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''Acabem com essas empresas, se livrem delas'': o que é necessário para destruir as empresas de petróleo?

Comunidades na linha de frente da crise climática dizem que soluções radicais devem estar na mesa - antes que seja tarde demais

16/08/2021 12:00

Comunidades que sofrem o impacto dos danos causados %u20B%u20Bpelas mudanças climáticas dizem que por muito tempo a indústria de combustíveis fósseis priorizou os lucros em detrimento do bem público (Ilustração: Chris Burnett/The Guardian)

Créditos da foto: Comunidades que sofrem o impacto dos danos causados %u20B%u20Bpelas mudanças climáticas dizem que por muito tempo a indústria de combustíveis fósseis priorizou os lucros em detrimento do bem público (Ilustração: Chris Burnett/The Guardian)

 
Ayisha Siddiqa não quer que as empresas de combustíveis fósseis determinem seu futuro. A indústria promoveu o negacionismo climático por mais tempo que seus 22 anos de vida. Ao invés de assistir essas empresas embolsarem os lucros enquanto o mundo queima, Siddiqa tem uma solução radical em mente.

“Acabar com essas empresas de petróleo, encerrá-las, nos livrarmos delas, já chega”, ela disse.

As palavras de Siddiqa ecoam como um grito de guerra para defensores climáticos e ambientais que veem opções limitadas na busca por justiça para as comunidades não brancas e de baixa renda, cujas vidas a indústria destroçou – e vai continuar destroçando enquanto a crise climática desabrocha.

Siddiqa é fundadora do “Polluters Out”, uma coalizão comandada por jovens dedicada a remover a influência da indústria de petróleo e gás das negociações climáticas internacionais. Ela criou o grupo em resposta às fracassadas conversas climáticas da COP25 em 2019, que não progrediram na iniciativa de cortar emissões de carbono. Na sua opinião, as gigantes do petróleo não merecem estar envolvidas na revolução da energia limpa.

“O próximo passo não pode ser deixarmos as pessoas que anteriormente nos prejudicaram terem espaço no novo mundo”, ela disse.

Para muitas comunidades, os crimes climáticos da indústria não são problemas do futuro. Estão aqui, agora. A máquina de propagandas do negacionismo climático, financiada pelas gigantes do petróleo e do gás, deixou a humanidade com a Terra espiralando para o caos: casas destruídas por incêndios florestais, pessoas queridas morrendo por causa de ondas de calor e plantações sofrendo com a seca.

Nos últimos cinco anos, desastres advindos de eventos climáticos extremos custaram aos EUA mais de 525 bilhões de dólares, pagos pelos contribuintes, não pelos grandes poluidores. Somente em 2020, o preço global associado à mudança climática chegou a 150 bilhões de dólares. Em meio a todos os danos, vidas humanas também foram prejudicadas. Agora estão perguntando: quando suas vozes irão importar?

A iniciativa para responsabilizar a indústria pela emergência climática destruindo empresas poderosas segue a estratégia de movimentos similares que emergiram nos últimos anos. Ideias que já foram consideradas distantes – como cortar o financiamento dos departamentos de polícia ou expor as gigantes da tecnologia – estão agora entrando no discurso convencional. E ao passo que a crise climática fica cada vez mais urgente, ativistas estão mirando nas empresas de petróleo e gás.

Comunidades que carregam o fardo causado pela mudança climática dizem que, por muito tempo, a indústria de combustíveis fósseis priorizou os lucros acima do bem público. Durante a tempestade de inverno do Texas em fevereiro, por exemplo, as gigantes do petróleo e gás faturaram bilhões vendendo ativos a preços exagerados enquanto o estado lutava para fornecer energia e calor para seus consumidores. O estado sabia há 10 anos atrás que temperaturas frias poderiam ameaçar e rede, mas deixou a decisão sobre a atualização da infraestrutura para as empresas privadas. Como resultado da tempestade e das faltas de energia subsequentes, cerca de 700 pessoas morreram, de acordo com uma investigação da BuzzFeed.

Carla Skandier, gerente do programa climático e energético no grupo Democracia Colaborativa, diz que grupos como o dela estão pesquisando maneiras de encerrar o ciclo de danos por meio da nacionalização de segmentos da indústria de combustíveis fósseis. Em termos simples, o processo envolveria o governo federal comprar empresas de petróleo e gás por completo para tomar posse de sua infraestrutura e dos seus bens.

