Literatura

Leituras de um brasileiro: 'As lutas dos poetas'

As palavras não são inocentes, elas tematizam os discursos responsáveis por suas significações.

22/06/2016 00:00

Ferreira Gullar

Créditos da foto: Ferreira Gullar

Ouvindo certa tarde na rádio Jovem Pan uma entrevista com o pianista e compositor Egberto Gismonti – era adolescente ainda, isso foi em 1980 –, fiquei sabendo de suas gravações ao lado de escritores da Literatura Brasileira: o romancista Jorge Amado e o poeta Ferreira Gullar. Anos depois, ele também participou de outro projeto, dessa vez foi com João Cabral de Melo Neto.
 
Jorge Amado e João Cabral eu já conhecia das aulas de literatura no colégio, mas não sabia nada de Ferreira Gullar; quando perguntei para a professora de Língua Portuguesa a seu respeito, ela respondeu que não se falava de Gullar porque ele discutia a “liberdade”. Início da década de 80 do século passado, para quem se lembra, eram os tempos da abertura política, mas ainda havia ditadura militar.
 
Nas gravações, enquanto Egberto Gismonti improvisa, Ferreira Gullar declama; entre as escolhas, haviam selecionado o poema Dentro da noite veloz. Nos versos, é narrada a morte de Ernesto Che Guevara, personagem também proibida nos livros da escola. Hoje, mais de trinta anos depois, esse poema ainda continua sendo, penso eu, o melhor texto de resistência ao fascismo escrito em língua portuguesa; o poema é tão bom quanto são bons os melhores poemas políticos de Bertold Brecht.
 
A poesia, entretanto, não resiste ao fascismo apenas tematizando suas mazelas; semear a criatividade é também uma forma de resistência, e todo fascista teme a inteligência. Para dar apenas um exemplo, durante a ditadura salazarista, tanto poetas neorrealistas quanto poetas surrealistas e experimentais foram perseguidos em Portugal. No tocante a isso, conhecer a poesia Concreta, pelo menos para mim, foi mais importante que conhecer a literatura engajada.
 
Se escolhi a vida acadêmica na área de Letras – sou professor de Linguística da FFLCH-USP –, é porque fui motivado pelas poesias de Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos; minha linha de pesquisa trata justamente das poéticas experimentais, entre elas, o Concretismo. Tive o prazer de participar da reedição dos Poemobiles, de Augusto de Campos e Julio Plaza, quando a obra foi relançada pelo selo independente Demônio Negro, em 2010; entre as tatuagens de poesias concretas que já fiz, tenho o poema Código, também do Augusto, tatuado no cotovelo direito.
 
Dos poetas brasileiros ainda vivos, não tenho dúvidas de que Gullar e Augusto são os grandes nomes da nossa poesia. Por isso mesmo, é bastante difícil compreender mais uma polêmica Augusto vs. Gullar tão irrelevantes como a última, recentemente exposta em jornais e redes sociais, a propósito de outro poeta, Oswald de Andrade. Em suma, ambos trocam ofensas sobre quem, em tempos passados, teria chamado atenção primeiramente para a obra de Oswald: Gullar diz “fui eu”, Augusto responde “não, fui eu”.
 
Em seus argumentos, Augusto se vale da palavra “formigueiro”. Recentemente, em 2015, foi lançado, pela Autêntica Editora, O Formigueiro, um poema concreto de Ferreira Gullar. Trata-se de poesia engajada, a temática é política; sua forma poética, porém, é completamente distinta de poemas como Dentro da noite veloz – poemas discursivos, cujos temas são desenvolvidos por meio de argumentações –.
 
O Formigueiro está ancorado na frase “a formiga trabalha na treva a terra cega traça o mapa do ouro maldita urbe”; trata-se de poesia visual, as letras que formam a frase aparecem espalhadas na página. Ao longo das páginas do livro, Gullar mostra como outras palavras são formadas a partir do mesmo campo tipográfico, marcando a letra inicial das palavras em maiúscula para indicar de qual vocábulo se trata – são 35 palavras, entre elas Come, Bicho, Morto, Gente, Morta, Milho, Farinha, Açúcar, ... –. A publicação respeitou a arte gráfica que dá forma ao texto: o livro tem formato 21x28; o poema está impresso apenas nas páginas pares, com a mancha no alto da página. Enquanto objeto, é um belo livro para se ter nas mãos.
 
