Literatura

Leituras de um brasileiro - 'Os 40 anos dos quadrinhos de Marcatti'

Muitos investiram na justa celebração dos trabalhos de Marcatti e para comemorar os 40 anos de carreira do mestre do quadrinho brasileiro independente

20/06/2018 15:55

 

 
Por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

O álbum de histórias em quadrinhos “Marcatti 40” foi lançado em dezembro do ano passado, editado pela Ugra. Francisco de Assis Marcatti, nascido em 1962, fez, em 2017, 40 anos de carreira nas histórias em quadrinhos; o Douglas Utescher, sócio editor da Ugra Press, teve a feliz iniciativa de organizar “Marcatti 40”. Trata-se de uma coleção de 40 história do Frauzio, a personagem mais famosa do Marcatti, cada uma delas desenhadas por um artista diferente, todos eles nomeados ao final do texto, para que o leitor possa conferir a qualidade impecável da edição.

Segundo alguns historiadores da HQ, em 25 de fevereiro de 1968, ao vender os exemplares da Zap Comix nº 1 pelas ruas de São Francisco, Robert Crumb teria dado início ao movimento underground dos quadrinhos norte-americanos. Não fora o caso, apenas, de procedimentos comerciais – quer dizer, editar e vender suas próprias HQs, sem a intermediação de editoras –, mas ideológico, principalmente em função do papel do autor, que deixaria de ser peça na esteira de produção do mercado editorial. Isso envolve mudanças significativas nos temas disseminados pelas HQs ao incluir, entre eles, a miséria humana e todas as crises morais que a acompanham; não somente a miséria social, fruto das lutas de classes, mas a peste emocional responsável por tudo isso.

O quadrinho brasileiro, com raríssimas exceções, parece derivar mais desse modo de produção alternativo, independentemente dos estilos e dos temas desenvolvidos: quadrinhos de vanguarda, com narrativas fragmentadas; quadrinhos com narrativas mais lineares, cuja ênfase está nos problemas cotidianos; quadrinhos cáusticos, em que o humor é uma arma... todos são edições dos próprios autores. Na HQ brasileira contemporânea, longe dos quadrinhos ditos “fofinhos” – estes sim, bastante comerciais –, vale a pena lembrar de autores como Luiz Berger, Lobo Ramirez e Pablo Carranza, todos donos de seus meios de produção com as respectivas editoras Gordo Seboso, Escória Comix e Beleléu. A escolha destes nomes não foi ao acaso, os três foram convidados especiais da revista Lasca de Quirica, editada pelo Francisco Marcatti.

Marcatti é, desde suas primeiras publicações na década de 80 do século passado, um dos pioneiros do quadrinho alternativo, tornando-se não apenas fonte de inspiração temática, mas de conduta diante da miséria humana mencionada antes. Primeiro, em uma impressora Rex Rotary 1501 e, atualmente, em uma Multilith 1250, Marcatti edita suas criações e as de outros artistas, entre eles, os primeiros trabalhos de Lourenço Mutarelli. Em países de terceiro mundo, esse tipo de atitude soa como tudo, menos como empreendimento com vistas a vantagens pessoais, que parece ser o que todos querem. Nem todos, alguns escapam... por isso mesmo, muitos investiram nessa justa celebração do trabalho de Marcatti, organizada pelo casal Douglas e Daniela Utescher, da Ugra, para comemorar os 40 anos de carreira do mestre do quadrinho brasileiro independente.

Todo personagem é também seu autor, o personagem principal do Marcatti é o Frauzio. Assim, desenhado por outros autores, o espelhamento se renova quando tantos Frauzios, espelhos de tantos autores, encontram-se com Marcatti. Eis os artistas: Al Stefano, André Diniz, Batista, Bira Dantas, Camilo Solano, Chico Felix, Dan Heyer, Daniel Esteves, Doutor lnsekto, Elcerdo, Escape HQ, Fabio Zimbres, Felipe Bezerra, Flávio Luiz, Floreal, Franco de Rosa, Galvão Bertazzi, Germana Viana, Gilmar, Guabiras, Guilherme Petreca, Juscelino Neco, Kellen Carvalho, Kiko Garcia, Laudo Ferreira, Lica de Souza, Lobo Ramirez, Luciano Salles, Miolo Frito, Orlandeli, Pablo Carranza, Paulo Batista, Paulo Crumbim, Pedro Cobiaco, Pedro D’Apremont, Pietro Luigi, Raphael Fernandes, Ruis, Thiago Ossostortos, Victor Bello, Victor Freundt, Vitor Valence, Will.

A capa do “Marcatti 40” e de autoria do Pablo Carranza; “Marcatti 40” pode ser encontrado na loja da Ugra, neste endereço: https://www.ugrapress.com.br/
 
Antonio Vicente Seraphim Pietroforte é professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP



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