Mãe Terra

"Espírito de Porto Alegre" impulsionou vitórias na guerra pela água

 

02/02/2002 00:00

 

 

Convidado pela organização do II Fórum Social Mundial, Oscar Olivera, dirigente da Coordenadora de Defesa da Água e da Vida de Cochabamba, na Bolívia, não pôde presente na mesa da Conferência “Água – bem comum”, dentro do Eixo II – O Acesso às Riquezas e a Sustentabilidade, na manhã deste sábado (02/02). Ele está impedido de sair da Bolívia por estar sendo acusado em processos judiciais abertos pelo governo do país sul-americano.

A organização de Olivera, composta por camponeses, trabalhadores assalariados, estudantes, profissionais liberais, outras instituições populares e ONGs, liderou e venceu uma luta contra a privatização da água. Respaldada por uma lei de privatização dos sistemas de água potável e da rede de esgoto, a multinacional Bechtel acertou um contrato com as autoridades bolivianas, no ano de 2000, e ficou com a concessão em Cochabamba. A resistência, sob as batutas da Coordenadora, conseguiu fazer com que o contrato privado fosse rompido, com que a lei da água fosse modificada e com que a prestação de serviço de água potável voltasse a ser feita por uma empresa pública.

Mas como a Coordenadora conseguiu fazer com que todas as suas reivindicações fossem atendidas? “Se alguém não puder viajar de avião, pode ir por terra. Se alguém não conseguir arrumar dinheiro para pagar a conta de luz, acende uma vela. Mas o que acontece quando alguém não tem acesso à água? Ele morre. A água é vida e ninguém pode ser privado da vida”, afirmou Pablo Sólon, representante do movimento boliviano que pôde estar no debate no II FSM.

As palavras do representante do movimento de Cochabamba resumem a tônica da Conferência: o ideal de elevação da água para a categoria de patrimônio da humanidade.

Luiz Gonzaga Tenório, da Federação Nacional dos Urbanitários afirmou que é preciso impedir que o FMI e o Banco Mundial, apoiados por algumas multinacionais francesas, não imponham seus interesses na questão da água. “Qualquer perda da gestão pública da água, como já ocorreu na Inglaterra e na Argentina, pode ser considerada como uma privatização”.

O norte-americano Glenn Switkes, da International Rivers Network, por sua vez, destacou um aspecto positivo conquistado no encontro preparatório para a Conferência de Desenvolvimento Sustentável (Rio 10), realizado em Nova Iorque, simultaneamente ao II FSM. “Conseguimos incluir a questão da água na agenda da Conferência Rio 10”, anunciou.

Representante do Fórum Mundial das Águas, da Itália, Ricardo Petrella, apesar de reconhecer todas as explorações relacionadas à água, mostrou estar bastante otimista. “As lutas pessoais estão se tornando cada vez mais públicas, da esfera local para o global. O número de vitórias da sociedade vem crescendo nessa questão da água. É a força do “espírito de Porto Alegre”, que coloca o direito à vida acima do acúmulo de riquezas”.

A ausência do boliviano Olivera ao lado dos debatedores da mesa, porém, dá uma boa idéia do nível de interesse do governo e das grandes empresas em fazer -com o perdão do trocadilho- rios e mais rios de dinheiro, com a água do mundo.

Privilégio ao mercado compromete sustentabilidade
A idéia central da conferência que tratou do tema sustentabilidade ambiental no II Fórum Social Mundial foi a de que não é possível pensar em sustentabilidade sem levar em consideração os aspectos social, econômico e político. A origem dos problemas ambientais está na lógica neoliberal, a qual privilegia o mercado em detrimento da vida, defenderam os debatedores. “Se continuarmos com o neoliberalismo a sustentabilidade continuará sendo uma utopia”, enfatiza o representante da ONG Friends of the Earth, Ricardo Navarro. “Queremos a OMC fora da agricultura, fora da saúde, fora da educação, e se possível, fora do planeta”.

Salientou ainda o representante dos “Amigos da Terra” que há uma dívida ambiental histórica dos países do norte para com os países do sul. E não é só isso. Segundo ele, há uma dívida do homem branco para com o homem de cor, do homem para com a mulher, da geração presente para com a geração futura, e do homo sapiens para com os demais seres vivos. “Essas dívidas devem ser reconhecidas e deve-se buscar mecanismos que reduzam essas dívidas”, conclui o ativista.

Mais dinheiro para a poluição

O Banco Mundial concede 25% a mais de financiamento para os combustíveis fósseis do que para fontes de energia renováveis. Para o debatedor John Cabana, representante do International Forum on Globalization, isto não pode ser tolerado. Ele defendeu a substituição de organizações como o FMI e o Banco Mundial por outras que favoreçam a sustentabilidade econômica, social e ambiental. “Em situações como a da Argentina, o FMI age como um tribunal de falências, que pretende resolver somente o problema dos credores.”

Cabana apresentou um programa com alternativas econômicas para a globalização durante a conferência. Foram estabelecidos, neste documento, os princípios para uma sociedade democrática e sustentável, entre eles a busca pela redução das desigualdades entre os ricos e os pobres, pela segurança alimentar e pela diversidade cultural e biológica.

Globalização de compaixão e não de guerra

A mais esperada participante da manhã, Vandana Shiva, ativista indiana na luta pelo meio ambiente e pelos direitos da mulher, reforçou a idéia de que o direito a uma vida digna, aos alimentos, à saúde, aos recursos naturais, enfim, ao meio ambiente, são direitos naturais do homem. “Esses não são direitos concedidos pelo Estado, e corporações internacionais como a OMC e o FMI não podem ter o poder de extingui-los”, diz a indiana.

Para Vandana, as lutas pela sustentabilidade ambiental, pela igualdade e pela democracia têm sido tratadas como direitos corporativistas, mas em verdade o que se pretende é denunciar crimes contra a humanidade. As campanhas contra a biotecnologia são atribuídas aos terroristas. “As forças contra as quais nos erguemos são ameaças contra a vida. Para eles, a nossa luta não é real. Somente o mercado e as multinacionais é que são. Existem milhões com fome no mundo enquanto os alimentos apodrecem nos estoques. A agenda do livre comércio está roubando o nosso direito à vida”.

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