Literatura

Marcelino Freire: ''meu bagageiro é de bicicleta''

 

11/10/2018 16:45

 

 
Marcelino Freire é um autor pernambucano renomado e premiado (Prêmio Jabuti de 2006 - “Contos Negreiros”, Prêmio Machado de Assis de 2014 - “Nossos Ossos”). Suas obras foram publicadas e traduzidas em diversos países e têm ganhado diversas adaptações para o teatro. Criador e curador da Balada Literária, evento que reúne centenas de escritores, nacionais e internacionais, desde 2006, foi também um dos organizadores do livro manifesto “Lula Livre/Lula Livro” e acaba de lançar neste mês seu novo livro, “Bagageiro”, uma coletânea de “ensaios de ficção” como o próprio autor prefere nomear. Em entrevista durante a FLIP deste ano, em Paraty, Marcelino falou sobre política, literatura e o Brasil. Acompanhem:

Em primeiro lugar vamos falar sobre o livro manifesto, “Lula Livre/Lula Livro”, em que participaram mais de 80 escritores, poetas e artistas. Como foi organizar esse livro e de quem foi a ideia?

Marcelino Freire:
A ideia foi nos juntarmos a vários movimentos de não-conformação com o que está acontecendo. Esses movimentos estavam pipocando em todos os lugares e os escritores, com uma exceção ou outra, não tinham se reunido ainda para uma manifestação tão coletiva. O desejo partiu inicialmente do Ademir Assunção, escritor, poeta, querido amigo e parceiro. Ele me convidou e disse: “Marcelino, vamos fazer isso juntos?” E eu disse: “claro, vamos fazer”. E nós nos juntamos e começamos a mandar convites para vários autores. A gente tinha muita urgência de dar esse grito, porque há uma mobilização coletiva do outro lado para deixar o Lula preso eternamente, impedi-lo do direito ao Habeas Corpus. Então, existia uma urgência e foi de fato a toque de caixa.

Eu e o Ademir Assunção fomos para casa do Vanderlei Mendonça, que é editor e entende tudo de edição, e ficamos nós três diagramando, abrindo os arquivos, esperando textos, os autores, com o prazo estourando, tinha a Flip chegando e a urgência o tempo inteiro desse grito. Em algum momento, eu parei e pensei: “gente! a gente está fazendo este livro?” A sensação era a de que estávamos numa célula subversiva. Nós voltamos quantos anos na história? Chico Buarque mobilizado de novo? O Raduan Nassar com que idade ele está? Augusto de Campos com mais de 80 anos. Chico César? Aldir Blanc? Alice Ruiz? Então, eu disse: Meu Deus! Ao mesmo tempo, nós tínhamos a convicção de que era preciso fazer o livro e o fizemos. E o livro está aí.

É um livro livre. Um livro que não é comercializado. Acontece que é um movimento social. Quem quiser um PDF do livro, ele nos escreve (entre em contato aqui), diz porque quer, a gente libera o PDF, ele imprime, no seu grupo, na sua associação. E se for vender o livro, a venda é para tirar o custo da impressão, mas a ideia é que ele se espalhe pelo Brasil e já tem muitos pedidos nesse sentido. Então, é um livro que, de alguma forma, sai sem ISBN, sai sem editora. Todos são editores e editoras e aí espalham esse movimento, essa espécie de não-conformação com tudo isso. A repercussão tem sido muito boa. Nós sentimos que fizemos esse barulho e participamos desse grande coro dos descontentes. É o que temos percebido.

Você fala muito da sua inconformação, que você escreve como uma forma de revolta. E há muito interesse de coletivos, de companhias teatrais na adaptação das suas obras, como a montagem recente do “Hospital da Gente”, “Balé Ralé”, “Contos Negreiros do Brasil”, “Ossos”. Como é para você como escritor, dramaturgo, poeta, revisitar a sua trajetória através dessas leituras artísticas?

