Literatura

Leituras de um brasileiro: A resistência ao antissemitismo na literatura brasileira

A literatura feminina resiste ao machismo, a literatura negra, ao racismo, a homoerótica, à homofobia... a literatura marrana resiste ao antissemitismo.

25/04/2017 16:57

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Do dia 14 ao dia 16 de abril de 2017, os cristãos comemoram a Semana Santa. De acordo com essa mitologia, na Sexta-feira da Paixão, lamentam-se a crucificação e a morte de Jesus Cristo; no Domingo de Páscoa, celebra-se a ressureição. A Páscoa cristã, porém, coincide com a Páscoa judaica, quando o povo de Israel comemora a saída do Egito, rumo à terra prometida. Quase ninguém se lembra, mas Jesus foi judeu, portanto, sua morte coincide com os dias em que, seguindo a tradição judaica, Ele comemoraria a Páscoa com seus amigos.
 
Nesse tempo, em que cristãos se lembram das perseguições dos romanos, vale a pena lembrar as perseguições aos judeus e do antissemitismo, que está longe de haver terminado com o final da Segunda Guerra Mundial. Em meio à intolerância, vou me limitar a discuti-la na literatura brasileira, mas não para lamentações; antes, gostaria de falar a respeito de Matula, o livro mais recente do meu colega eamigo, professor de literatura hebraica na FFLCH-USP, o poeta Moacir Amâncio.
 
Matula foi lançado no dia 31 de outubro de 2016, às 19 horas, na Casa Guilherme de Almeida, cidade de São Paulo. “Matula é um livro marrano, nele fiz poesia marrana”, me dizia o autor quando o trabalho ficou pronto, ainda em pdf, antes de ir para a gráfica. Marrano é o cristão novo, isto é, o judeu obrigado a se tornar cristão.
 
A literatura é sempre engajada, seja com a burrice, o fascismo ou a malandragem, seja com a resistência a tudo isso. A literatura feminina resiste ao machismo, a literatura negra resiste ao racismo, a literatura homoerótica resiste à homofobia, a literatura de esquerda resiste ao capitalismo... a literatura marrana resiste ao antissemitismo. Consequentemente, antes de falar de Matula, cabe indagar se haveria uma literatura antissemita, à qual a literatura marrana, necessariamente, se opõe. Os leitores atentos de José de Alencar sabem que a resposta é sim; em seu romance “As Minas de Prata”, a vilania dos judeus chega a ser caricata, tamanho o antissemitismo do romancista.Consciente disso, Moacir Amâncio resolve refletir sobre a questão em Matula, a começar pelo título do livro: (1) matula significa alforje – no caso, uma metáfora para guardar e levar consigo os poemas e seus desdobramentos –; (2) matula também significa ajuntamento de gente ordinária, corja, súcia – nesse sentido, o título é provocação –.
 
A perseguição aos judeus não é novidade desde o Império Romano; cristãos e nazistas se especializaram em persegui-los. A própria academia não se incomoda de estudar filósofos da SS, como Martin Heidegger, cujas etimologias alçadas dos gregos são dignas da mentalidade de seu Führer, ou antissemitas inconsequentes, como Friedrich Nietzsche, cuja genealogia da moral não passa de empáfia nacional socialista avant lalettre.
 
Moacir não se detém rememorando o Holocausto nem discutindo a política sionista do estado de Israel; em sua ação afirmativa, ele busca pelas origens judaicas obscurecidas na conversão obrigatória ao cristianismo por seus antepassados, por isso mesmo literatura marrana, e não literatura israelense ou místico-judaica. Nesse projeto, sua originalidade é evidente.
 
Eis os versos do poema “Na ibéria as chamas”:“na ibéria as chamas / cresciam das masmorras / com lenha local / e dos aquém mares / onde dispersava / se em relva sem nome”. O tema é explícito, trata-se da perseguição aos judeus realizado pela Santa Inquisição representado em duas de suas figuras mais tenebrosas: (1) as masmorras, onde se realizava a tortura em nome de Jesus; (2) as fogueiras em que judeus, mulheres e inclusive seus próprios santos, a igreja católica cuidou de queimar.
 
Essa triste lembrança não surge apenas como desabafo, ela se manifesta em versos, para ser exato, em redondilhas menores – os versos de cinco sílabas, uma medida utilizada na época mencionada –. Para ser mais exato ainda, a malha sonora formada pelasconsoantes encaminha, pelo menos, três efeitos poéticos. As consoantes constritivas, como /s/, /v/, /r/ ou /l/, que “chiam”, opõem-se às oclusivas /p/, /t/ ou /k/, que explodem. No poema, as consoantes constritivas aparecem nas palavras /ibéria/, /as/, /chamas/, /cresciam/, /das/, /masmorras/, /lenha/, /local/, /dos/, /mares/, /dispersava/, /se/, /relva/ e /sem/. Tais consoantes simulam, quando ressoam ao longo dos versos, pelo menos três músicas: (1) a música infernal das chamas ardendo sobre os corpos das vítimas; (2) a música das ondas do mar, por onde se dava a diáspora; (3) a música dos voos da Fênix, que ressurge das cinzas das fogueiras, para se espalhar pelo mundo – isso se confirma no desenho da capa do livro, outra imagem da Fênix renascida –. Nos versos, as chamas afirmam os significadosda /morte/; as ondas, os significados da /vida/; no voo da Fênix, a significaçãomorte vs. vida está complexificada no texto do poema.O valor do livro, portanto, não está somente na referência aos marranos, mas na realização desse tema enquanto poesia.
 
Isso faz de Matula, como o próprio Amâncio tematiza em um dos poemas, mensagem na garrafa lançada ao mar; cabe a você, caro leitor, conhece-la: “como responder / à carta lançada / ao mar na garrafa / há dias mil e um / chegou à tua mão / como se esperava / tão exatamente / o mesmo frutar”.
 
 * Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP









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