Literatura

Leituras de um brasileiro: "Flo Menezes fala sobre a obra de Stockhausen"

Durante o exCURSO, Flo Menezes comentou a ópera de Stockhausen em seus pormenores, dedicando cada dia da semana a um dos dias de LICHT. (...)

12/04/2017 19:39

.

Nos dias 6 a 12 de fevereiro de 2017, na Praça das Artes, na cidade da São Paulo, o músico Flo Menezes ministrou “exCURSO LICHT, LUZes sobre Stockhausen”. Karlheinz Stockhausen nasceu na Alemanha, em 1928, e veio a falecer em 2007; Flo Menezes nasceu no Brasil, em 1962. Não se tratou apenas de um excelente curso de extensão universitária e divulgação cultural; as palestras foram também uma homenagem, depois de 10 anos de sua morte, àquele que está entre os grandes compositores da música erudita.
 
Antes de tudo, para que se tenha uma dimensão mais apropriada da relevância em discutir Stockhausen e a Música Nova, vale a pena apontar alguns aspectos tanto do ensino quanto da difusão da música no Brasil. Por volta de 1975, durante o antigo ginásio – hoje ensino fundamental II –, cheguei a estudar, nas aulas semanais de música, a história da música erudita e de seus gêneros, assim como tive aulas de percepção musical, em que aprendíamos a distinguir os timbres dos instrumentos da orquestra. Em poucos anos, esse programa pedagógico entrou em decadência; cinco anos depois, os cursos de música nas escolas haviam se reduzido, em nome do nacionalismo e dos valores espúrios das ditaduras, à aprendizagem de deploráveis hinos militares. Nunca mais tive contato com a música erudita na escola; quando muito, seu ensino ficou reduzido à lastimável MPB.
 
Essa decadência do ensino de música nas escolas reflete bem as oscilações da cultura brasileira entre valores supostamente nacionais e estrangeiros. O poeta concreto Décio Pignatari, analisando o Modernismo Brasileiro, assinala duas tendências: (1) a nacionalização do Brasil, tal como surge na defesa de Mario de Andrade da poesia e da cultura brasileiras; (2) a internacionalização do Brasil, postura mais próxima das propostas de Oswald de Andrade, com a qual Pignatari e os demais concretistas se afinam, estando entre eles, o poeta Florivaldo Menezes, pai do compositor homônimo, assim como o poeta experimental Philadelpho Menezes, seu irmão.
 
Ao que tudo indica e infelizmente, o Brasil sempre favorece o nacionalismo, como se sua autoimagem fosse tão frágil, que necessitasse sempre se precaver contra o que viria de fora, o estrangeiro, para não se desfazer em sua própria miséria cultural, povoada de malandros e cafajestes. Nosso Modernismo sucumbiu ao nacionalismo: (1) após escrever Pauliceia Desvairada e Losango Caqui, Mário de Andrade se tornou folclorista, fazendo a poesia de vanguarda regredir a modinhas sertanejas; (2) Macunaíma é o herói dos malandros; (3) Oswald de Andrade, o único modernista por inteiro, sempre é preterido a Manuel Bandeira ou ao próprio Mário.
 
Nacionalismo na música tem, pelo menos, duas concepções: (1) ser nacionalista é dar tratamento erudito a temas nacionais, sejam eles rítmicos, melódicos, harmônicos, timbrísticos; (2) tais temas nacionais revelam tempos, escalas e harmônicos que merecem ser explorados também pela música erudita. Piotr Tchaikovsky e Heitor Villa-Lobos são afeitos à primeira concepção de nacionalismo; Bela Bartok, à segunda. Nesse tópico, o Brasil, como seria de se esperar, sequer considera a segunda opção; nosso nacionalismo é repleto de aboios, ponteios, vaquejadas... ora, isso é o retrato do Brasil colonial.
 
Nesse contexto, como soaria a música de Stockhausen? Pelo menos, ela ressoou durante sete dias no Paço da Artes, sob a direção de Flo Menezes, maestro e professor titular de música da UNESP.
 
A cultura alemã é fértil em grandes compositores; muitas vezes parece que a história da música erudita se confunde com essa cultura: Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Wagner, Schoenberg, Weber, Stockhausen. Tais compositores não revolucionaram a música devido simplesmente a suas “belas melodias”, mas, antes de tudo, por inventarem novos sistemas de composição, isto é, inventaram linguagens musicais, revolucionando as que já existiam. No caso de Stockhausen, em linhas bastante gerais, há: (1) a concepção de novos timbres e valores sonoros a partir da música eletrônica, gerada em laboratórios de acústica; (2) a aplicação do serialismo à composição da música eletrônica; (3) a música eletroacústica, em que instrumentos acústicos dialogam com a música eletrônica. Mas não apenas isso, Stockhausen atua em todos os modos de composição erudita: sinfonias, peças de câmara, solos, corais, óperas... LICHT é, justamente, uma ópera.
 
Em LICHT, Eva, Lúcifer e o Arcanjo Miguel narram, enquanto personagens mitológicas e revestidas por numerosos simbolismos, tramas metafísicas – a essência –, ontológicas – o vir a ser – e cosmológicas – a manifestação –. A ópera é grandiosa, sua concepção tem a duração de uma semana; cada dia da semana trata de personagens, temas, qualidades espirituais, elementos, sentidos, vozes/instrumentos, virtudes, corpos celestes, manifestações humanas, cores específicas. Cada dia, ainda, é formado por blocos de composições independentes que, inclusive, podem ser executadas separadamente.
 
