Mãe Terra

"Com esse modelo vamos ao encontro de catástrofes cada vez mais agudas", alerta Leonardo Boff

Durante sua palestra num evento literário no Rio de Janeiro, o teólogo Leonardo Boff não poupou críticas ao sistema brasileiro, em defesa dos indígenas.

19/05/2016 00:00

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(Matéria de 5 meses atrás)

Durante sua palestra num evento literário no Rio de Janeiro, o teólogo Leonardo Boff não poupou críticas ao sistema brasileiro. Em defesa dos indígenas, criticando o racismo existente no país e o patriarcalismo, aos 77 anos mantém sua insatisfação acesa com os rumos da nossa civilização. Por que um país tão rico tem tantos pobres e é tão atrasado, questionou.

Embora aponte que quase 80% das grandes empresas determinem o destino do parlamento, graças ao que ele chamou de conciliação que sempre triunfa contra o povo no país, suas críticas são no sentido de manter o Partido dos Trabalhadores (PT) na direção do Brasil. Faz uma oposição construtiva, distante do modelo propagado pelo Partido Social da Democracia Brasileira (PSDB). Liderou um Manifesto com intelectuais e artistas em Defesa das Instituições Democráticas.

Boff escreve em vários meios alternativos, é autor de mais de 60 livros e um intelectual orgânico. Nunca deixou de opinar sobre os caminhos trilhados pelo país, e é radicalmente defensor da harmonia do ser humano com a natureza. Meio ambiente sempre foi uma das suas maiores bandeiras, além da ética. Foi excomungado da igreja católica graças à sua participação na Teologia da Libertação, mas hoje não pensa duas vezes em defender o atual papa. Para ele, a proximidade com o povo e os oprimidos é fundamental e democracia não pode se constituir com o mínimo de desigualdade.

Na entrevista à Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), analisa o atual cenário de instabilidade política e econômica no Brasil. Afirma que não é possível melhorar a nação sem reformas estruturantes, inclusive dos meios de comunicação. Acredita que a agroecologia é o caminho para alimentar a população e garantir sua saúde.

Ocorreu recentemente uma catástrofe no Rio Doce, qual a sua avaliação sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro em relação ao meio ambiente?

O Brasil não desenvolveu ainda uma consciência de responsabilidade ecológica, ele ainda vê a relação desenvolvimento e natureza quando a grande questão é ser humano e natureza. E vimos naquele grande desastre da Samarco, no Rio Doce, uma irresponsabilidade do ser humano face à natureza que ele não cuidou e não previu. Deixou que ocorressem riscos e agora colhemos um desastre, que vai afetar aquela região de quase 600 quilômetros por dez anos. Temos de nos conscientizar que com esse modelo vamos ao encontro de catástrofes cada vez mais agudas. Mudar de paradigmas, isto é, redefinir uma relação nova do ser humano com a natureza sentindo-se parte e não dono dela. Não podemos fazer com os bens e serviços dela o que quisermos, nossa missão é cuidar da natureza para que ela continue nos dando tudo o que precisamos para viver. E ao mesmo tempo abrir uma esperança para o futuro de nossa civilização, do próprio planeta terra, porque com o aquecimento global e o processo de devastação globalizado hoje há o risco de ir ao encontro de um abismo. Então, temos de tomar consciência até pelo instinto de sobrevivência.

Em 2012 a Dilma instituiu uma Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, no entanto temos a Kátia Abreu que é uma figura expoente do agronegócio como ministra da agricultura e um modelo que segue a linha da monocultura e das commodities. Como você vê esse modelo com a hegemonia do agronegócio muito evidente?

São duas alternativas opostas. Uma visa explorar a natureza, devastação do meio ambiente, das florestas e do solo em função da acumulação da riqueza. Esse é o projeto globalizado da macroeconomia e que está na cabeça de Kátia Abreu. Existe a outra alternativa, que tem consistência porque está no Brasil inteiro: a agroecologia. A utilização de todas as sinergias próprias da natureza, a ecologia familiar, as biotecnologias sociais, etc. Estes procuram produzir, mas respeitando os ciclos da natureza e aquilo que a terra pode dar não ultrapassando os limites que coloquem aquele ecossistema em risco.

