que fui apresentado ao Modernismo literário brasileiro. Naquele momento, senti proximidade imediata. Muitas das dimensões de minhas preocupações estéticas como poeta, incluindo a linguagem espiritual codificada na poesia, tinham finalmente encontrado um espelho externo. Senti que as dimensões sociopolíticas da poética Modernista brasileira aspiravam por uma presciência do mundo que parecia imediata. As abordagens interdisciplinares usadas para construir ferramentas críticas sofisticadas e situar a literatura dentro de um meio cultural mais amplo eram também profundamente inspiradoras e enaltecedoras. Sentei-me na sala de aula naquele dia e senti uma espécie de carga elétrica pelo corpo. Algo se alinhou e eu meio que prometi silenciosamente que me voltaria à cultura brasileira e faria algo com ela no futuro.

Foi apenas quando lecionava em uma faculdade comunitária enquanto completava um estágio de pesquisa no programa de estudos globais da Universidade de Stanford que voltei à ideia da poesia brasileira. Eu sabia que queria fugir do estudo estritamente pedagógico e teórico do transnacionalismo e me voltar a uma relação com a literatura global mais orientada pela práxis. Foi quando decidi descobrir quais colaborações seriam possíveis com artistas e poetas do Brasil. Comprei ingenuamente uma passagem para o Brasil nas férias de verão e tentei contatar acadêmicos brasileiros em universidades para ver com quem podia me comunicar enquanto viajava. Fui feliz em começar a me corresponder com Donny Correia (coordenador cultural da Casa Guilherme de Almeida) e me comprometi a aprender português, algo que me parecia possível e que eu queria explorar como seria. O resto seguiu naturalmente.

Rodrigo, como a literatura anglófona entrou no seu caminho?

Rodrigo Bravo –
Assim como a língua inglesa, não tenho lembrança exata de quando a literatura anglófona entrou em minha vida. Ela sempre foi presente em meu universo cultural desde o início. Nesse sentido, tenho somente a agradecer aos familiares que me presentearam com livros de várias tradições literárias em seus idiomas originais. Três deles tenho até hoje vivos em minha memória: uma seleção das peças mais célebres de William Shakespeare; Catcher in the Rye, de J. D. Salinger; e os dois Trópicos de Henry Miller. Foi a partir dessas obras, se me lembro bem, principalmente por meio de Shakespeare, que comecei a me enveredar não só pela prosa, mas também pela poesia anglófona, como por exemplo a desenvolvida pelos autores do movimento beat, pelos quais até hoje sou influenciado enquanto escritor.

Sean, quais autores brasileiros influenciam sua poesia e a sua tradução?

Sean Negus – Diria sucintamente que meus autores brasileiros favoritos agora são Mário de Andrade (Cidade Alucinada é um dos meus livros de poesia favoritos), João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Edimilson de Almeida Pereira, Ana Cristina Cesar e Régis Bonvicino. Interesso-me também pela obra de Marília Garcia. Em muitas maneiras considero que estes escritores são espiritual e esteticamente alinhados com muitos dos meus ideais como poeta, de modo que ler e traduzir suas obras é algo muito pessoal para mim. Lamento entusiasticamente que muitas das melhores obras da literatura brasileira ainda precisam ser traduzidos para o Inglês. Isso é entusiasmante, no entanto, porque quer dizer que ainda há muito trabalho a ser feito, ainda que seja algo triste porque o acesso fácil à literatura brasileira [nos EUA] é limitado.

Rodrigo, quais poetas anglófonos você recomendaria a leitura?

Rodrigo Bravo – Acho os poetas do movimento beat, como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti, um excelente ponto de partida para quem quer se iniciar na literatura anglófona. Para além deles, recomendo também – pois não poderiam faltar na estante de qualquer amante da literatura – o próprio William Shakespeare, o grande poeta John Milton, autor do Paraíso Perdido, e, para os que preferem autores mais contemporâneos, os poetas Ezra Pound (apesar de seu antissemitismo espúrio), Sylvia Plath, Gertrude Stein e E. E. Cummings.

Alguma mensagem para os escritores brasileiros?

Sean Negus
– Gostaria que artistas, escritores e acadêmicos no Brasil soubessem, que muitos dos artistas, escritores e acadêmicos nos Estados Unidos têm muito respeito pela e se espelham no Brasil e sua cultura. Entendo da correspondência com amigos que há certa relutância ou resistência em se engajar em estudos ou se corresponder com americanos, especialmente em departamentos universitários. De certa maneira, sou simpático e apoio tal decisão; o pior da cultura americana é imperialista, dominadora e culturalmente insensível. O mundo não precisa de mais falantes de inglês, mas precisa lutar para preservar suas culturas únicas. Há, no entanto, muitos indivíduos bem-intencionados que também são críticos do imperialismo cultural e econômico e da (por vezes) descuidada diplomacia americana na cena global.

Eu gostaria que escritores e acadêmicos brasileiros soubessem que há americanos sinceros e sensíveis que dividem muitas das mesmas preocupações, e acredito que ainda podemos manter diálogos e trocas produtivas apesar da ameaça de interesses corporativos e dos interesses egoístas do governo americano. Acredito que essas trocas também podem ajudar o Brasil a ganhar mais proeminência na cena global ao compartilhar seus êxitos culturais únicos e as várias formas do Brasil; a tradução literária é uma forma por meio da qual isso pode ocorrer.



Agende-se:

Dia 09/08, no Anexo da Casa Guilherme de Almeida (rua Cardoso de Almeida, 1943 – Sumaré, São Paulo), das 19:00 às 21:00 – Informações aqui.

Dia 14/08, na USP, sala 261 do prédio de Letras (Av. Professor Luciano Gualberto, 403 – Cidade Universitária, São Paulo), das 14:00 às 16:00

*Entrevista com Sean Negus foi originalmente feita em inglês e traduzida para o português por Rodrigo Bravo

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