Marcelino Freire
- Eu escrevo com o corpo inteiro. Não escrevo só com as mãos, só com a cabeça, mas com o corpo inteiro, vai dos pés até a cabeça. E aí quando eu vejo no teatro, vejo o corpo inteiro do meu texto que é a fala, o gesto, a maneira como o ator emprestou o seu tempo, seu suor, seu trabalho para colocar aquilo de pé. Aquela palavra que estava no seu estado livro, virou o seu estado livre. Aproveitando o “Lula Livre/Lula Livro” (risos). Eu fiquei impressionado recentemente com essas adaptações revendo alguns contos e a peça “Hospital da Gente”, que tem dez anos. Ela voltou em temporada agora, já tem dez anos que ela é feita. E vendo o espetáculo “Balé Ralé” com textos que escrevi, além de outros textos ali que eles pegaram de vários livros e não só do “Balé Ralé”, embora o espetáculo se chame “Balé Ralé”. Tem texto ali que eu escrevi com dezenove anos, estou com 51 agora. Tem texto que está no “Contos Negreiros do Brasil” que tem vinte anos, tem o texto da Paz que estava tanto no “Balé Ralé” como está no “Hospital da Gente”, aquele texto foi escrito em 2006, tem doze anos. E que atualidade é essa desses textos! Por que essas feridas ainda estão tão abertas? São tão atuais!

Eu gostaria que quando eu lesse o meu livro, acontecesse o mesmo quando eu leio o “Vidas Secas”, por exemplo. O que acontece quando a gente lê o “Vida Secas” e vê o Graciliano testemunhar o que um homem faz com outro homem, no sentido o que a ganância faz contra os menos favorecidos. A seca, o problema da seca e da falta de água que nenhum governo resolve. Então, eu gostaria de ler aquele texto e pensar e até dizer o quanto nós fomos cruéis, o quanto que as pessoas viviam sem água naquela época. Eu gostaria que alguém lesse os meus textos e dissesse: “Nossa, como fomos cruéis. A polícia matava jovens na periferia, as mães sofriam com a perda”. Eu fiquei espantado e não é porque sou vidente, não. Eu escrevo inconformado com tudo isso. E eu fiquei pasmo com textos que poderiam estar datados ou antigos, poderia ser só um testemunho de coisas que já passaram, mas não. Isso sim me tocou muito. E sobretudo à luz de acontecimentos recentes.

Eu fui assistir, por exemplo, ao “Contos Negreiros do Brasil”. Na peça, tem um personagem, interpretado pelo Rodrigo França, um ator extraordinário, sociólogo de formação, que contextualiza o texto, os meus contos vão aparecendo a partir de estatísticas que apresentadas durante o espetáculo. Estatísticas de quantos negros morrem na periferia, quantos pobres morrem na violência da polícia, quantos policiais morrem, quantos negros policiais, quanto negros [civis]. Enfim, ele vai apresentando números que vão nos deixando angustiados. E ele tinha que atualizar aquele número, às vezes, de um espetáculo para outro. Ah, por exemplo, Matheusa, que foi assassinada. Ele teve que atualizar, inclusive, para aparecer algumas fotos no espetáculo. Matheusa não estava uma semana antes do espetáculo. A Marielle não estava no espetáculo, porque ele estreou no Rio de Janeiro faz um ano e veio para São Paulo há mais ou menos um mês e meio. Então, eles tinham que ficar atualizando. Que guerra nós estamos vivendo, esses números tinham que ser atualizados e aqueles meus textos, contextualizados com essas coisas que ele fazia, iam ficando cada vez pior e a gente ficava assistindo e dizendo: caramba, quando que isso vai parar? 

Esse ano completa treze anos a Balada Literária. Como idealizador, agitador da Balada, como você avaliaria as dores, os ganhos, os louros até aqui? Ainda mais agora que também ela está consolidando não só em São Paulo mas em várias cidades, como Teresina e Campo Grande.

Marcelino Freire
– A Balada vai acontecer e eu não tenho nada, não tenho patrocínio, não consegui apoio de um edital. O que tenho são parceiros, amigos. E em treze anos é assim a tônica da Balada Literária. Eu tenho parceiros que desde o primeiro ano participam, como o Centro Cultural B_arco, a Livraria da Vila, Itaú Cultural. Mas são pessoas com quem eu falo, não são instituições. Essas pessoas acreditam muito nessa mobilização em torno da literatura, de autores consagrados e autores que estão chegando. Escritores que estão no primeiro livro, escritores que ganharam prêmios internacionais, de travestis a roqueiros, de punks a cordelistas, todos ao mesmo tempo agora. Então, a Balada continua com essa pegada. A Balada é uma festa de todos os gêneros literários e sexuais. De todas as cores, vertentes, pulsações.