Ao traçar as devidas diferenças entre caligramas e poemas concretos, muitas vezes a crítica concretista cita O Formigueiro. Em linhas gerais, os caligramas são desenhos feitos com letras, enquanto, na poesia concreta, as cores, as formas e as posições das letras devem formar um todo coerente com a totalidade do poema. Em O Formigueiro, as letras do poema não formam caligramas, ou seja, não formam figuras de formigas, mas estão dispostas na página como formigas, no formigueiro.
 
Não apenas isso, as letras não simulam formigas simplesmente, elas ressignificam toda a frase-poema “a formiga trabalha na treva a terra cega traça o mapa do ouro maldita urbe”. O poema não para na estrutura gráfica que o expressa; essa estrutura gera outras palavras, expandindo os sentidos da frase principal. Nessa expansão, ao gerar palavras a partir de sua estrutura tipográfica, o poema parece “falar” com voz própria; todavia, esse processo também gera, por parte do leitor, a busca por outras palavras, além das já evocadas pelo poeta-poema. Eu encontrei algumas: arpão, fumo, farpa, talho.
 
As palavras não são inocentes, elas tematizam os discursos responsáveis por suas significações. Ferreira Gullar se vale disso selecionando no poema, entre outras, as palavras Povo, Formiga, Metrópole; nesse processo poético, as formigas, em seu trabalho, podem ser lidas como alegorias das muitas formas de alienação social, pois trabalham nas trevas, traçando “o mapa do ouro maldita urbe”. A frase, em sua disposição nas páginas do livro não define somente um campo tipográfico, ela define um campo de significação, em função do qual as palavras derivadas dele ganham sentido.
 
No prefácio da nova edição de O Formigueiro, Ferreira Gullar justifica a publicação do poema com estas afirmações: “Em que pese a pretensão vanguardista daqueles anos e os maus resultados que esse tipo de poesia obteve, precisamente por sua frieza e cerebralismo, O formigueiro, com sua forma engenhosa, busca na verdade resgatar a simplicidade do discurso poético”.
 
Não creio que tenha havido pretensões vanguardistas nas décadas de 50 e 60 do século passado; em países provincianos como o Brasil, visões de mundo vanguardistas são sempre bem-vindas. Os resultados da poesia concreta estão longe de serem ruins, como insiste Ferreira Gullar; para muitos, e eu concordo com isso, a poesia concreta é um divisor de águas na Literatura Brasileira.
 
Também não creio que utilizar o cérebro para fazer poesia seja problema e nem que disso decorra, necessariamente, frieza. Bach, Schöenberg, Stockhausen, Da Vinci, Mondrian, Vasarely, E M de Melo e Castro, Pedro Xisto são artistas cerebrais; se, como afirma Fernando Pessoa, o poeta “finge a dor que deveras sente”, não há como saber até que ponto a poesia sentimental é feita antes com o cérebro para, depois, parecer “coisas” do coração.
 
Infelizmente, quase sempre que se fala em arte e poesia, o cérebro é expulso e tratado como órgão nocivo para a sensibilidade; todos se esquecem de que os maiores desastres ideológicos do século passado, as ideologias nazifascistas, são fruto das emoções. Ao que tudo indica, o coração não pensa muito bem...
 
Para concluir, embora Ferreira Gullar tente afastar O formigueiro da poesia concreta, a engenhosidade do poema está, justamente, nele ser um poema concreto; contrariamente ao que afirma o autor, O formigueiro nada tem de simples, tanto que ele necessita de uma chave de leitura, fornecida no prefácio pelo próprio poeta.



Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é professor de semiótica do Departamento de Linguística da Universidade de São Paulo



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