Literatura

Leituras de um brasileiro - 'As políticas de Glauco Mattoso'

No dia 15 de junho, a partir das 18 horas, na Casa das Rosas - cidade de São Paulo, Av. Paulista 37 -, lançamento do livro de poemas POLITITICA, do Glauco Mattoso, editora Córrego

30/05/2018 16:03

 

 

Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte 

Nesse Brasil em ritmo de política, como ler a política de Glauco Mattoso? Conheci a arte de Glauco Mattoso por volta de 1982, somos amigos desde 2005. A primeira informação que tive sobre ele foram poemas do Jornal Dobrabil (1977-1981); eram poemas homoeróticos, tratava-se de arte-pornô, mas não apenas isso. Ao enfocar a mídia em que essa arte-pornô circulou, percebe-se que O Jornal Dobrabil está além de ser apenas meio para a divulgação de poemas; nesse caso, com bastante ênfase, o meio é a mensagem.

Em 1984, foi editado o livro de poemas Antolorgia – arte pornô, organizado por Eduardo Kac e Cairo Assis Trindade. O que significa, em linhas gerais, arte pornô e, em termos mais específicos, o que significa fazer arte pornô no Brasil, nos anos finais da ditadura militar? A arte pornô não procura reabilitar a pornografia, amenizando suas práxis, via definições mais amenas, como arte erótica; pelo contrário, trata-se de colocar uma situação diante da pornografia, dizendo isto é arte: exibições de shibari, performances BDSM, filmes fetichistas, roupas fetichistas, objetos de sex-shop.

As ditaduras nunca são somente expressões políticas; os discursos políticos, enquanto manifestações das ideologias da classe dominante, sempre estão acompanhados das demais ideologias religiosas, científicas, estéticas, enfim, as demais superestruturas, entre elas, as ideologias regentes da moralidade – no caso, a moralidade da família e da propriedade burguesas, uma moral patriarcal, altamente repressora da sexualidade –. Nesse tipo de cultura, a libertinagem, quando coloca em xeque os valores morais conservadores, pode ser revolucionária, justamente, por expor a instabilidade sexual das práticas opressoras.

Ideologias conservadoras geram séries de preconceitos a respeito de tudo aquilo que possa ser diferente de seus valores; tais preconceitos podem ser ainda mais acentuados quando o discriminado não corresponde ao estereotipo esperado pelo fascista. Imagens de gays permitidas pelos sistemas autoritários são quase sempre paródias grosseiras, que buscam ridicularizar os homossexuais, por isso mesmo, poucos esperam por gays intelectuais, poetas, eruditos; desse ponto de vista, o da quebra das expectativas, Glauco faz o mesmo com o BDSM e a podolatria.

Quando formas de resistência política são convocadas, poucos se lembram de Wilhem Reich e da sua “Psicologia de massas do fascismo”. Em breves palavras, segundo Reich, o comportamento fascista deriva das ideologias do patriarca, entre elas, a repressão sexual das mulheres, crianças e adolescentes pelo homem, chefe de família e, por isso mesmo, chefe de estado. Para contestar essa dominação, sustentada pela repressão sexual – o líder dominando as famílias, que são dominadas pelos pais –, toda forma de insubordinação erótica é bem-vinda. Reich não chega a essa conclusão, sua conclusão é bem mais convencional, já que ele mesmo não inclui homoerotismo, BDSM ou sexo fetichista em suas propostas de revolução sexual. Somos, todavia, pessoas da pós-modernidade; não é possível excluir minorias sexuais de quaisquer questões políticas. Nessa luta, a literatura erótica de Glauco Mattoso é imbatível.

Retomando o meio para as mensagens de Glauco, cabe a perguntar o que foi o Jornal Dobrabil e qual seu papel na arte postal brasileira. Antes de tudo, o que é arte postal? Em tempos de internet, a arte postal precisa ser redimensionada, já que boa parte de seus efeitos de sentido iniciais estão se diluindo no tempo. O correio perdeu muito de sua função comunicativa com os avanços da telefonia celular e dos minicomputadores; as pessoas continuam escrevendo cartas, mas poucas ainda são entregues pelos carteiros. Pois bem, no Brasil de 1977, Glauco datilografava uma folha de papel A4 à máquina, xerocopiava 100 exemplares e os enviava dobrados, como cartas comerciais, via correio para pessoas selecionadas, entre artistas, jornalistas, políticos. Esse era o Jornal Dobrabil, cujo nome oscila entre duas homofonias: “do Brasil” e “dobrável”.

Naquela época, valer-se do correio para a criação artística era solução alternativa, entre outras, como forma de propagação da arte, que, ao mesmo tempo, subvertia um meio de comunicação utilizado apenas de modo prático, valorizando-o ludicamente. Esse tipo de intervenção, que pode se manifestar por meio de cartões, selos, cartas, desde que envolva o correio, foi chamada arte postal. Por estar fora dos limites dos museus, as artes postais, como as artes da rua e demais formas de intervenção urbana, discutem o estatuto da obra por, no mínimo, chamarem arte o que os menos esclarecidos percebem apenas como cartas, selos, muros sujos de tinta. O jornal do Glauco, contudo, não se limitou a questionar os meios de comunicação humanos; os conteúdos do Jornal Dobrabil exploram poesia visual, heterônimos, intertextualidade e, bem antes do termo, ação afirmativa homoerótica, colocando o trabalho do Glauco em meio a, pelo menos, mais quatro frentes de vanguarda.

