Mãe Terra

A Amazônia Saqueada

 

07/09/2020 15:35

(Reprodução/PLANET LABS)

Créditos da foto: (Reprodução/PLANET LABS)

 
Em agosto desse ano tivemos uma demonstração clara dos objetivos do governo cívico-militar em relação à Amazônia. Uma operação do IBAMA junto com o Ministério da Defesa conta o garimpo ilegal instalado dentro da Terra Indígena Munduruku, no oeste paraense. No mesmo dia, o Ministro do Meio Ambiente chega a Jacareacanga, onde é recebido por uma comitiva de “garimpeiros” Mundurukus, favoráveis a destruição da sua terra.

Logo em seguida, o Ministério da Defesa suspende a operação, que por sinal já tinha sido vazada para os “garimpeiros. A farsa serviu como um jogo midiático para esconder a verdadeira operação da Polícia Federal, ocorrida no dia 6 de agosto, chamada de “Operação Bezerro de Ouro”, onde foram feitos cumpridos seis mandados de busca e apreensão, de bloqueio e sequestro de bens e sete prisões temporários. O alvo: o grupo autodenominado “Boi na Brasa”, uma família com sete irmãos e seus filhos que na verdade comanda o garimpo ilegal nas terras dos Mundurukus.

Essa facção criminosa movimentou em um curto período em 2019, R$34 milhões, a maior parte em espécie. Ela conta com aviões, embarcações, máquinas pesadas, camionetes. Pois é justamente essa facção criminosa que o governo do miliciano presidente defende, o que é completamente lógico. Consegui com EXCLUSIVIDADE a cópia da representação que a Polícia Federal de Santarém, responsável pelo inquérito, enviou à justiça federal. É um documento sigiloso mas que revela todas as artimanhas da facção criminosa e desmonta com a versão sempre divulgada que os garimpeiros precisam sobreviver, que é o ganha pão deles. Uma mentira ordinária.

O ouro na região do rio Tapajós foi descoberto em 1950, no rio das Tropas, afluente da margem direita do rio Tapajós. Na década de 1980 houve o auge da “corrida do ouro” com 30 mil homens se matando atrás do mineral nos rios Tapajós e Jamanxim, o acesso foi facilitado pelas pistas de pouso e pela BR-230 – Transamazônica – e BR-163, no trecho Cuiabá-Santarém. As terras indígenas Munduruku e Sai Cinza foram homologadas por decretos presidenciais em 2004 e 1991 e a TI Sawre Muybu teve o Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID) publicados em abril de 2016.

- Estão entre as terras mais pressionadas pela exploração mineral ilegal e pelas especulações das grandes empresas mineradoras, com milhares de processos protocolados junto à Agência Nacional de Mineração (ANM). A região compreende os municípios de Itaituba, Jacareacanga, Novo Progresso e Trairão, no oeste paraense. A pressão aumentou com o envio do Projeto de lei ao Congresso permitindo a legalização do garimpo em terras indígenas e simplificando o regime de outorga da lavra garimpeira. A exploração ilegal de ouro e diamante nessa TI vem sendo insistentemente denunciada a órgãos de fiscalização”.

Esse é um trecho do artigo da pesquisadora Ítala Rodrigues Nepomuceno intitulado “Territórios Munduruku e Tensões com garimpos e mineração no Alto e Médio Tapajós”, que faz parte de uma coletânea da Universidade Estadual do Amazona – “Mineração e garimpo em terras tradicionalmente ocupadas – conflitos sociais e mobilizações étnicas”, com 826 páginas, lançada na forma de ebook no ano passado. Os organizadores são: Alfredo Wagner, Erika Aleixo, Ítala Nepomuceno e Vinicíus Benvegnú.

A coletânea integra o Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA) e a primeira parte da coletânea reuniu 41 autoras, 34 autores, referentes a 42 artigos e 10 depoimentos. As informações disponibilizadas foram obtidas a partir de verificações “in loco” produzidas com fundamento em trabalhos de campo e técnicas de observação direta. Na coletânea estão publicados 15 documentos – cartas, abaixo-assinados, notas técnicas, pareceres- de sete organizações indígenas regionais (APINA, CIR, COIAB, HUTUKARA, TEKOHA GUASU GUARANI e KAIOWÁ, além da entidade nacional APIB e internacional COICA. As denúncias dão ênfase ao período de janeiro a novembro de 2019.

No Congresso Nacional existem 17 projetos de emenda constitucional na Câmara e três no Senado, com objetivo de alterar a legislação ambiental, permitir a exploração de terras indígenas e retirar direitos de ocupação dos povos. No dia 5 de fevereiro de 2020 o governo federal enviou o PL 191 ao Congresso regulamentando a mineração, a produção de petróleo e gás e a geração de energia elétrica em terras indígenas.

