Literatura

Leituras de um brasileiro: "As lésbicas na literatura brasileira"

Na maioria das narrativas, as lésbicas ou reassumem a heterossexualidade, regenerando-se de seus supostos crimes, ou, imersas em contravenções (...)

21/07/2017 12:32

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Na virada do século XX para o XXI, assim que comecei a dar aulas de Linguística e de Semiótica nos cursos de Letras de FFLCH/USP, tive o prazer de conhecer minha amigaDébora Cristina Camargo. Fui seu orientador no trabalho de iniciação científica e na dissertação de mestrado; em ambos, ela estudou a tematização da lésbica: (1) na iniciação científica, a lésbica na literatura brasileira contemporânea; (2) no mestrado, uma análise da grafic novel Fun Home, de Alison Bechdel, célebre pelo tratamento inovador dado ao tema nas histórias em quadrinhos.
 
Naquela época, a ação afirmativa de gays e lésbicas,enquanto figuras do imaginário brasileiro, não gozava do prestígio, conquistado a duras penas por tais minorias, que goza atualmente. Piadas de mal gosto, insinuações grosseiras... tudo isso, que abundava nos finais do século XX, hoje é crime. Daqueles tempos, lembro-me de uma das primeiras livrarias, na cidade de São Paulo, especializada na cultura LGBT – que, inclusive, também divulgava material BDSM –:a livraria Espaço Infinito, localizadaprimeiramente na Vila Madalena para, depois, antes de fechar, mudar-se para a Alameda Franca – alameda ainda célebre pela movimentação da cultura LGBT, em seus bares noturnos –. Foi justamente naquela livraria que eu encontrei, entre tantos livros, o livro de contos "Julieta e Julieta", da Fátima Mesquita – 1998, edições GLS –; o tema da iniciação científica da minha amiga Débora.
 
Segundo seu trabalho, o livro de Fátima Mesquita desperta interesse por um fato bastante significativo: nos contos, as lésbicas não morriam, exceto uma morte natural, que põe fim na relação duradoura entre duas mulheres, tratando-se, portanto, de tematizar antes a viuvez do que a morte. Por que isso? Porque o livro busca reagir contra o fim das lésbicas nas narrativas correntes em filmes, romances, telenovelas, isto é, a morte punitiva por ser lésbica. Na maioria das narrativas em nossa cultura, elas ou reassumem a heterossexualidade, regenerando-se de seus supostos crimes contra deus e a natureza, ou, imersas em contravenções, estariam fadadas a morrer. Mesmo nos discursos em que são tratadas com dignidade, o final é a morte, como na canção "Mar e Lua", de Chico Buarque de Holanda, quando o casal de mulheres sucumbe diante da intolerância, embora consiga transcender nos versos da poesia.
 
Curiosamente, há no Brasil pelo menos uma escritora, bem antes da emancipação da cultura LGBT, a contradizer essa tendência trágica que pesa sobre as lésbicas nas artes católicas e na literatura burguesa: Cassandra Rios (1932-2002). Censurada durante a ditadura militar, Cassandra Rios escreveu numerosos romances sobre o tema com lucidez singular para sua época. Vou me deter em apenas três deles: Macária, Marcella e Mutreta. Na capa de todos os seus romances consta este aviso: "a autora mais proibida do Brasil". Longe desse apelo comercial, que não deixa de ser verdadeiro – Cassandra Rios foi realmente proibida durante a ditadura militar de 1964 –, trata-se de uma das melhores romancistas que o Brasil já teve.
 
Todo romancista deve, entre outros saberes, saber contar histórias, e isso Cassandra Rios faz muito bem, cuidando de inserir, entre outras discussões temáticas, o amor entre mulheres. "Macária"se passa no interior de Minas Gerais, a temática lésbica está inserida em dramas familiares, permeados por diálogos com a umbanda e seus valores religiosos; "Marcella" é a história de uma assassina serial; "Mutreta" é um romance policial, em que uma comerciante paulistana se vê envolvida com contrabandistas chineses. Como se percebe, longe de fazer apologias de práticas sexuais centradas em si mesmas, Cassandra Rios cuida de envolver suas personagens em outras tramas além das questões propriamente eróticas.
 
Por fim, gostaria de encerrar esse breve artigo mencionando uma amiga recente, que sequer conheço pessoalmente, apenas por redes sociais. Lendo os autores da editora alternativa Patuá, do amigo Eduardo Lacerda, da cidade de São Paulo, encontrei dois livros de poemas da Simone Teodoro – "Distraídas Astronautas", de 2014, e "Movimento em Falso", de 2016 –,uma poeta de Minas Gerais. Simone Teodoro, corajosamente, dá continuidade, agora na poesia, aos trabalhos de Cassandra Rios e Fátima Mesquita, autoras de prosa, no que diz respeito à temática lésbica na literatura brasileira.
 
Para ilustrar a poesia da Simone Teodoro, do "Distraídas Astronautas",escolhi o poema "Profanação na Teia": Tirar a roupa dela / enquanto vermelha lua arde. // Romper cascas, desfiar casulos // Contrair-me em / aracnídeo inseto// Patas e pelos, perfurar / a pele profanada // e ela se contorce toda / presa em minha teia: / Era pétala amputada / Tornou-se flor inteira.
 
Do "Movimento em Falso", escolhi a primeira parte da "Balada para Vita Sackville-West": Sigo / pela calçada suja / de madrugada // Tão confortável / como se fosse um rapaz // Calças largas / camuflam / as coxas // Mãos nos bolsos / cabelos curtos // Tão confortável / como se fosse um rapaz // Homem nenhum / tem ganas / de devorar-me // Levo uns rabiscos / no meu embornal //Mas / oh / e se desconfiam / que tenho boceta / no lugar de um pau? // Piso a calçada mijada / – Segura – / Como se fosse um rapaz.
 
No próximo artigo, dando continuidade à série sobre a expressão das minorias sexuais na literatura brasileira, vou comentar a literatura sadomasoquista.
 
 
* Professor de Semiótica do Departamento de Linguística da FFLCH-USP





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