Luta no Campo

Ministro do Meio Ambiente brasileiro despreza defensor da Amazônia e provoca indignação

Os comentários de Ricardo Salles alimentam as críticas ao posicionamento da administração, o qual ambientalistas descrevem como excessivamente pró-agronegócio

15/02/2019 14:05

Créditos da foto: "Não conheço Chico Mendes", disse Ricardo Salles (Walterson Rosa/Folhapress)

 

Grupos ambientais brasileiros criticaram o ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro depois de ter descartado Chico Mendes, defensor da floresta amazônica, que foi assassinado, como “irrelevante”.

“Não conheço Chico Mendes”, disse Ricardo Salles ministro do Meio Ambiente do presidente, aos jornalistas em uma entrevista, quando perguntado sobre o famoso seringueiro brasileiro, líder de sindicato e ambientalista que foi assassinado em 1988.

Salles supervisiona o Instituto Chico Mendes, que foi nomeado por causa do defensor ambiental e supervisiona também as áreas protegidas brasileiras.

Bolsonaro subestimou as preocupações ambientais durante sua campanha presidencial de extrema-direita em 2018, ameaçando tirar o Brasil do Acordo de Paris sobre a mudança climática e defendendo mais mineração e desenvolvimento econômico na floresta amazônica.

Salles disse aos entrevistadores no programa Roda Viva que escuta narrativas contraditórias sobre a vida de Mendes, dizendo que os ambientalistas o louvam pelo seu trabalho enquanto fazendeiros locais alegam que ele “usava os seringueiros para avançar em seus próprios interesses”.

“É irrelevante. Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?” disse Salles.

Seus comentários alimentaram críticas ao posicionamento da administração, o qual ambientalistas descrevem como excessivamente pró-corporações e pró-agronegócio.

Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente que se organizava junto de Mendes quando era adolescente no estado do Acre, disse que Salles é “mal informado” sobre o ativista.

“Mesmo com a ignorância de Salles, a luta de Chico permanece viva!” ela escreveu no Twitter.

Salles também confirmou que viajaria para a Amazônia pela primeira vez.

Sua assessoria de imprensa não pode esclarecer imediatamente se seria sua primeira viagem ao local como ministro ou sua primeira viagem à região no geral.

Salles também reconheceu que “insuficiências” regulatórias podem ter levado à ruptura da barragem de resíduos de extração cuja dona é a Vale SA, e que lançou uma onda de lama matando ao menos 165 pessoas e devastando o rio Paraopeba.

A Vale, a maior mineradora de ferro do mundo, sabia no ano passado que a barragem tinha um alto risco de ruptura, de acordo com um documento interno visto pela Reuters.

Em 2015, uma falha similar de uma barragem próxima em uma mina que também pertencia à Vale, também no estado de Minas Gerais, matou 19 pessoas e prejudicou o Rio Doce.

O ministro disse que o governo estava gastando recursos técnicos e financeiros em licenciamento e fiscalização em vários tipos de projetos, e prometeu introduzir mudanças nas políticas para abordar o problema.

Ele defendeu um sistema no qual licenças ambientais para projetos menos complexos sejam expedidas rapidamente, dizendo que acredita que isso liberaria recursos para fiscalizar projetos de maior complexidade, incluindo barragens.

*Publicado originalmente por theguardian.com | Tradução de Isabela Palhares

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