“Quando falamos sobre acabar com a indústria de combustível fóssil, estamos, de fato, falando sobre a necessidade urgente de uma jogada final para gerenciar o declínio rápido da indústria”, disse Skandier.

Grupos a favor da abolição dizem que esse processo pode significar colocar oficiais eleitos – não executivos corporativos – no comando dos ativos dos combustíveis fósseis. O governo dos EUA encerraria gradualmente o drilling ou a compra de concessões enquanto priorizaria a redução de emissões e o investimento em energia limpa. A nacionalização permitiria que os EUA deixassem as reservas de petróleo e gás no solo enquanto diminuiria o domínio da indústria de combustíveis fósseis na nação.

Tal intervenção pública também impediria que essas empresas simplesmente encerrassem suas operações, demitindo seus trabalhadores e deixando para trás cidades e condados devastados, como já fizeram algumas empresas de carvão, disse Skandier. “Precisamos considerar que muitas dessas comunidades são altamente dependentes dos rendimentos dos combustíveis fósseis, então precisamos planejar como vamos construir uma riqueza comunitária e diversificar suas economias para garantir que não sejam somente economicamente estáveis, mas também resilientes aos impactos climáticos no futuro.”

Os EUA poderiam tomar as terras ou reservas que estão atualmente em posse da indústria através do domínio eminente, o direito legal que os governos têm de confiscar terras ou infraestruturas para o interesse público. O governo federal já fez isso antes para criar parques nacionais e até mesmo para converter a empresa privada de energia do Tennessee em uma estatal – “Tennessee Valley Authority” – durante a Grande Depressão.

Qualquer movimentação para dissolver as gigantes do petróleo, no entanto, irá inevitavelmente encarar muitos ventos contrários. A indústria se beneficia por ser profundamente enraizada na sociedade estadunidense, e é esperado que os interesses dessas empresas lutem de volta nos tribunais. Nacionalizar indústrias lucrativas também exigiria uma quantidade sem precedentes de vontade política, que ainda precisa ser materializada.

Sean Hecht, especialista em direito, alerta que dissolver empresas de energia pode levar a efeitos cascatas não intencionais. A história sugere que simplesmente apagar a existência de uma empresa poder tornar fácil para ela ignorar suas responsabilidades financeiras, quando prejuízos foram causados.

Hecht, diretor co-executivo do Instituto Emmett sobre Mudança Climática e Meio Ambiente da UCLA, viu isso acontecer em primeira mão em Los Angeles, onde ele mora. Quando o Departamento de Justiça fechou a “Exide Technologies” em 2015 por envenenar bairros com chumbo por décadas, a empresa entrou com pedido de falência e deixou aos contribuintes a tarefa de bancar a conta da limpeza.

“Uma indústria desaparecer não significa que será necessariamente responsabilizada, e, às vezes, é o oposto disso”, disse Hecht. “Cria um senso de justiça, mas não ajuda concretamente as condições nas comunidades.”

Uma empresa simplesmente assinar um cheque também não vai ajudar, disse Kyle Whyte, professor de sustentabilidade e meio-ambiente na Universidade de Michigan, que também trabalha no Conselho de Justiça Ambiental da Casa Branca. Isso não vai eliminar a raíz do problema: as empresas responsáveis por conduzir a crise climática também estão despojando as comunidades do capital político, social e cultural para decidir o que acontece com suas casas e corpos.

“Justiça significaria um mundo onde, por exemplo, os nativo-americanos e as tribos não estejam mais em uma relação de dependência com as indústrias”, disse Whyte. “Não há um dólar que poderia ser gasto em uma comunidade hoje que substituiria décadas e gerações de violações contra a autonomia.”

Não há abordagem fofa o suficiente que retifique o que as comunidades herdaram das gigantes do petróleo. E mesmo que os pedidos para dissolver a indústria de combustíveis fósseis pareçam improváveis no clima político atual, ativistas esperam que as conversas expandam as possibilidades para os líderes agirem em relação à mudança climática. Para Siddiqa, qualquer solução também deve incorporar figuras internacionais.

“Nós votamos nos nossos líderes mundiais”, disse Sidiqqa. “Eles nos representam. Se estão ativamente recusando nos representar, então sua posição está em cheque.”

Sidiqqa quer ver uma mudança cultural – um momento de reimaginação política. Ela sabe que os negócios de sempre não vão parar a crise climática – talvez nem mesmo o fim do petróleo e gás – mas ela diz que é um bom começo.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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