Foi a senha para que os grupos criminosos intensificassem a sua atuação. De janeiro a agosto a área do garimpo na terra Munduruku cresceu de 8ha para 362ha. A lojinha do seu Roberto Katsuda, saiu do interior de São Paulo para Itaituba, no berço da garimpagem criminosa e ilegal, vendeu 600 retroescavadeiras em seis anos. Segundo depoimento dele em uma reunião na Câmara de Vereadores de Itaituba os donos dos garimpos investiram entre R$300 e 400 milhões em maquinário, no período da sua transferência de SP para o Pará. O Ministério das Minas e Energia calcula que o faturamento do crime organizado mineral é da ordem de R$3 a 4 bilhões.

Certamente é uma cifra mentirosa porque ninguém tem controle sobre a produção ilegal e criminosa que ocorre nas terras indígenas. E não se trata apenas de outo, mas de diamantes. Outra coisa: fora a chinelagem dessa máfia metida a besta, que controla dos garimpos do oeste paraense, quem tem pedidos registrados de pesquisa e licenciamento para lavras nas terras dos mundurucus: a Vale S.A. e a Mineradora Rio Vermelho Importação e Exportação Ltda.

Ou alguém acredita que uma comitiva formada por três irmãos mundurucus, moradores da cidade e garimpeiros com passado identificado, mais o nipo-brasileiro Roberto Katsuda – que compõem as comitivas garimpeiras n as viagens em voo da FAB para Brasília- mais o Luis Barbudo – presidente da associação da garimpagem regional – mais o Saulo Batista Oliveira – líder da facção Boi na Brasa – vão fazer frente aos negócios bilionários das mineradoras transnacionais.

A REPRESENTAÇÃO DA PF CONTRA A FACÇÃO BOI NA BRASA

A representação tem 112 páginas e acompanhada de quatro anexos e requer medidas cautelares no inquérito nº2020.0054946-DPF/SNM/PA que envolve mandados de busca e apreensão, bloqueio/sequestro de bens e prisão temporária. O inquérito foi instaurado mediante a representação do Ministério Público Federal. O objetivo é apurar crime ambiental e executar extração mineral em 438,32ha da FLONA Crepori, sem a competente autorização, permissão, concessão ou licença da autoridade ambiental competente, no município de Jacareacanga, por pessoa de alcunha “Boi na Brasa”. E também investigar a exploração ilegal de minerais da TI Munduruku, atualmente concentrada na região do rio Kabitutu e Kaburuá, perpetrado pelo grupo conhecido como “boi na Brasa”, em atuação consorciada com indígenas Mundurukus, favoráveis ao garimpo, o que tem causado conflitos dentro da referida etnia.

As investigações deram conta de que “Boi na Brasa” é um grupo de familiares e afins, de garimpeiros que atuam na região da TI Munduruku. O grupo é composto pelos filhos e netos de Saulo Batista de Oliveira. São eles:

-Saulo Batista de Oliveira Filho

-Vilson Batista de Oliveira

-Waldemir Soares de Oliveira

-Ari Soares de Oliveira

-Altair Batista de Oliveira

-Ivani Soares de Oliveira

-Emerson Paulino de Oliveira

-Alysson Campos Oliveira

-Anselmo Campos de Oliveira

-Adelmo Campos de Oliveira

Os investigados utilizam em seus perfis de redes sociais as iniciais BNB e se reconhecem como integrantes do grupo Boi na Brasa, uma das razões insidiarias que aponta à hipótese criminal investigada, de associação criminosa.

Os indígenas pró-garimpo são os irmãos Manhuary – Zenóbio, João Valdir e Josias-, além de Thomaz Boro Munduruku. Tal grupo é amplamente conhecido pela extração mineral ilícita, especialmente em páreas indígenas e, orgulhosamente, ostentam tais fatos. Não se acanham, ainda, em se expor no interior da Terra Indígena e com os respectivos comentários, que se gabando diz:

-KKKK quanto kg de ouro não vai sair?? KKKK”, é a legenda de uma fotos de um dos irmãos, ARI, entregando mantimentos para uma família Munduruku.

Último trecho:

“-Na região do Alto do Kabruá é possível localizar uma grande quantidade de “PCs”- escavadeiras hidráulicas, conhecidas como Pá Carregadeira e aviões. Na região do Açaizal há grande fluxo de maquinário. No rio Kabititu há uma frente muita ativa, localizadas nas imediações das Aldeias Kaburuá, Porto, Biribá e Cachoeirinha. Concentrando boa parte das PCs na região chamada de Estirão – próxima a Aldeia Cachoeirinha.

Informações relevantes sobre aviões: eles partem da vila do CREPURIZÃO e da região da Transamazônica em direção a Jacareacanga, onde ocorre a venda do ouro extraído na Terra Indígena”.



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