Mãe Terra

''Colonizando a atmosfera'': os países ocidentais ricos são os principais responsáveis pela crise climática

Novo estudo revela que embora 92% de todas as emissões globais de dióxido de carbono em excesso venham do hemisfério norte, os principais impactos recaem sobre o hemisfério sul

17/09/2020 18:05

(Elizabeth Stilwell/flickr/cc)

Créditos da foto: (Elizabeth Stilwell/flickr/cc)

 
O desastre climático, que alimenta incêndios sem precedentes na costa oeste dos Estados Unidos, ameaça engolir as Ilhas Marshall e desencadeia a fome permanente no Sudão do Sul, é uma catástrofe global. Mas a responsabilidade não é igual para todos os países. Uma análise publicada na edição de setembro do The Lancet: Planetary Health lança nova luz sobre o papel desproporcional dos Estados Unidos, da União Europeia e do Norte Global na criação de uma crise climática que, embora sentida em todos os lugares, atinge o Sul Global de forma desproporcional.

Em 2015, os Estados Unidos foram responsáveis por 40% das “emissões globais de dióxido de carbono em excesso”, constata a análise, assinada por Jason Hickel, antropólogo econômico e pesquisador da Royal Society of Arts. O Grupo dos Oito (Estados Unidos, União Europeia, Rússia, Japão e Canadá) é responsável por 85% dessas emissões. E o Norte Global (Estados Unidos, Canadá, Europa, Israel, Austrália, Nova Zelândia e Japão) é responsável por 92%.

Em contraste, o Sul Global – que suporta os piores impactos das secas, inundações, fomes, tempestades, aumento do nível do mar e mortes – é responsável por apenas 8% das emissões globais de dióxido de carbono em excesso.

Enquanto outros pesquisadores vêm calculando as emissões anuais atuais dos países, bem como as emissões cumulativas históricas, Hickel afirma que “nada disso nos mostra quanto os países contribuíram para as emissões além do nível de segurança”. Sua metodologia começa com “a premissa de que a atmosfera é um recurso comum e, dessa forma, todas as pessoas deveriam ter igual acesso a ela dentro dos limites seguros do planeta (definido como 350 partes por milhão de concentração atmosférica de CO2)”, explica.

Hickel calculou as “partes nacionais justas de um orçamento de carbono global seguro”. Em seguida, ele subtraiu essas partes justas das emissões históricas dos países – “emissões territoriais de 1850 a 1969, e emissões baseadas em consumo de 1970 a 2015”. Esse cálculo foi usado então para determinar “em quanto cada país excedeu ou quão distante ficou de atingir sua cota”, explica o estudo.

“Em outras palavras”, diz Hickel, “este método permite-nos responder à pergunta: ‘Quem nos meteu nesta encrenca?’”.

A análise pretende não apenas medir a responsabilidade nacional pelas emissões globais, mas também identificar os países que estão colonizando a atmosfera. “Os resultados mostram que os países do Norte Global 'roubaram' grande parte das cotas atmosféricas dos países mais pobres e, além disso, são responsáveis pela grande maioria das emissões em excesso”, explica Hickel. “Eles efetivamente colonizaram a atmosfera global comum em nome de seu próprio crescimento industrial e com o objetivo de manter seus próprios altos níveis de consumo de energia”.

O estudo mostra que, em contraste com os países do Norte Global, “a maioria dos países do Sul Global estava dentro dos limites de suas cotas, incluindo a Índia e China”. Isso apesar do fato de a China, com mais de quatro vezes a população dos Estados Unidos, ser atualmente o maior emissor geral de gases de efeito estufa, embora os Estados Unidos sejam o principal emissor per capita. De acordo com a análise, “quando se trata de mudanças climáticas, porém, o que importa são os estoques de dióxido de carbono na atmosfera, não os fluxos anuais; dessa forma, a responsabilidade deve ser medida considerando a contribuição de cada país para as emissões históricas cumulativas”. Quanto à China, continua o estudo, “dado que as emissões anuais do país são de cerca de 9 bilhões de toneladas por ano, sua cota logo será ultrapassada”.

O fato de os Estados Unidos e o Norte Global terem uma responsabilidade desproporcional pela crise climática não libera a China da obrigação de cortar emissões, diz Hickel. “Se a China não reduzir suas emissões, e rapidamente, estaremos todos condenados”, sublinhou. De fato, os ativistas ambientais têm defendido que, para conter a crise climática, os Estados Unidos e a China devem abandonar a atual postura de confronto e cooperar para reduzir drasticamente suas emissões.

No entanto, Hickel defende o argumento moral de que “certamente, os países que mais contribuíram para o excesso de emissões devem reduzir as emissões mais rapidamente, Estados Unidos e Europa à frente. Eles têm a responsabilidade de zerar as emissões em excesso assim que for fisicamente possível – em uma questão de anos, não décadas. Isso é viável, e é o que todos devemos exigir”.

Outros estudos e análises já apontaram para a responsabilidade desproporcional do Norte Global, e dos países ricos, pela crise climática. Um estudo divulgado pela Oxfam Internacional em 2015 revelou que a metade mais pobre da população mundial – cerca de 3,5 bilhões de pessoas – é responsável por apenas 10% das "emissões globais totais atribuídas ao consumo individual", apesar de "viverem, em sua grande maioria, nos países mais vulneráveis às mudanças climáticas”. Por outro lado, os 10% mais ricos do mundo são responsáveis por cerca de 50% das emissões globais.

Um artigo de 2015 publicado na Scientific Reports identificou os países como “free riders” ou “forced riders”. “Os países 'free rider' contribuem de maneira desproporcional com as emissões globais [de gases de efeito estufa] enquanto a sua vulnerabilidade aos impactos da mudança climática resultante é limitada, enquanto os países 'forced rider' são os mais vulneráveis às mudanças climáticas, mesmo tendo contribuído pouco para sua gênese”.

Ainda assim, mesmo com os efeitos agudos da crise climática nos Estados Unidos, o Partido Republicano continua praticando o negacionismo climático, e a liderança do Partido Democrata mostra relutância em frear a produção de combustíveis fósseis na raiz da crise – e hostilidade em relação a soluções radicais como o Green New Deal. Os EUA contribuíram com apenas 1 bilhão de dólares para o Fundo Verde para o Clima da ONU, que visa a ajudar "os países em desenvolvimento a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa e aumentar sua capacidade de resposta às mudanças climáticas” (o ex-presidente Barack Obama havia prometido 3 bilhões de dólares, mas o presidente Trump negou 2 bilhões).

Se já é alto o preço pago pelos habitantes dos EUA na rota dos incêndios pela inação dos políticos, o custo para o Sul Global será em escala ainda maior. “Sabemos que o Sul Global sofre mais de 90% dos impactos e concentra 98% das mortes associadas ao colapso climático, devido a incêndios, inundações, secas, fome, doenças, migrações e assim por diante”, diz Hickel. “Então, assim como na era colonial, o Norte se beneficia à custa do Sul”.

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de Clarisse Meireles

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