Literatura

Por que o ódio político assim, de repente e agressivo?

Livro 'O ódio como política' mostra como o Brasil descobriu, surpreso, uma direita militante e aguerrida no país

27/09/2018 21:00

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Créditos da foto: Divulgação

 
Leitura recomendada e mais do que oportuna neste momento de vésperas de eleição em que o ódio coletivo emerge com uma força imprevista é a sugestão da semana. Título do livro: O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. Trata-se de um volume organizado pela socióloga Esther Solano Gallego e produzido pela Editora Boitempo, de São Paulo, no qual, diz a Editora, ‘’o Brasil “descobriu”, surpreso, que havia uma direita militante e aguerrida no país, que saiu às ruas, perdeu a vergonha de mostrar-se e, no processo do golpe de Estado contra Dilma Rousseff, passou a hegemonizar a imprensa, as redes sociais e a agenda política e dos temas morais no país. ’’

‘’Foi um choque, ’’ escreve a socióloga Esther Gallego. Ela pergunta? ‘’Que direita é essa? Ou melhor: que direitas são essas? Como surgiram, organizaram-se, passaram a polarizar a sociedade e avançar sobre o Estado? São perguntas que nos afligem, para as quais estamos, muitas vezes, sem respostas, mas que se encontram no coração deste O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil.’’

Nele, não há autores de direita entre os dezoito que colaboraram com o livro. No entanto, todos procuraram mergulhar nesse universo, que de certa forma é novo e assustador, sem qualquer preconceito e com o desejo honesto de conhecer e interpretar seu significado.

Esther Gallego teve a colaboração de Kim Doria, da equipe da Editora Boitempo, e do jornalista Mauro Lopes. O livro conta também com as charges de Gilberto Maringoni, Laerte e Luiz Gê.

O volume é o sexto da Coleção Tinta Vermelha e se segue á publicação de Occupy: movimentos de protesto que tomaram as ruas (2012); Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (2013); Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? (2014); Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação e Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (2016).

O título da coleção é uma referência ao discurso de Slavoj Zizek aos manifestantes do Occupy Wall Street, no Zuccotti Park, em Nova York, no dia 9 de outubro de 2011. O filósofo esloveno usou a metáfora da tinta vermelha para expressar a encruzilhada ideológica do século XXI: “Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a tinta vermelha: nos ‘sentimos livres’ porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade.”

Para tornar o livro mais acessível, todos os autores abriram mão de receber remuneração pela publicação de seus textos e charges. A Editora agradece a ‘’todos esses colaboradores, e também aos demais autores de nosso catálogo que nos ajudam a fomentar a reflexão e o olhar crítico.’’

Na sua apresentação, Esther ressalta: ‘’Ao longo destes últimos anos, o campo progressista assistiu perplexo, atrapalhado e inativo à reorganização e ao fortalecimento político das direitas. “Direitas”, “novas direitas”, “onda conservadora”, “fascismo”, “reacionarismo”... Uma variedade de conceitos e sentidos para um fenômeno que é indiscutível protagonista nos cenários nacional e internacional de hoje: a reorganização neoconservadora que, em não poucas ocasiões, deriva em posturas autoritárias e antidemocráticas.’’

E anota: ‘’Depois de seguidas derrotas (vitória de Trump, Brexit, popularidade de Bolsonaro), não é possível ficar numa postura desorientada e titubeante, sob o risco de as forças democráticas serem engolidas por aquilo que deveríamos combater com veemência. ‘’

O livro, segundo ela, ‘’procura aprofundar-se nas complexas dinâmicas das direitas desde diversos pontos de vista e análises. Este livro é escrito a partir da reflexão, da crítica, da denúncia e da proposta.’’

Os autores que dele participam: Camila Rocha, Carapanã, Edson Teles, Esther Dweck,Fernando Penna, Ferréz, Flávio Henrique Calheiros Casimiro, Gilberto Maringoni, Gregório Duvivier – o prólogo é dele - , Henrique Vieira, Laerte, Lucas Bulgarelli, Lucia Mury Scalco, Luis Felipe Miguel, Luiz Gê, Márcio Moretto Ribeiro, Pedro Rossi, Rosana Pinheiro-Machado, Rubens Casara, Silvio Luiz de Almeida, Stephanie Ribeiro.

Os temas de cada capítulo: A reemergência da direita brasileira, Luis Felipe Miguel. Neoconservadorismo e liberalismo, Silvio Luiz de Almeida. A nova direita e a normalização do nazismo e do fascismo, Carapanã.

As classes dominantes e a nova direita no Brasil contemporâneo, Flávio Henrique Calheiros Casimiro. O boom das novas direitas brasileiras: financiamento ou militância? Camila Rocha.

Da esperança ao ódio: a juventude periférica bolsonarista, Rosana Pinheiro-Machado e Lucia Mury Scalco. Periferia e conservadorismo, Ferréz. A produção do inimigo e a insistência do Brasil violento e de exceção, Edson Teles. Precisamos falar da “direita jurídica”, Rubens Casara.

O discurso econômico da austeridade e os interesses velados, Pedro Rossi e Esther Dweck. Antipetismo e conservadorismo no Facebook, Márcio Moretto Ribeiro. Fundamentalismo e extremismo não esgotam experiência do sagrado nas religiões, Henrique Vieira.

Moralidades, direitas e direitos LGBTI nos anos 2010, Lucas Bulgarelli. Feminismo: um caminho longo à frente, Stephanie Ribeiro. O discurso reacionário de defesa de uma “escola sem partido”, Fernando Penna.

No seu prólogo, Gregório Duvivier provoca: ‘’Tudo o que a direita brasileira propõe é o que já foi praticado nos nossos quinhentos anos de história. Feito dizer: “Você tá doente? Eu inventei um negócio: você corta seu antebraço e deixa sangrar”. Então, isso se chama sangria e faz quatro mil anos que não dá certo. “Queria propor uma coisa nova, que é queimar tudo que é bruxa.”

E mais adiante: “Nossa bandeira jamais será vermelha”, dizem os cidadãos de bem, vestindo verde e amarelo. Já é vermelha há muito tempo, graças a vocês. ’’



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