Literatura

Crônicas do trem pela América Latina

 

16/03/2020 17:04

 

 
PASSAGEIRO: EDUARDO GALEANO

De trem é mais duro e leva o tempo da nossa vida. Naquela época, já quase remota, era o que se tinha de mais rápido para chegar a um destino. Mas há o prazer de andar de trem... o movimento e o som dos vagões, atravessando as emendas de ferro sob as rodas, que nos faz cochilar, ou despertar repentinamente para ver o que anda à volta. No Ártico, assim dormem as focas.

Eu despertava mesmo, o trem me acordava, e a cada estação me fazia pensar sobre os que ficaram pelo caminho de ferro, e os que subiam, com rostos tristes, me davam às vezes o prazer de fumar com eles, ávidos por um cigarro, e trocar alguma palavra sem nenhum preparo. E assim começávamos a conversa, que ia muito além de saber sobre a vida deles, que têm no ir seu único destino. E no trem você é sempre e apenas “o passageiro”, ou, como se diz pela América Latina afora, “el pasagero”, aquele que, caminhando pelo chão, não tem tempo a perder com sonhos de outrora.

E não foi à toa que um dia caiu em minhas mãos um livro de Eduardo Galeano (1940-2015). Um amigo me presenteara com o livro antes da partida daquele trem para o meu destino. Seu livro mais famoso, até então, “As veias abertas da América Latina”, deixou em mim um sabor de rancor e ódio, que era o que minha curta visão via, e eu só entenderia completamente tempos depois, e depois dele o ter negado, como um texto não muito bom e, segundo ele próprio, para o qual não estava preparado para escrever. É como acontece sempre quando o olhar mutante da vida se abate sobre a crítica que fazemos da nossa própria obra... que a vida um dia nos levou a afirmar aquilo que então achávamos estar vendo com clareza.

Assim ficaram em minha mente os modos operantes da esquerda – dormir, acordar, sonhar... e o da direita – sempre acordada - que se tornaria, como texto e, às vezes, como ação, a cara das esquerdas e das direitas partidárias e suprapartidárias da nossa América Latina.

É preciso lembrar que as “direitas” sempre nasceram antes das esquerdas. E “esquerda” aqui quer dizer não ser de direita e, no mínimo, ser um socialista! Você nasce de direita, e isto é duro como os trilhos, e só com o vagar pelos trens da vida vai pegando a mão à esquerda, quando tem a oportunidade de mudar de direção, se você enxergar o caminho a seguir. Não contarei os castigos dos canhotos da minha turma de primeiro ano escolar, nem os espancamentos que assisti, no meio das ruas de São Paulo, de mendigos que nada contestavam, estando apenas e sempre à procura de um lugar para colocar o corpo, cansado de tanto inexistir na grande cidade e no grande país, que, em 1970, era anunciado como um milagre econômico.

Eu, nascido em 1956, vivi aquilo que chamo agora de visão monumental da história, maior defeito de minha geração: ver apenas os grandes feitos, grandiosos sempre, e vazios de conteúdo político ou verdadeiramente econômicos. E não fossem alguns professores no colégio, e depois na USP, jamais teria voltado meus olhos para a história que podemos hoje ver e tentar compreender.

Leio Eduardo Galeano com olhos de futuro, porque ele, na sua prosa e maravilhosa e direta poesia, me transmite a mesma amargura de quem andou pelos trens, escrevendo como jornalista e passageiro literário, e nunca esquecendo os dias e as lições que os trilhos lhe ensinavam. E talvez ainda agora venha a ensinar alguns atentos, e outros que não entendem porque Galeano considerou sua mais famosa obra algo pertencente a um passado com o qual já não compartilhava sua visão de mundo mais recente.

Hoje, com tantas conexões velocíssimas, os antigos trens se tornaram lentos para o neoliberalismo, que consome tudo, rapidamente, deixando-nos apenas devorar o tempo sem nada aprender com ele, exceto o devorar de si e dos que você ama e com os quais, inclusive, concorre.

Como anda muito o trem da vida, e só quem anda de trem pode saber, talvez, nós, os passageiros, que ainda andamos de trem, ainda nos olhamos e a paisagem apenas passa, lenta a ponto de podermos vê-la e retê-la, mas não nos passa o olhar preferencial da primeira classe, sobre nós, de segunda classe, coisa que ainda existe e que continua, como a vemos agora de acordo com as possibilidades democráticas do momento. Pois a mentirosa história nos embota a mente, e a história sempre mente, pois no seu discurso nunca tem parte o “passageiro”, aquele que carrega nos ombros a autêntica história, que só pode ser vivida com as veias abertas, onde, sujos de vida, carregam o enorme peso da civilização, seja esta o empilhar de pedras e templos, ou o sorriso pardo do pobre sem pensamento político.

Dando voltas, volto a Galeano. Agora como se fora em viagem no seu trem, o trem de Eduardo, como gostaria de chamá-lo, caso tivesse tido a oportunidade de trocar palavras com este homem, de verdades diretas e nuas, que não foi submisso à mentira da grande imprensa e que amava seu cão, Morgan, que também era um bom motivo para ver o ser humano e sobre isto escrever.

O que você leu de Eduardo Galeano? Uma matéria de jornal, um livro, um poema?... Mesmo que você o tenha lido, muito ou quase nada, nada teria lido, exceto se fosse capaz de ler aquele que escreveu para si e, não sabendo que os trilhos o levavam além, nem mesmo das veias abertas da América Latina, ainda abertas hoje, escreveu para ti e para muitos mais.

Assim se pode ler os que nos ensinam e, pelo pouco que os lemos e compreendemos, transitam para sempre em nossas veias. Veias que pulsam como as rodas dos trens sobre os trilhos, ainda agora, as veias abertas da América Latina, e dos “Dias e noites de amor e de guerra” e de um “Vagamundo”, como um adorável/detestável vagabundo, sem perdão, e cujo nome se perde na imensidão de um continente pulsante... Segue o ritmo de Eduardo, como sempre, um passageiro, que nos faz conversar ou dormir em casa.

...

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata”.


Estar com paciência, como se estivesse em um trem, que vai parando em cada estação e, talvez, com algum paciente ódio, que as verdadeiras conversas nos engendram - os ódios sempre frutificam rápidos. E com um pouco de amor, é claro, pois sem paixão não fazemos uma mínima revolução, principalmente quando em meio a um autêntico e renovado fascismo, que hoje entre nós se anuncia, de peito aberto e sem o menor constrangimento, de pôr o medo na mesa da democracia. Assim podemos ler Galeano.

Engendrar o medo é o maior terror que se pode fazer contra o ser humano. É isso o que fazem os que nos atordoam, e não nos deixam dormir, como deveria ser o sagrado sono, com deuses ou sem eles, sobre os trilhos...e Eduardo Galeano atravessou esses caminhos de tormentos, que chamamos humanidade, essa linha de trem que nunca alcançamos no fim, exceto quando não desistimos e continuamos no trem à espera das lutas e desesperos finais... Há um fim?

Ler bem este Eduardo Galeano, que se colocou entre passageiros, tendo sido perseguido, preso, exilado e, talvez, por isso mesmo, sendo pouco lido por nós, do continente. Manteve sua prosa e poesia em um alto nível humano, e nunca conformado... Assim o leio eu e, às vezes, creio que com ele converse neste trem, aqui, símbolo da vida dos que escolheram virar à esquerda, mesmo quando os trilhos não o permitiam, desejando chegar à estação onde se possa descer sem medo. E isto é raro!

João José de Melo Franco, é poeta, contista e editor.






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