Literatura

Literatura infantil: ''O Livro das Portas'' de Luis Vassallo

Quarto livro de Luiz Vassallo, publicado pela editora Patuá, conta com ilustrações de Pablo Braz. 'Carta Maior' entrevistou o autor.

23/11/2018 11:18

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Créditos da foto: (Divulgação)

 

Pais, educadores e responsáveis pela leitura de seus filhos e alunos sabem, melhor do que ninguém, o tamanho do desafio que é escolher um livro infantil em meio a tantas ofertas. “O Livro das Portas” (Patuá, 2014) de Luis Vassallo é uma excelente opção e acaba de ser aprovado no PNLD Literário, maior programa de compra de livros realizado pelo governo federal.

Selecionado para a categoria 5, que corresponde aos anos finais do Ensino Fundamental II, o livro está disponível para a escolha de professores das escolas públicas. Uma boa notícia pela qualidade do livro e, também, pelo fato dele ter sido publicado pela editora Patuá, uma das mais combativas na disseminação da literatura brasileira e na publicação de novos autores.

Quarto livro de Vassalo – autor de “Á beira do lar” (contos), “A grande viagem” (romance juvenil) e “Guerra aos Livros” (infantil), todos publicados pelo selo Off Flip –, “O Livro das Portas” conta com ilustrações do artista plástico Pablo Braz. Trata-se de um livro “sobre portas e sobre lugares que têm portas. E também sobre os diversos tipos de pessoas que circulam por esses lugares e que passam por essas portas”.

Um cuidadoso trabalho de texto e ilustração que traz questões próprias de cada universo que se abre diante da criança: da porta de serviço à porta vip; da porta de filme de terror à porta de filme de faroeste; da porta invisível à porta do céu; vários temas são abordados em uma linguagem artística e acessível a leitores a partir dos 9 anos de idade.

Confira abaixo entrevista com Luis Vassallo:

 Vassallo, por que “portas”? De onde veio essa ideia e o que te levou a escrever este livro?

Luis Vassallo -
A ideia desse livro surgiu de uma forma completamente inusitada. Há alguns anos, tive um sonho no qual folheava um livro, chamado O Livro das Portas, que tinha sempre uma ilustração em uma página e a página ao lado em branco, esperando apenas que eu escrevesse o texto. Quando acordei, decidi passar do sonho à realidade e aproveitei o recesso de fim de ano, que se aproximava, para tentar escrevê-lo. Era um grande desafio na época, pois eu nunca havia escrito pensando no público infantil. E logo percebi que aquela ideia, que parecia estar pronta no sonho, precisaria ser trabalhada exaustivamente. Levou tempo para eu compreender qual era a proposta do livro: estabelecer as metáforas entre as portas, os lugares onde ficam essas portas e as pessoas que passam por elas; encontrar a linguagem certa para o público. O sonho era um sopro e era preciso fôlego para transformar o sopro na ventania capaz de mover o moinho de uma obra literária. Foram mais de três anos, cheios de pausas e retornos na escrita, até chegar na primeira versão do texto. Depois, minha ex-mulher me ajudou bastante na edição do livro. Selecionamos os textos que estavam acabados, separamos quais precisavam ser modificados ou reformulados, quais poderiam ser eliminados. Levou mais uns dois anos até que eu chegasse na versão final.

Como é escrever para o público infantil? 

Luis Vassallo -
Na minha opinião, o público infantil é muito mais exigente do que o público adulto. Eles são tão ou mais curiosos e questionadores do que os adultos, e mais impacientes também. Se você não prender a atenção da criança desde o início, eles logo perdem o interesse pela história. É preciso encontrar o ponto certo para não deixar o texto nem muito óbvio e nem muito truncado, dar fluidez para a narrativa e, ao mesmo tempo, propiciar algumas reflexões. Uma criança tem medos, angústias e questionamentos como qualquer adulto, embora suas questões estejam mais relacionadas ao universo infantil no qual ela está inserida. É preciso que a literatura tenha sensibilidade para tocar nessas questões de forma inteligente e construtiva. Uma história que não envolve esse tipo de reflexão pode parecer boba, desinteressante. Escrevi O Livro das Portas pensando em crianças a partir de 8 ou 9 anos de idade. Procurei, em cada uma das portas que compõem o livro, tratar de uma questão de forma que o texto possa ser lido em camadas. Assim, o leitor poderá fazer uma leitura mais superficial ou mais profunda, dependendo da sua capacidade de interpretação e de seu repertório. A intenção é que o livro seja interessante mesmo para crianças mais velhas, como os adultos.