Esse ano a homenageada da Balada será Alice Ruiz e o Itamar Assumpção. Sabe o que a gente vai falar na tônica da Balada esse ano? Sobre a questão da parceria, do afeto, por isso uma dupla de pessoas que se encontraram e realizaram coisas juntos. Uma mulher e um homem, uma branca e um negro, uma de família de Curitiba e outro de família do interior de São Paulo. E como é que essas pessoas se encontram e realizam. E essa coisa acontece. Ele já falecido, ela ainda está aí produzindo maravilhosamente bem. Por que não falamos das compositoras brasileiras? Que a Alice Ruiz é uma compositora além de poeta e tal? A tônica da Balada vai ser esses encontros. Eu tenho uma programação na cabeça, já tenho conversado com a Alice Ruiz, tenho conversado com a Anelis, filha do Itamar. Vou conversar com a viúva do Itamar. Tenho reuniões marcadas com o SESC.

Tenho parceiros extraordinários que surgiram aí nesses anos todos da Balada, como é o caso de um escritor e agitador cultural lá em Teresina, o Wellington Soares. Se não fosse o Wellington, ano passado a Balada Literária não acontecia, porque a gente teve o apoio do governo do Piauí em função da homenagem ao Torquato Neto. Esse apoio de 150 mil reais respingou um pouco na Balada de São Paulo junto aos apoiadores que tenho com o SESC e outras instituições. Esses apoiadores cobrem a vinda desses autores, pagam os cachês. Eu não tenho dinheiro da equipe, da logística, de nada. Até agora, ainda estou pagando a Balada do ano passado, porque o que não foi coberto por essas instituições, eu mesmo vou pagando em suaves e humilhantes prestações.

E agora eu sei que vai ter, porque tem que ter. As coisas estão desacontecendo no Brasil e a gente tem que dar o exemplo. Tem que dizer que estão acontecendo mesmo e que a gente vai fazer de qualquer jeito. Porque mesmo na crise a gente sempre fez. A Balada vai começar em Teresina, depois vamos para Campo Grande, Salvador e aí a gente vem para São Paulo, de 21 a 25 de novembro. A luta vai ser grande. Eu vou correr com todo gás para levantar essas coisas todas.

Em algumas entrevistas, você disse que não tinha fôlego para escrever prosa longa. Você acha que com “Nossos Ossos”, o seu primeiro romance publicado, conseguiu superar essa falta de fôlego?

Marcelino Freire –
“Nossos Ossos” foi muito importante para mim, porque eu estendi o fôlego sim. Eu gostei de conviver mais tempo com os personagens, de imaginar a trajetória do Heleno Gusmão, pensar como eu dividiria os capítulos, como iria encontrar o tom do livro. Uma questão importante: é outro tom. Meus contos são muito gritados, aí eu tive que baixar um pouco o tom. Gritar mais pelo silêncio do que pelo grito. Quando eu terminei o livro, fiquei muito satisfeito. Fiquei muito satisfeito com o gênero romance. Eu tenho dois romances escritos no tamanho de “Nossos Ossos”, mas eles estão diferentes dele. Esses dois outros romances eu engavetei porque estão muito técnicos.

Para escrever um livro mais longo, eu precisei me aproximar de uma técnica, uma espécie de mapeamento, de planejamento do que viria em cada capítulo. Esse planejamento, que eu não faço nos contos, possibilitou a feitura do livro. Eu aprendi a fazer um esqueleto antes do livro. Isso me ajudou demais. Aí eu fui muito certo de que com os outros romances, essa técnica me ajudaria muito. No entanto, a técnica ficou muito técnica, com pouca emoção. Ela ficou pouca aposta. Ela ficou muito certa. E o que eu gosto do “Nossos Ossos”, do processo todo, era que eu não tinha certeza absolutamente nenhuma daquilo que eu estava fazendo.

Esses dois livros estavam muito técnicos, logo, muito pouco emocionais. Aí, ficaram engavetados. Só que eu tenho vários contos que venho escrevendo, entre um capítulo e outro. Vários contos. O “Nossos Ossos” é um livro de 2013. Tem cinco anos que eu não publico um livro. Eu publiquei o “Amar é Crime” em 2015, mas foi uma edição revisitada, porque eu tinha publicado em 2011 pela Edith. Significa que livros de contos eu não publico desde 2011. São sete anos que eu não publico. Então, o que que me anima no novo livro? Eu não sei exatamente. Eu sei que tem os contos e que eles têm algo de ensaio.

Você poderia falar sobre seu novo livro de contos, Bagageiro, ou melhor, “ensaios de ficção” como você mesmo chama?

