Literatura

Leituras de um brasileiro: 'Os quadrinhos nacionais na feira Des.gráfica, edição 2016'

Além do prazer de passear entre artistas, a feira também me fez refletir sobre o quadrinho nacional e a péssima utilização que se faz dele nas escolas.

29/11/2016 11:11

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No final da primeira quinzena de novembro, nos dias 14 e 15, aconteceu na cidade de São Paulo a feira de histórias em quadrinhos Des.gráfica, no Museu da Imagem e do Som, o MIS. O material da feira foi, predominantemente, o quadrinho brasileiro contemporâneo, incluindo os mestres mais antigos, como Marcatti, passando pela geração dos artistas Ruis Vargas e Gilmar, até os mais recentes: Rafael Coutinho – curador do evento –, D W Ribatski, Tiago Elcerdo, Rafael Sica, Diego Gerlach, Diego Sanchez ...
 
Minhas relações com os quadrinhos são antigas, datam de 1970, época em que fui alfabetizado. Nasci em 1964, em 1970 eu tinha por volta de seis anos de idade. Naquela época, na antiga TV Tupi, ia ao ar, nos finais de tarde, a Sessão Patota, em cuja programação havia desenhos animados de super-heróis da Marvel – Homem Aranha, Hulk, Capitão América... –. Havia, ainda, as propagandas de bonecos, jogos, camisetas daquelas personagens e suas aventuras em HQs, editadas pela Editora Brasil América, a EBAL. Fora do que era pedido na escola, minhas leituras iniciais, antes dos livros, foram as histórias em quadrinhos.
 
Anos depois, já formado em Letras e atuando na área de Semiótica Visual, sempre cuidei de estudar a linguagem da HQ: (1) publiquei, em 2009, o livro “Análise textual da história em quadrinhos – uma abordagem semiótica da obra de Luiz Gê”, quando tive  o prazer de conhecer e trabalhar com um dos maiores nomes do quadrinho nacional; (2) de 2010 a 2012, na editora Annablume, organizei, em parceria com o Jozz – quadrinista que também estava na Des.gráfica –, a coleção Royale – uma iniciativa do Jozz –, na qual publicamos “Trópico fantasma”, do Denny Chang, “AK47”, do Luciano Tasso, “Menthalos”, com ilustração do Jozz e roteiro meu; (3) atualmente, sou um dos organizadores do site Pararraios Comics – www.pararraioscomics.com.br –, especializado em quadrinhos.
 
Caminhar entre as mesas da feira Des.gráfica foi passear pela história do quadrinho brasileiro, pelo menos em sua vertente mais conhecida, que coincide com artistas que nasceram na cidade de São Paulo ou nela exerceram suas atividades, seja na imprensa, seja no mercado alternativo. Nesse contexto, merece bastante consideração Francisco Marcatti, um dos decanos do grupo, nascido em 1962, hoje com 54 anos de idade. Marcatti é patrimônio nacional; durante a década de 80, não era difícil encontrar, em algumas livrarias da época – que hoje não existem mais, como a Livraria do Bexiga –, ou mesmo de suas próprias mãos, nas proximidades da Avenida Paulista, exemplares das revistas Lodo ou Mijo, editadas e impressas pelo autor, que permanece com a mesma ideologia de produção artística.
 
Dando continuidade às tiras em quadrinhos – depuradas por Angeli, Glauco, Laerte e Fernando Gonsales –, vale a pena mencionar os trabalhos de Orlandeli, Gilmar e Ruis Vargas, cujas tiras, reunidas em álbuns, estavam ao lado das novelas gráficas “Odor Vazio”, do Ruis, e “Efeito Ferrugem”, do Gilmar, em coautoria com Fernandes.
 
Das novas gerações, é preciso destacar, pelo menos, duas vertentes: (1) os quadrinhos escatológicos, representados pelos artistas Lobo Ramires, autor de “Ejaculator”, e Luiz Berger, autor de “Chuva de Merda” e “Goro”; (2) os quadrinhos experimentais da coleção Cachalote, organizada pelo Rafael Coutinho, com as HQs dos artistas D W Ribatski, Tiago Elcerdo, Rafael Sica, Diego Gerlach.
 