Embora nascida na segunda metade do século XX, a poesia visual ainda padece da incompreensão de muitos; enquanto vanguarda, ela separa os reacionários dos mais progressivos por permitir distinguir o Brasil folclórico, passadista e provinciano, povoado de beatos, cangaceiros e jesuítas, daqueles que olham para o futuro da arte, investindo no experimentalismo e contrariando comentários fascistas em que a arte estaria morta. Ao lado do Glauco Mattoso – o Glauco ortônimo –, o Jornal Dobrabil é da autoria de Pedro, o Podre – heterônimo do Glauco –, entre outros colaboradores, todos eles inventados – Garcia Loca, Sade Miranda, Albert Eisenstein... –. O papel literário e psicossocial da heteronímia raramente é compreendido em sua totalidade. Levado adiante por Fernando Pessoa, o drama em gente não pode ser confundido com virtuosismo; a heteronímia não é veleidade literária, mas solução bastante eficaz para a crise do sujeito por buscar sua superação enquanto conceito histórico. Em seu jornal, Glauco também dialoga com outros escritores, seja divulgando poemas de Nicolas Behr, Leila Míccolis, Braulio Taváres, Luiz Roberto Guedes, Amador Ribeiro Neto, Augusto de Campos ou Eduardo Kac, seja por meio das citações de Haroldo de Campos, Manuel Bandeira, Mario Faustino.

Arte postal, poesia visual, heteronímia, intertextualidade, ação afirmativa queer, podolatria, sadomasoquismo... tudo isso aponta para uma das atividades políticas de Glauco Mattoso que gostaria de enfatizar: suas relações com a arte experimental e o papel revolucionário, nem sempre evidente, desse tipo de arte. Quem aprecia arte politicamente engajada e dela costuma cobrar o combate às mazelas geradas pela exploração do trabalho e pela luta de classes, deveria entender que o capitalismo não é apenas um sistema econômico e que ele também não se limita a ser um discurso social entre tantos outros; o capitalismo é, antes de tudo, uma lógica que se estende a todos os modos de vida sob seu regime.

Em linhas bastante gerais, toda forma de abordar os objetos são também formas de lhes dar sentido; tais formas são determinadas por lógicas próprias e plurais. Assim, a perspectiva, nas artes plásticas, e o sistema tonal, na música, são formas simbólicas entre outras formas possíveis, como o suprematismo ou a música dodecafônica; nessa concepção de realidade, não há lógica natural, vinculada à verdade ou à natureza, mas pluralismo lógico. Evidentemente, a lógica do capitalismo tem escopo maior que a lógica tonal, seus procedimentos vão além da música; há, porém, lógicas mais abrangentes, entre elas, a lógica do patriarcado. Quem sabe, combater a luta de classes não baste para dar fim às mazelas do capitalismo; talvez Reich, tenha iluminado a questão examinando-a de outro ponto de vista, aquele capaz de explicar porque tantos tenham desencaminhado a revolução, fazendo dela pasto para suas vocações patriarcais, por isso mesmo, extremamente repressivas e autoritárias, em pouco diferindo de quem prometiam combater.

Em sua política poética, Glauco Mattoso vai bem mais longe do que a tematização da luta de classes, quase sempre expressa em desabafos contra o sistema ou nas desventuras de personagens, muitas vezes, mal simuladas, distantes dos modos de vida do proletariado, do qual buscam tanto se aproximar. Em sua militância ardilosa, que vai de encontro às ideologias cristalizadas pela indústria cultural, Glauco vai de encontro diretamente às formas simbólicas reacionárias não porque destrói as formas, mas porque as multiplica via a engenhosidade das artes experimentais e a vivência de sexualidades alternativas.

Essa militância política, nem sempre explícita, por vezes surge enunciada desde o título de algumas de suas obras, como “Poética na política”, de 2004, ou dispersa em seus 5555 sonetos – o Glauco é recordista mundial de sonetos –. Em 2017, com o objetivo de divulgar as artes experimentais, eu e o Rodrigo Bravo demos início à série Neûron, com a publicação de cinco livros: (1) “Poemas concepto visuais”, do poeta experimental português E M de Melo e Castro; (2) “Divino gibi”, do poeta e helenista Jaa Torrano; (3) “Ouvi”, do Matheus Steinberg Bueno; (4) “Poligonia do haikai”, do Rodrigo; (5) “A pureza da pauta”, com poemas de minha autoria.  Agora, em 2018, após editar, pela primeira vez em língua portuguesa, as traduções do poeta clássico Rufino em “Um livro para Rufino”, do Rodrigo Bravo, a Série Neûron tem o prazer de editar “Polititica”, o mais recente livro de poemas do Glauco Mattoso, pela editora Córrego, cujo tema é a política brasileira. O lançamento de “Polititica” será no dia 15 de junho, a partir das 18 horas, na Casa das Rosas, que fica na cidade de São Paulo, Av. Paulista 37.

Os livros de Série Neûron encontram-se no site da editora Córrego http://www.editoracorrego.com.br/

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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