Literatura

Leituras de um brasileiro - 'A poesia da Djami Sezostre'

Djami Sezostre, por meio da poesia sonora, complexifica a temática brasileira, encaminhando novas performances poéticas

15/05/2018 18:34

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Créditos da foto: Divulgação

 
No dia 17 de abril, pude participar do lançamento do livro de poemas “O pênis do Espírito Santo”, do poeta mineiro Djami Sezostre. O livro foi lançado no Bar Patuscada, que fica na cidade de São Paulo – Rua Luís Murat 70 –; o bar está articulado com a editora alternativa Patuá, do editor Eduardo Lacerda.

Em 2015, recebi pelo correio o livro de poemas “Onze mil virgens”, do Wilmar Silva de Andrade. O livro havia sido editado em 2014 pela editora 7Letras – também alternativa –, da cidade do Rio de Janeiro; por meio do Facebook, entrei em contato com o Wilmar para elogiar os poemas. Nas mensagens, comentava que sua poesia tematizava o sertão sem exotismo, pois, infelizmente, apesar de toda a força das literaturas de Jorge Amado e Graciliano Ramos, boa parte do sertão brasileiro é banalizado pela indústria cultural. Estes são os versos do poema Amarílis: “entardecer de volta ao sertão / é o mesmo que não sentir enfaro / ouvir os pássaros e amavios // é o mesmo que colher amarílis / ornar teus corpos e teus quadris / sob a água imitá-los // entardecer ao teu lado / à margem do rio paranaíba / é mais do que alvorecer”.

Além do “Onze mil virgens”, na mesma correspondência, ganhei também “Estilhaços no Lago de Púrpura”, do poeta Joaquim Palmeira, heterônimo do Wilmar. Este é um dos poemas do livro: “íris, retinas, olhos meus olham íris, retinas // olhos que cerram íris, retinas, olhos de vénus // quem é esta vénus lunar que sequer conheço // e sei que perdi uma pantera, uma draga de lagos, // uma patativa, um sol aceso em noite plena/ eu // agora o que fago com íris, retinas, olhos: // hei de cerrar as pálpebras e inventar íris, // retinas, olhos que sejam íris, retinas, olhos// você com suas íris, retinas, você com olhos // que me olhem e descubram íris, retinas, // olhos e mais que olhos, sou todo lascívia”.

Quando procurei por seu nome no Google, encontrei suas performances no YouTube, em que ele faz poesia biosonora: https://www.youtube.com/watch?v=v5EsprKqLnM e https://www.youtube.com/watch?v=-8qvuWV6bPc. Embora a poesia visual seja bem divulgada no Brasil, a poesia sonora não recebeu a mesma atenção; em linhas gerais, trata-se da poesia sem significados conceituais, feita a partir da musicalidade das vogais e consoantes.

Alguns anos depois, o Wilmar me disse que havia trocado de nome; chamava-se agora Djami Sezostre. O que chama atenção na poesia do Djami? Como poucos, ele consegue conciliar poesia experimental com poesia comprometida com a nacionalidade brasileira. Em geral, a arte nacionalista é bastante tosca porque, justamente em nome da nacionalidade, a arte torna-se folclórica e provinciana; falsos regionalismos, carregados de valores conservadores, são forjados com os objetivos de fechar a cultura do país sobre si mesma, impedindo-a de dialogar com outros pontos de vista. Quando, porém, temas e figuras do imaginário brasileiro são expressas em linguagens experimentais, a dicotomia nacional vs. estrangeiro pode ser superada, gerando trabalhos geniais, entre eles, a concepção de bateria e percussão de Edson Machado, Airto Moreira ou Zé Eduardo Nazário, a história em quadrinhos do Luiz Gê, a poesia do Djami.

Para dar exemplos disso, escolhi dois poemas d“O pênis do Espírito Santo”, “O Sertanista” e “O Bicho Abaporu”, que, pelas menções feitas à cultura brasileira logo nos títulos, poderiam facilmente desandar em lamúrias ou exaltações provincianas. Djami, porém, por meio da poesia sonora, complexifica a temática brasileira, encaminhado novas performances poéticas.

Estes são os versos d“O Sertanista”: “A cal!sgrafia a exxtranha / Cães ligrafia de meu pai que nascia e visvia / E naonascia e naovisvia o meu pai e seu / L'pis do camminnhar atravês vés a / Caligrafia aestranharme aentrarrharme / Caligrafiafira de um sertanista um dia / Um sertanista e ele o meu pai / Aiodfadsfdsajhfjsdafsdafsdafusdfsda / E não quero mais escrever xxzxx / Uma vaca é uma vaca é uma vaca / E uma rosa então é uma rosa então é uma rosa / Mas a vaca não é uma vaca e a rosa não é uma rosa / Afinal, quem vai entender o que é para entender, / Emtemda, extrume, excrementos // A mão extramha a fala extramha o falo extramho”

Estes são os versos d“O Bicho Abaporu”: “Nhambu o índio falou que a índia / Estava gravida do sol, Nhambu falou / Que o índio deveria falar que a índia / Estava gravida não apenas do sol mas / Também a índia estava gravida da lua / E das estrelas mas quando o índio / Falou que a índia estava grávida do / Sol e da lua e das estrelas a natureza / Bradou que a índia não estava grávida / Mas a mulher virgem ou vermelha / Nascia e vivia em estado de mãe e eu // Falei Mãe o que eu faço com o meu p / Ênis esse bicho, Abaporu”.

O livro “O pênis do Espírito Santo”, para quem vive na cidade de São Paulo, pode ser encontrado no Bar Patuscada – Rua Luís Murat 70 –, ou no site da editora Patuá: www.editorapatua.com.br

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte
(Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP)







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