Mãe Terra

'Sem Aquecimento, Sem Guerra': o entrelaçamento entre crise climática e militarismo

'Diante do COVID-19 e da crise climática, é urgente trocar uma cultura de guerra por uma de cuidado'

24/04/2020 09:44

Um avião de caça dos EUA manobra sobre o deserto. (Força Aérea dos EUA pelo sargento Benjamin Bloker)

Créditos da foto: Um avião de caça dos EUA manobra sobre o deserto. (Força Aérea dos EUA pelo sargento Benjamin Bloker)

 

Um novo relatório, que examina o orçamento federal, ilumina as profundas conexões entre a emergência climática e as forças armadas dos EUA, argumentando que a mudança para uma economia verde exige uma justa transição para longe dos combustíveis fósseis e da guerra sem fim.

O relatório, intitulado “Sem Aquecimento, Sem Guerra: como o militarismo alimenta a crise climática - e vice-versa”, sustenta que a pandemia de coronavírus em curso "mudou completamente a vida como a conhecemos" e adverte contra os esforços para o retorno a uma antiga normalidade que foi "definida pelo capitalismo sem limites que prospera na devastação do planeta, na desvalorização da vida humana e no uso da força militar para perpetuar ambas".

"Em uma escala local e global, a humanidade e a comunidade foram cooptadas pelo lucro e pela violência. Essa 'normalidade' agora nos trouxe à beira de uma crise existencial, à medida que as mudanças climáticas continuam quase inabaladas", escrevem as coautoras Lorah Steichen e Lindsay Koshgarian no prefácio. "Diante da COVID-19 e da crise climática, precisamos urgentemente mudar de uma cultura de guerra para uma cultura de cuidado".

O relatório foi publicado quarta-feira, 50a comemoração anual do Dia da Terra, pelo National Priorities Project (NPP - Projeto de Prioridades Nacionais) no Instituto para Estudos de Políticas (IPS). A NPP, que compunha a lista de candidatos ao Prêmio Nobel da Paz de 2014, rastreia os gastos militares e incentiva um orçamento federal "que represente as prioridades dos norte-americanos, incluindo financiamento para questões populares como desigualdade, desemprego, educação, saúde e a necessidade de construir uma economia verde".

Juntamente com um resumo no site da IPS e um post de Steichen, a NPP produziu infográficos destacando as principais descobertas do relatório, incluindo que metade de todas as guerras entre países desde 1973 foram vinculadas a recursos de combustíveis fósseis, principalmente no Oriente Médio, rico em petróleo. De acordo com a NPP, "as forças armadas dos EUA gastam cerca de US$ 81 bilhões por ano para proteger o suprimento mundial de petróleo - mesmo antes de contabilizar a guerra no Iraque".


Legenda: “O petróleo é a cauda principal da guerra. Entre um quarto e metade das guerras entre países, desde 1973, têm sido ligadas ao petróleo.”

Como explicam os especialistas da NPP, as enormes forças militares dos EUA - com mais de dois milhões de membros e um orçamento anual superior a US$ 700 bilhões - estão "entre os maiores poluidores" do planeta, emitindo cerca de 59 milhões de toneladas métricas de gases de efeito estufa por ano, mais do que países como Suécia, Dinamarca e Portugal, de acordo com o projeto Costs of War no Instituto Watson da Brown University para Assuntos Públicos e Internacionais.

Steichen e Koshgarian descobriram que a transição da rede elétrica do país para 100% de energia renovável na próxima década custaria cerca de US$ 4,5 trilhões, o que não apenas geraria mais empregos do que os militares, mas também seria menos oneroso - em vidas e dólares - do que os US$ 6,4 trilhão de dólares que os EUA gastaram em guerra desde 2001.


Legenda: “Um jato militar, o Stratocruiser B-52, consome, em uma hora, quase a mesma quantidade de combustível que um motorista de um carro médio usa em sete anos”

Ecoando as demandas dos defensores do clima, o relatório pede o fim de todos os subsídios diretos e indiretos a carvão, petróleo e gás, o que economizaria cerca de US$ 649 bilhões por ano. Juntamente com o redirecionamento de US$ 350 bilhões dos gastos do Pentágono, a economia total pode chegar a quase US$ 1 trilhão que o país poderia investir em energia renovável.

"A cobrança de impostos justos sobre os ricos, as corporações e Wall Street poderia render 866 bilhões de dólares", acrescenta o relatório. "Quando tomamos de volta nossos recursos das elites que lucram com violentas guerras, armas e muros, podemos reinvestir trilhões de dólares em nossas comunidades e começar a reparar os danos infligidos às pessoas e ao planeta pela militarização em casa e no mundo."

O relatório também visa as empresas - empreiteiras militares e gigantes da energia - que colhem lucros maciços com a devastação da guerra e a extração de combustíveis fósseis. A análise evoca especificamente a Lockheed Martin, Boeing, General Dynamics, Raytheon e Northrop Grumman, bem como a BP, Shell, Chevron e ExxonMobil.


Legenda: “Extinguir subsídios diretos e indiretos para carvão, petróleo e gás poderia representar uma economia de 649 bilhões de dólares por ano. Cortar despesas militares desnecessárias poderia prover outros 350 bilhões por ano. Isso liberaria 1 trilhão todo ano para prioridades no sentido de salvar vidas, como a mudança climática.”

Censurando a aplicação violenta da lei e as respostas do governo em todo o país aos protestos contra a expropriação de terras e a extração de recursos, o relatório destaca como "à medida que o policiamento continua a ser militarizado, as legislaturas estaduais de todo o país criminalizam cada vez mais a dissidência" e punem as pessoas da linha de frente e das comunidades indígenas pela luta para garantir um futuro seguro e saudável.

O relatório também aponta evidências crescentes de que, enquanto as comunidades em todo o mundo continuam a suportar os impactos da crise climática, "essas novas realidades ecológicas irão agravar os conflitos existentes, causar mais instabilidade política e deslocar quantidades sem precedentes de pessoas". Por isso, os especialistas da NPP declaram: "a justiça dos imigrantes é a justiça climática, e desafiar o militarismo é fundamental para alcançar ambas".


"Para alcançar a justiça climática, precisamos transformar a economia extrativa que temos agora e que está prejudicando pessoas e ecossistemas", diz o relatório. "Resistir à militarização é essencial para a construção de uma economia que funcione para as pessoas e para o planeta. Nesse sentido, devemos buscar soluções para a crise climática que desafiem os sistemas violentos e opressivos que alimentaram a guerra e o aquecimento por gerações".

A conclusão do relatório apresenta cinco princípios para a ação coletiva:

1 Toda vida humana tem igual valor.

2 As economias são saudáveis na mesma medida que são as pessoas e o planeta.

3 Todas as pessoas têm direito à autodeterminação.

4 Há o suficiente para todos.

5 Estamos todos interconectados, assim como estão nossos movimentos.

"Esperamos que esse recurso contribua para as conversas existentes sobre mudanças climáticas e militarismo, destacando as maneiras pelas quais os dois se retroalimentam", escrevem Steichen e Koshgarian sobre seu novo relatório. "Também esperamos que esse recurso suscite novas perguntas e ajude a facilitar o diálogo - e a coordenação - entre os movimentos. Quando nos juntamos, podemos construir o futuro justo que merecemos".

*Publicado originalmente em 'Common Dreams' | Tradução de César Locatelli

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