Literatura

Leituras de um brasileiro: O BDSM na literatura brasileira

Roupas de couro... chicotes, algemas, metros de corda... antes tudo, porém, o consentimento.

23/08/2017 11:23

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O dia 24 de julho é o dia internacional da cultura BDSM. Mas, afinal, o que essa sigla significa? Ela significa Bondage, Dominação, Sadismo e Masoquismo; talvez uma das minorias sexuais menos reconhecidas e, certamente, aquela sobre a qual, ainda nos dias de hoje, pesam numerosos equívocos e preconceitos.
 
Via de regra, as minorias sexuais são definidas em função dos sujeitos nelas envolvidos.Quando alguém se diz gay, lésbica, transexual, transgênero, assexuado... refere-se, antes de tudo, a suas condições de sujeito nas relações eróticas. Certa vez, encontreiafixado nas paredes da FFLCH-USP pelos estudantes, via centro acadêmico, um cartaz repleto de bandeiras, cada uma delas significando o símbolo de uma minoria sexual – e havia várias delas, menos as cores azul escuro e preto, dos BDSM –. Ao que tudo indica, até em meio a pessoas atentas às questões sexuais, poucos dão a devida atenção aos ritos eróticos, entre os quais o BDSM se insere, entre tantos outros.
 
Omissões como essa, mesmo quanto colocadas em discussão, parecem gerar mais alguns preconceitos, além daqueles que as exclui do rol das minorias. Contrariamente à imagem que muitas vezes se faz,sadomasoquistasnão sãoassassinos seriais, estupradores, torturadores, machistas e toda sorte de impropérios que a repressão sexual e a moral religiosa projetam sobre seus praticantes.
 
Enquanto rito, o BDSM envolve encenações, que divergem, em criatividade e prazer, da tediosa posição de missionário, sempre heterossexual, com o homem resfolegando por cima e a mulher, gemebunda, por baixo. O SM surge com roupas de couro, vinil, borracha... chicotes, algemas, metros de corda... antes de tudo, porém, com o consentimento de todos os envolvidos no ato.
 
Os preconceitos contra os BDSM são muitos; basta verificar, na maioria dos filmes para o cinema ou séries de televisão, como sadomasoquistas são sempre representados por assassinos seriais e psicopatas – ninguém menciona Frédéric Chopin ou Michel Foucault entre os adeptos da arte–. Recentemente, ouvi depoimentos de amigas SM, especificamente das amigas masoquistas, queixas de ofensas de outras mulheres, que investem contra mulheres masoquistas, acusando-as de machistas por preferirem, no rito SM, papéis de submissão. Ora, há homens heterossexuais masoquistas, lésbicas masoquistas, gays masoquistas, bissexuais masoquistas; muitos masoquistas, invertendo os papéis, também apreciam fazer as vezes de dominador-dominadora. Afirmações com aquelas são, no mínimo, manifestações de sadomasofobia, palavra perfeitamente cabível nessa discussão.Ainda mais porque, no Brasil, a primeira pessoa a divulgar o BDSM publicamente, em todas as suas variantes e conexões com outros fetiches sexuais, foi, via literatura, uma mulher bastante especial: Wilma Azevedo, a dama do SM Sem Medo.
 
Conheci Wilma Azevedo quando eu era adolescente; naquela época, finais dos anos 70, conheci a Wilma feita de letras e de palavras, li um conto seu na revista Status – uma revista masculina, que não existe mais –.Diferentemente de hoje, os tempos da net, em que tudo se discute, no passado ninguém falava de SM no Brasil.A seu modo, Wilma foi uma guerrilheira; mesmo em revistas machistas, ela se impôs, tematizando mensalmente o sadomasoquismo em suas muitas formas de expressão. Militante SM, Wilma escreveu contos e crônicas – reunidos nos livros “Vênus de cetim”, de 1986, e “Tormentos deliciosos”–; escreveu o manifesto “Sadomasoquismo Sem Medo”, de 1998, livro de esclarecimento sobre a diversidade sexual SM.Anos mais tarde, por volta de 2008, durante o lançamento de um livro de poemas do Glauco Mattoso, uma senhora me aborda e diz:“sabe quem eu sou, sou Wilma Azevedo”. O verbo se fazia carne...
 
Se Wilma Azevedo praticamente introduziu o debate BDSM no Brasil por meio de crônicas, quem deu a ele versão literária em sentido amplo foi, sem dúvida, o escritor Glauco Mattoso. Por volta de 1983, eu tinha 19 anos, quando li algumas poesias do Glauco. Anos depois, me lembro de encontrar, em poucas bancas de jornal, a história em quadrinhos “As aventuras de Glaucocomix”, de 1990,com roteiro do Glauco e arte do Francisco Marcatti. O álbum é a versão em quadrinhos de algumas passagens do “Manual do Podólatra Amador”, de 1986, também do Glauco;trata-se de seu célebre livro de ensaios sobre podolatria, o fetiche sexual por pés.
 
Em linhas bastante gerais: (1) Glauco Mattoso é autor de 5555 sonetos – Glauco detém o recorde mundial do gênero, boa parte deles está na caixa Glauco Mattoso, de 2011, composta por dez livros, editada pelo Wanderley Mendonça (Demônio Negro) e pelo Zé Roberto Barreto (Annablume) –; (2)além de poesia, Glauco é autor de contos e do romance “A planta da donzela” – uma releitura podosadomasoquistad“A pata da gazela”, do José de Alencar –; (3) antes de ficar cego, fez poesia visual, arte postal, poesia marginal. Tive o prazer de organizar com ele, pela editora Annablume, duas antologias: “M(ai)S, antologia SM da literatura brasileira”, em 2008; “Aos pés das letras, antologia podólatra da literatura brasileira”, em 2010.
 
Buscando dar continuidade a essa militância, escrevi e cheguei a publicar, pela editora Annablume, três romances em que tematizo o SM: (1) “Amsterdã SM”, em 2007; (2) Irmão Noite Irmã Lua, em 2008; (3) “Sara sob céu escuro”, em 2011 – todos disponíveis em pdf no endereço http://seraphimpietroforte.com.br/index.php/literatura/, em que estão também meus livros de poesia BDSM –.
 
Por fim, resta lembrar que o nome sadomasoquismo, concebido pelo psiquiatra Kraft-Ebing – diga-se de passagem, para nomear uma perversão sexual –, é cunhado a partir de dois grandes escritores do ocidente: Marquês de Sade e LeopoldSacher-Masoch. Ironicamente, se a vontade do psiquiatra era definir para segregar, a literatura, mais uma vez, resiste à discriminação sexual e nos dá uma designação baseada na arte e na poesia.
 
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 * Professor de Semiótica do Departamento de Linguística da FFLCH-USP







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