Durante o exCURSO, Flo Menezes comentou a ópera em seus pormenores, dedicando cada dia da semana a um dos dias de LICHT. Todavia, também aproveitou para, por meio de observações do esquema da peça, estender as aulas a outros trabalhos de Stockhausen. Além disso, as sessões foram intercaladas pela audição de gravações ou de concertos ao vivo: HARLEKIN, com a clarinetista Paula Pires; LUZIFERs REQUIEM, com a flautista Sarah Hornsby; KLAVIERSTÜCK, com o pianista Alexandre Zamith; KONTAKTE, com Flo Menezes, Alexandre Zamith e o percussionista Joaquim Zito Abreu.
 
Além de professor de música e agitador cultural – uma vez que o curso foi oferecido gratuitamente para a população da cidade de São Paulo, assim como são os seus concertos no SESC e na UNESP, campus da Barra Funda –, Flo Menezes merece ser considerado por, pelo menos, outros três motivos: (1) suas iniciativas junto ao estúdio PANaroma; (2) a organização do CIMESP (Concurso Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo); (3) seu ofício de compositor.
 
O estúdio PANaroma é o resultado de um convênio entre o Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, Campus de São Paulo (UNESP), e a Faculdade Santa Marcelina (FASM). Fundado em julho de 1994, em 2001 se tornou órgão autônomo da UNESP; instalado no campus da Barra Funda, cidade de São Paulo, o PANaroma ocupa, desde 2008, cerca de 300m², vários estúdios de composição, estúdio de gravação e um estúdio octofônico principal munido, entre outras coisas, com caixas acústicas Genelec, sistema ProTools HD e KYMA.

Entre suas atividades, desde 1995, a cada ano ímpar, o estúdio PANaroma promove o Concurso Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo (CIMESP). O concurso chega a contar com aproximadamente 200 inscrições, de centenas de compositores provenientes de mais de 30 países, dedicando-se às seguintes categorias da música eletroacústica: (1) acusmática, composta apenas por sons eletroacústicos; (2) música eletroacústica para instrumentos musicais e sons eletroacústicos; (3) música eletrônica em tempo real, envolvendo técnicas de processamento/síntese realizadas ao vivo.
 
Se não bastasse toda essa dedicação à promoção da cultura no Brasil, exercendo de modo exemplar o ofício de professor universitário no ensino, pesquisa e extensão, Flo Menezes está entre os grandes compositores, justamente com aqueles que inventaram técnicas de composição. Em A Matemática do Afetos, livro de sua autoria, Flo descreve, pelo menos, sete técnicas concebidas e desenvolvidas por ele em suas peças musicais: módulos cíclicos, projeções proporcionais, interpolação de perfis, dinamização da densidade harmônica, rotações rítmicas, forma-pronúncia, transformantes.
 
Apesar de tudo isso, não faz muito tempo, ao buscar por informações pela internet, encontrei, no site de um pasquim ordinário, críticas insipientes à música eletroacústica, com ironias e zombarias típicas daqueles que preferem os caminhos fáceis da pilhéria, em vez de estudar. No texto, o jornalista é mal-educado nos dois sentidos da palavra educação: (1) não soube respeitar os maestros mencionados no texto, confundindo o jornalismo sério com shows de stand up; (2) não conhece nada de música, devendo, pois, ter feito sua lição de casa e estudado antes de entrevistar músicos de verdade.
 
É comum, em nome de promover o acesso da população a todas as formas de arte, confundir facilitar a arte com facilitar o acesso à educação. Valendo-se dessa confusão, regimes totalitários, tementes da inteligência, tendem a afirmar que a arte dita acadêmica é distante da sensibilidade popular. Isso não é verdade, cabe à academia fazer aquilo que ela justamente faz, isto é, gerar conhecimento e divulga-lo. Desse ponto de vista, a música, enquanto forma de conhecimento, foi muito bem repre-sentada, em plenas férias de verão, naqueles dias quentes de fevereiro, no Paço das Ar-tes em São Paulo. 
 
Em tempo:
O professor Vicente Pietroforte e o poeta Rodrigo Bravo estão organizando entre os dias 18 e 20 de abril a I SEMANA DE ARTE EXPERIMENTAL na FFLCH-USP, com a presença de grandes nomes da arte experimental contemporânea, inclusive, o músico Flo Menezes. Confira o convite abaixo e a programação do evento:
 
O Grupo de Estudos de Poéticas Experimentais (GEPOEX) - apresenta: 

I SEMANA DE ARTE EXPERIMENTAL na FFLCH-USP
18 a 20 de abril, das 14h às 18h, na sala 112 do prédio de Letras
Uma homenagem aos 85 anos do poeta experimental E M de Melo e Castro com lançamento de seu novo livro POEMAS CONCEPTOVISUAIS
 

Terça feira – 18 de abril / literatura experimental

 

Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, Marcelo Tápia e 

 

E M de Melo e Castro

 

 

 

Quarta feira – 19 de abril / música experimental

 

Silvio Moreira, Ciro Visconti e Flo Menezes.

 

Aniversário de 85 anos do poeta experimental português 

 

E M de Melo Castro e lançamento do livro 

 

Poemas ConceptoVisuais, de sua autoria

 

 

 

Quinta feira – 20 de abril / história em quadrinhos experimental

 

Luiz Gê, Ruis Vargas e Rafael Coutinho                        

 

 

 

 

 

Contato e mais informações acesse: https://www.facebook.com/events/1690260404352362/    


__________
 
* Professor do Departamento de Linguística da FFLCH-USP





Conteúdo Relacionado