Hoje 70% do que comemos e está nas nossas mesas vem da agricultura familiar. Há uma desproporção do interesse do Estado, que investe bilhões no agronegócio porque assim tem garantidos os dólares que ele precisa. Ao mesmo tempo dá um auxílio quase irrisório àquilo que significa a saúde do povo brasileiro: a agroecologia e a produção familiar. Então temos que enfrentar cada vez mais essa luta e sustentar essa alternativa, porque se pensarmos em termos de futuro é esta agroecologia que vai alimentar a humanidade e garantir sua saúde. Sem os transgênicos e agrotóxicos, apenas utilizando aquilo que a própria terra com sua riqueza e bens e serviços nos oferece.

Está em construção junto aos movimentos sociais o II Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, e uma reivindicação forte da sociedade civil que após muita insistência está sendo incorporada é a questão da terra e do território que remete à reforma agrária. Como o Brasil tem tratado nos últimos anos a questão fundiária?

O Brasil nunca fez uma reforma política, não fez a reforma agrária, não fez nenhuma reforma fundamental que mudasse a estrutura das relações sociais. É urgente que haja uma reforma agrária com terras no campo e na cidade para poder atender as pessoas, e especialmente no campo fixá-las com toda a infraestrutura que uma reforma agrária implica. Não é só a terra, são as sementes, os preços, as tecnologias. É a presença da escola, do hospital, daqueles serviços que permitem às pessoas sentirem alegria e prazer de estar no campo e não debandar para a cidade. Hoje 84% das pessoas vivem nas cidades, vivem praticamente expulsos do campo porque não têm nenhuma assistência. Nenhum governo brasileiro dará um salto de qualidade na direção do futuro sem uma reforma agrária e na saúde, porque um povo doente, ignorante e pobre nunca terá um desenvolvimento realmente humano, integrador e com sustentabilidade.


Qual a sua interpretação sobre os meios de comunicação no Brasil, levando em consideração que qualquer mudança dessas passa também necessariamente pela circulação de outras informações e a conscientização da população?

Vivemos sob uma ditadura dos meios de comunicação, e não devemos esquecer que eles não são donos. A Globo não é dona da televisão, e nenhum dos grandes jornais: é uma concessão do Estado. Nunca houve uma reforma sobre os meios de comunicação. Por outro lado, existem os meios de comunicação alternativos e a internet que são todas as expressões do facebook, do twitter, que permitem uma democratização do saber. Tem as suas contradições, porque as coisas mais horríveis, racistas e excludentes têm também a sua expressão. Mas ao mesmo tempo coloca em relação pessoas que têm projetos alternativos, querem cuidar da terra, trocam experiências com referência a sementes, combatem os agrotóxicos e propõem uma nova relação com a terra de sinergia e respeito. Então, a gente tem que aproveitar esses novos canais para criar novas solidariedades, redes de grupos que estabelecem uma espécie de destino comum: salvar o que pudermos dos bens e serviços ameaçados da natureza, e ao mesmo tempo garantir as bases físico-químicas e ecológicas que sustentam a vida. Caso contrário, iremos ao encontro do pior. Então temos uma oportunidade única e devemos aproveitar que esses canais e a consciência cresçam. Mais do que isso, cresçam os laços de solidariedade que criam os movimentos para que eles ganhem força de pressão sobre o poder público e as grandes corporações.

Vivemos um momento de muita instabilidade política e econômica. Como você vê a conjuntura atual, inclusive com a possibilidade de impeachment da presidenta em curso? Por um lado a questão da corrupção vindo à tona, e por outro o próprio presidente da câmara da base aliada do governo capitaneando o interesse da oposição.