Das novas editoras de quadrinhos, é preciso mencionar, pelo menos, quatro: (1) Mino – atenção para a obra do Diego Sanchez –; (2) Bolha Editorial; (3) Beleléu – atenção para o álbum “Friquinique”, obra conjunta de Eduardo Medeiros, Tiago Elcerdo, Rafael Sica e Stêvz –; (4) Ugra Press – atenção para a coleção Ugrito, já com oito volumes –.
 
Contudo, a Des.gráfica não me suscitou apenas o grande prazer de passear entre tantos artistas e poder adquirir suas obras – muitas vezes bastante difíceis de encontrar fora desses eventos –, a feira também me fez refletir a respeito do quadrinho nacional e a péssima utilização que se faz dele nas escolas brasileiras.
 
Nesse tópico, cabe indagar qual seria a utilidade pedagógica das adaptações dos clássicos da literatura, sejam eles nacionais ou estrangeiros, para o ensino dessa mesma literatura. Toco nesse tema pois, muitos daqueles artistas, certamente, deparam-se com as adaptações literárias para os quadrinhos.
 
A esse respeito, há, pelo menos, duas posturas para se levar adiante: (1) as adaptações são o resultado de uma demanda do artista, que se lança ao desafio de traduzir a linguagem verbal da literatura para a linguagem verbo-visual dos quadrinhos, preservando sua liberdade criativa, inclusive a de interferir na narrativa de origem; (2) as adaptações são malandragens, endossadas pelas editoras, que buscam, em supostas facilitações pedagógicas da literatura via HQs, apenas a venda inescrupulosa de quadrinhos de má qualidade. No último caso, a liberdade criativa é nula; a adaptação deve ser “realista” e a mais próxima possível da narrativa de origem.
 
Vulgarmente, a prosa literária é identificada apenas a seus significados. Segundo quem acredita nisso, a manifestação da prosa nas línguas humanas teria importância menor ou, até mesmo, nenhuma importância, já que toda prosa, desse ponto de vista, seria limitada às tramas inventadas. Ora, isso é estupidez! O valor da literatura está, justamente, na utilização das línguas enquanto arte, seja na poesia, seja na prosa. Machado de Assis ou Guimarães Rosa não se resumem às tramas concebidas em seus contos e romances; o que faz deles grandes nomes da literatura é o trabalho com a língua portuguesa. Isso é óbvio, menos para os editores comerciantes e para alunos e professores preguiçosos, os eternos ignorantes por falta de instrução, que não gostam de ler.
 
Há excelentes adaptações da literatura para os quadrinhos: (1) Bill Sienkiewicz adaptou, com maestria, o clássico da literatura “Moby Dick”, de Herman Melville; (2) Guido Crepax transformou, em quadrinhos, os romances “Drácula”, de Bram Stoker, “O Médico e o Monstro”, de Robert L. Stevenson, “Justine, os Infortúnios da Virtude”, de Sade, “A Vênus das Peles”, de Sacher-Masoch, “História de O”, de Pauline Reage, e vários contos de Edgar Allan Poe; (3) Marcatti fez uma adaptação excelente da “Relíquia”, de Eça de Queiroz, e está adaptando “Os Miseráveis”, de Victor Hugo.
 
Em todas essas adaptações, os artistas interferiram nas tramas, valendo-se dos textos originais como pontos de partida para a criação artística. Em termos pedagógicos, aqueles exemplos servem para discutir os desdobramentos da arte e da criatividade, e não para diluir, desonestamente, o ensino das línguas e de suas literaturas. O que as editoras comerciais promovem não é o diálogo semiótico entre as linguagens literárias e a linguagem das histórias em quadrinhos; seus objetivos se resumem a facilitar a vida dos maus alunos e maus professores afeitos às malandragens de sempre. Ler HQs, para esses preguiçosos, seria supostamente mais fácil do que ler livros... esses professores se eximem de ensinar literatura e os alunos, de aprender.
 
Enquanto isso, os verdadeiros artistas semeiam Des.gráficas.
 







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