Marcelino Freire
– Quando eu percebi que eram ensaios o que eu estava escrevendo, passei a chamar esses “contos” de improvisos, ladainhas, cantos. Todo mundo hoje quer ter ração, não é nem razão, é ração. Todo mundo quer ter ração. Você alimenta os seus cachorros, solta o seu cachorro para cima do outro. Come, alimenta os teus cachorros, alimenta o teu instinto canino. Então, no momento em que todo mundo quer ter ração, eu vou escrever um livro como se fosse essa espécie de razão, de filosofia, vou fazer ensaio sobre a poesia. Na verdade, é um conto. Aquele conto que eu escrevi sobre a televisão, na verdade, é um ensaio sobre a televisão. Um ensaio sobre o teatro, ensaio sobre a dança. Foi quando eu descobri que estava fazendo um livro em que faria ensaios. Aí me animou.

Eu venho coordenando oficinas há um tempo. Tem muita coisa que falo na oficina e as pessoas me perguntam “quando você vai escrever um livro sobre a sua oficina?” Aí eu fui anotando umas coisas pelo caminho em um caderninho. Não são dicas, mas frases, coisas que eu venho falando. Há algumas dicas literárias, dicas de leitura, mas também fatos que presenciei, coisas que ouvi diretamente de escritores, escritoras, cenas que testemunhei, desde o Millôr Fernandes, a Conceição Evaristo, o Dalton Trevisan, o Manuel de Barros. São pilulazinhas, coisinhas muito curtas, por isso eu chamo de ensaios de ficção. Depois que sair, você vai ler três contos, um ensaio sobre a poesia, ensaio sobre a prosa, ensaio sobre o teatro. Aí, você vem para o bloco de ensaios de ficção, poesias bem curtinhas, do meio literário, mas também de escritas. Não digo dicas, mas coisas que eu também percebo, leio e falo.

A oficina nos ajuda muito a pensar literatura. O fato de eu coordenar oficina há tanto tempo me faz pensar a literatura, algo que eu não faria se estivesse só escrevendo. Então, à medida em que estou com todo mundo, que todo mundo está com as mesmas crises que eu, com os mesmos desejos, frustrações, dúvidas, a gente vai pensando junto, uma espécie de corrente de ideias. Então, desse processo todo, eu fui maturando esse olhar também para pensar a literatura e não quero dizer que sou ensaísta, eu brinco sempre com essa coisa do gênero. Eu falo de ensaio de ficção, “que são ensaios de ficção, então é ficção? ensaio de ficção?”

Ao mesmo tempo o nome Bagageiro é muito ligado ao bagageiro para o pernambucano. Quando falo bagageiro, eu não penso em carro ou em avião, eu penso na bicicleta. Porque o bagageiro da bicicleta é um milagre para o nordestino. Para mim que andei de bicicleta, tudo vai no bagageiro, criança, botijão de gás, compras, sacola, duas crianças, a mulher. Eu estou falando de Recife, mas se você sair daqui do centro de Paraty, você vai ver a mesma coisa. Vai ter uma bicicleta levando uma criança para a escola e mais não sei o quê. Então, o meu bagageiro, o que eu carrego de bagagem, é um bagageiro de bicicleta. Não sou catedrático. Um bagageiro de bicicleta, onde levo o meu botijãozinho de gás, levo minha bomba atômica, levo tudo na mesma bicicleta.

E sabe de onde veio essa coisa? Eu já estava com esse pensamento, mas quando li a frase da Virginia Woolf, em que ela diz “tudo o que eu aprendi foi andando de bicicleta”, eu pensei: “A Virginia Woolf aprendeu tudo foi andando de bicicleta?” Adorava andar de bicicleta. Sabe quem mais adorava andar de bicicleta? O Cortázar.  Ele amava. Eu estive uma vez em Havana, como jurado do Prêmio Casa de Las Américas, e lá estava uma mulher bem velhinha que conheceu o Cortázar, porque ele ia sempre ser júri desse prêmio em Cuba. Ela me disse que a primeira coisa que ele pedia era para providenciar duas bicicletas, uma para ele e a outra para sua mulher, a Carol Dunlop. A primeira coisa que ele fazia quando chegava no hotel era pegar a bicicleta e ir passear. Mas a bicicleta para o nordestino é a bicicleta velha, a bicicleta que eu ia para a praia, eu ia muito para a praia em Olinda. Então, é esse bagageiro de bicicleta que me interessa, por isso que não é outro bagageiro.

*Penélope Eiko Aragaki Salles é mestra em Letras pela Universidade de São Paulo



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