Mãe Terra

A Grã-Bretanha prometeu zerar as emissões - mas está no caminho para alcançar absolutamente nada

Mesmo produzindo metas ambiciosas, governos falharam em abordar grandes questões ambientais nos últimos 15 anos

28/05/2021 11:51

''Fizemos as coisas mais fáceis primeiro. Estações de energia que queimam carvão foram substituídas por gás, e uma parte do gás por renováveis'' (Ben Stansall/AFP/Getty Images)

Créditos da foto: ''Fizemos as coisas mais fáceis primeiro. Estações de energia que queimam carvão foram substituídas por gás, e uma parte do gás por renováveis'' (Ben Stansall/AFP/Getty Images)

 

Toda semana, governos fazem anúncios sobre salvar o planeta, e toda semana sua pequena pegada o condena. A última novidade do G7 é um clássico do gênero. Aparentemente, todos os sete governos se comprometeram em “conservar ou proteger ao menos 30% do território global e ao menos 30% dos oceanos até 2030”. Mas o que isso significa? O Reino Unido, que alega ter garantido o novo acordo, diz que já “conservou ou protegeu” 26% de seu território e 38% de seus oceanos. Na realidade, simplesmente desenhou linhas em um mapa, designando nossas montanhas e oceanos revirados de lixo como “protegidos”, quando não estão. É assim que o mundo termina. Não com uma explosão, mas com um comunicado à imprensa.

Todos os governos fazem isso, mas Boris Johnson aperfeiçoou a arte. Opera com o princípio da arrogância do comprometimento: enquanto as ações vão diminuindo, as promessas aumentam. Não importa se não alcançar as metas estabelecidas pelos quarto e quinto orçamentos de carbono: agora tem uma meta incrível para o sexto orçamento. Não importa se não cumprir com compromissos antigos de um corte de 80% nas emissões dos gases do efeito estufa até 2050. Ao invés, nos prometeu “emissões zero” para a mesma data. Sim, precisamos de mais ambição, sim, o governo está seguindo conselhos oficiais, mas metas cada vez maiores parecem substituir as ações.

Quinze anos atrás, eu escrevi um livro chamado “Calor”. Eu tentei entender o quanto teríamos que cortar os gases do efeito estufa para cumprir de maneira justa nossas obrigações internacionais, e como faríamos isso sem destruir a prosperidade e paz nas quais o sucesso depende. As melhores estimativas na época sugeriam que se o Reino Unido ignorasse sua responsabilidade na prevenção do colapso climático, precisaríamos cortas nossas emissões em 90% até 2030.

Pesquisando o prefácio para uma nova edição, eu queria descobrir o progresso que já tínhamos percorrido. Um artigo no jornal de Política Climática usa uma fórmula similar para a justiça global. Sua conclusão? Se o Reino Unido ignorasse sua responsabilidade na prevenção do colapso climático, precisaríamos cortas nossas emissões em 90% até 2030. E em 2035, nossas emissões alcançariam o “zero verdadeiro”. Em outras palavras, em termos de métricas que realmente contam, não chegamos a lugar algum. A diferença é que agora temos nove anos para realizar o corte de 90%, ao invés de 24.

Como isso pode ser verdade, tendo em vista que o Reino Unido reduziu suas emissões de gases do efeito estufa em 49% desde 1990? Certamente somos um líder global em ação climática?

É parcialmente porque agora sabemos que limitar o aquecimento global a 2 graus nos compromete com um mundo perigoso. Na teoria, os governos aceitaram uma meta mais rigorosa de 1.5 graus. Mas também porque, se ignorarmos o impacto da pandemia, nossa redução de gases do efeito estufa estagnou.

Fizemos as coisas mais fáceis primeiro. Estações de energia que queimam carvão foram substituídas por gás, e uma parte do gás por renováveis. Isso não faz diferença para a maior parte das pessoas: se apertarmos o interruptor, a luz ainda liga. Mas quase todas as reduções devem nos envolver diretamente. Elas não vão acontecer se o governo não mobilizar a nação: nos encorajando a dirigir menos e usar nossos pés, bicicletas e transporte público; taxando pessoas que voam com frequência; remodelando nossas casas; reduzindo a quantidade de carne que comemos; reduzindo as emissões incorporadas às coisas que compramos. Sobre essas questões, o compromisso do governo é zero. Não zero emissões. Absolutamente zero.

O transporte rodoviário no Reino Unido lança a mesma quantidade de gases do efeito estufa como fazia em 1990: uma falha chocante cometida por governos sucessivos. Ainda assim, Johnson pretende gastar outros 27 bilhões de libras em estradas. Todo grande aeroporto no Reino Unido tem planos de expansão.

Prédios liberam mais gases do efeito estufa agora do que em 2014, e os esquemas feitos para torná-los verdes também colapsaram. A concessão para casas verdes, que o governo terceirizou para uma empresa privada, foi um fiasco total, alcançando aproximadamente 8% da sua meta. No ritmo atual das instalações, os lares ingleses serão equipados com aquecimento com baixo teor de carbono em meros 700 anos.

Quando eu escrevi “Calor”, nos foi prometido que todas as novas casas logo seriam verdes. Ainda não aconteceu, e a data foi adiada novamente, dessa vez para 2025. Casas de má qualidade ainda estão sendo construídas, o que exigirá uma remodelação muito mais cara ou garantirá emissões altas para o resto das vidas dos seus moradores.

E ninguém no governo que tocar no maior assunto de todos: os gases do efeito estufa incorporados nas coisas que compramos, que representam cerca de 46% das nossas emissões. Ministros do governo alertam a China a cortar seus gases do efeito estufa, mas nosso modelo econômico depende que compremos tralhas que não precisamos com dinheiro que não temos. Devido ao fato de que os combustíveis fósseis necessários para produzir a maior parte deles é queimada no exterior e não aparece nas nossas contas nacionais, o governo pode lavar as mãos em relação a esse problema.

Mas algo mudou para melhor: nós. Em 2006, defensores climáticos tentavam contornar a indiferença do público. Agora, por fim, temos movimentos em massa, e algumas ações altamente eficazes, como a paralização exitosa da rede de McDonald’s realizada pela Animal Rebellion na semana passada. Se há esperança, é aí que está.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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