Vivemos um momento de caos na política, na ética e na economia. Mas o caos sempre tem dois lados, o destrutivo que limpa tudo aquilo que é acessório e que tudo cai e só sobra o certo. E tem o lado construtivo, generativo, ele pode a partir do núcleo gerar novas formas de produção, relações sociais e um novo tipo de ética pública. Essa crise pode desembocar positivamente em algo bom para o Brasil. A partir de agora será muito difícil ser corrupto sem ser punido, porque os grandes milhardários, banqueiros, donos das maiores empresas estão na prisão e isso nunca ocorria antes. Eles compravam tudo, os juízes, as leis, o que fosse, e agora não.  Então, penso que o próprio PT sairá purificado dessa crise. Deverá voltar às suas bases e teses básicas éticas de transparência, e de articulação permanente orgânica com os movimentos sociais e o povo brasileiro. A própria política vai se purificar, agora tem que ser muito mais transparente, menos manipulada ou financiada, monetarizada. E a chance é que a nossa democracia nessa travessia saia mais solidificada e verdadeira, porque se medirmos as injustiças sociais e corrupção com democracia, a democracia parece uma ilusão. Devemos recuperar o conceito de democracia a partir da participação, do respeito e direitos, a partir de busca de níveis cada vez mais iguais na sociedade.

Estamos carentes de novas doutrinas, metodologias, pensamentos em termos institucionais quando pensamos em democracia? É preciso repensar novos mecanismos?

A democracia só representativa é insuficiente, porque não representa os interesses do povo. Ela representa os interesses do capital, das empresas que apoiaram os candidatos: é uma democracia absolutamente imperfeita. Precisamos de uma democracia popular, onde os movimentos sociais possam ser convocados a opinar e decidir. Vou mais longe, uma democracia sóciocósmica que incluísse a própria natureza como novos cidadãos que devem ser cuidados. Porque cada ser tem um valor em si mesmo e tem os direitos da terra, da natureza, de ser incluídos nessa nova democracia que ainda estamos ensaiando. O futuro caminha para essa visão includente do ser humano e natureza.

Tivemos um processo de mais de 10 anos com a ascensão de governos progressistas com uma proposta mais democrática na América Latina. Na Argentina o Kichnerismo foi derrotado nas urnas e na Venezuela os neoliberais estão virando maioria no parlamento, dentre outros exemplos. Para aonde estamos caminhando na região?

Observamos que no nível mundial há uma ascensão visível e crescente da direita, porque em momentos de crise aparecem aqueles que são pela ordem, o enquadramento e a repressão. Isso tanto na Europa, de forma desastrosa pela Grécia e Espanha, e na América Latina toda. Depois dessa primavera de democracia que tivemos após as ditaduras, estão saindo do armário os grupos de direita que representam a macroeconomia mundial, o neoliberalismo, a hegemonia do neoliberalismo como acumulação privada, individualismo, desrespeito e esquecimento total da natureza e de seus bens e recursos limitados. Então está voltando esta velha ideia, há um império e todos têm que se alinhar a ele, que são os Estados Unidos e os estados europeus. O Pentágono trabalha com um mundo, um império, e o papa na sua encíclica sobre como cuidar da causa comum diz: uma casa comum e um cuidado comum. Essa que é a verdadeira alternativa, não é o império e um mundo. É o mundo e um projeto para o mundo, que é cuidar da terra.

Você acha que pelos temas tabus que o papa têm tocado, ele corre o risco de ser assassinado? Ele está sendo muito radical no meio conservador em que atua?

Ele não só é um grande líder religioso, é também um grande líder político. Porque pela primeira vez um papa do terceiro mundo traz a cultura do terceiro mundo, que é a crítica ao capitalismo, a opção pelos pobres, a busca da libertação. Ele disse isso sem meias palavras, condena o atual ritmo da história como perverso inimigo da vida que sacrifica a humanidade. E ao mesmo tempo toma uma posição clara ao lado dos pobres, dos oprimidos, na defesa da mãe terra, que nunca aconteceu antes, então é irradiador de esperança. Apoia todos os grupos alternativos que sonham com um mundo diferente e necessário.






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