Como foram pensadas as ilustrações e a parte visual do livro?

Luis Vassallo -
Eu atuo como designer gráfico e, assim que terminei o texto, comecei a imaginar como ele poderia ser ilustrado. No entanto, não conseguia vislumbrar um estilo de ilustração, mesmo porque não me parecia muito atraente visualmente ilustrar portas. Na época eu trabalhava na Editora Saraiva e, um dia, resolvi fazer uns testes no intervalo do trabalho. Um colega que sentava-se ao meu lado viu e a gente começou a conversar sobre o projeto. Ele logo começou a dar sugestões, encontrar saídas para aquele labirinto de páginas em branco. Eu perguntei se ele não topava ilustrar o livro e foi assim que começou a minha parceria com o Pablo Braz. Ele encontrou soluções muito bacanas, ideias gráficas bem conceituais que complementavam o sentido do texto. Com um projeto gráfico mais estruturado, fomos conversar com o Eduardo Lacerda, da Editora Patuá, e assim nasceu o livro.

Você vem escrevendo para adultos, jovens e, agora, para crianças. Como é trabalhar com públicos tão diversos?

Luis Vassallo -
Acho que basicamente tratamos das mesmas inquietações que movem a literatura, não importa a faixa etária. O que muda, quando pensamos em um texto para crianças, são os conflitos que afligem as personagens – algumas questões adultas não têm tanta força no universo infantil – e, é claro, a linguagem. As crianças têm um vocabulário mais restrito, mas, ao mesmo tempo, costumam ter uma relação mais lúdica com a linguagem. Quando comecei a enxergar as possibilidades que se abrem por conta dessa relação, aquilo que parecia ser um fator limitante passou a ser fonte constante de inspiração. Hoje, quando tenho uma ideia para escrever, conforme o texto vai se desenrolando na minha cabeça já consigo vislumbrar para qual público vou direcionar a história.

Quais recomendações você daria aos professores que pensam em adotar sua obra nas escolas públicas?

Luis Vassallo -
Os professores que adotarem o livro terão acesso ao Manual do Professor – um guia muito bem elaborado sobre como trabalhar a obra em sala de aula – e não sei se consigo acrescentar algo relevante além do que está lá, pois não tenho experiência em sala de aula. Mas espero que os professores possam auxiliar os alunos na interpretação do texto, quando necessário, e ajudar a relacionar as metáforas que são apresentadas ao mundo que nos cerca, enriquecendo o entendimento da obra.

Qual conselho você daria aos pais na escolha de obras para seus filhos?

Luis Vassallo -
Acho importante oferecer obras que evitem os lugares-comuns, seja no argumento da narrativa, seja na linguagem. O livro deve ampliar o repertório da criança, instigar a imaginação e a liberdade de pensamento, apresentar a diversidade. A leitura não deve ser só um passatempo, mas uma forma de alargar os horizontes e de fazer novas descobertas. Talvez não seja fácil, para os pais que não têm o hábito de ler literatura, perceber essas características em um livro. Mas é possível ouvir a criança e observar as ideias e as questões que cada história suscita nela e, assim, ir ajudando a compor o acervo que fará parte da formação desse novo adulto.

Em tempo:

Em seu site (clique aqui), a editora Patuá disponibiliza um manual para os professores (acesse aqui) interessados no livro. Também é possível acessar um trecho da obra clicando aqui.



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