Mãe Terra

A ciência tem pressa, mas depende de muitos interesses

16/06/2012 00:00

Najar Tubino

Rio de Janeiro - Durante quatro dias, cerca de 500 cientistas de 75 países se reuniram no campus da PUC-RJ, para o Fórum de Ciências, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Sustentável, do ICSU, o Conselho Internacional de Ciência. Foram 11 sessões com painéis sempre com a participação de quatro a cinco pesquisadores, dirigentes do governo e executivos de empresas. A fórmula academia, governo, empresas. Mas o discurso final, segundo a coordenadora da área de ciências da UNESCO, é que o desenvolvimento sustentável, a expressão mais falada, comentada e criticada do momento, precisa ser centralizado na pessoa, na sociedade, ou seja, os grupos que compõem uma nação.

- “Nós tentamos trazer o que existe da ciência em várias áreas, desde as naturais até as sociais, para traçarmos um panorama no sentido de estabelecer parâmetros para o desenvolvimento sustentável. Isso em todos os sentidos, na questão da água, da produção de alimentos, da saúde. Buscamos caminhos, mas precisamos da participação da sociedade. O diálogo precisa acontecer entre governos, cientistas, empresas e a sociedade”, explica Lídia Brito, ex-ministra da educação, ciência e tecnologia de seu país, durante cinco anos.

Ela fala em montar um novo design, um novo formato de relacionamento entre todos os setores, para atacar o problema das agressões ao planeta. Vivemos um momento em que a humanidade se transformou em um novo fenômeno geológico. Até agora vivemos no período Holoceno, da Era Quaternária, começou há mais ou menos l8 mil anos. Pois os cientistas sabem que a civilização cristã ocidental pesou tanto que transformou os principais pilares da vida no planeta, e isso é chamado de Antropoceno, de antrópico, que parte da natureza humana.

A questão também é velha e já foi discutida 20 anos atrás. O discurso atual é que não temos mais tempo a perder, em função disso, o fórum aprovou um projeto chamado “Terra Futura”, onde as prioridades para combater problemas como o das mudanças climáticas, ou aumento na produção de comida, ou redução na poluição, enfim, os temas gerais terão linhas de financiamento para projetos de pesquisa. Coordenados internacionalmente pelo ICSU, tendo a UNESCO como organizadora ( é o órgão responsável pela cultura, educação da ONU).

Comunicação foi outro tema central. Os cientistas falam e escrevem de maneira complicada para leigos. É uma estratégia corporativa, limita o conhecimento. Muito mais agora que tudo é patenteado. Antes mesmo de apresentar um trabalho de pesquisa sobre determinado tema, a empresa, ou o financiador da pesquisa já registrou as patentes. Não interessa se é uma vacina ou um pedaço de um chip. A Google comprou a Motorola recentemente tendo como base 17 mil patentes registradas. As corporações usam isso como defesa, para minar a concorrência. Fatos registrados como brigas entre Apple e Samsung, ou Google e Microsoft.

No último dia, o executivo chefe da Black Berry, empresa canadense, estava na mesa dos panelistas, junto com a ex-presidente da Finlândia, país nórdico muito sustentável, mas especialista em montar fábricas de celulose pelo mundo afora, e de ser a sede da Nokia. Tarja Halonen ficou 12 anos na presidência e tem 40 anos na política. Está envolvida com as discussões da economia sustentável. Na Europa as discussões sobre educação, inovação e ciência vem de longa data. Ela defende novas maneiras de intercâmbio comercial, novas formas de trocas tecnológicas, mas ampliando o público, mais gente precisa participar. Os cientistas e dirigentes do velho continente estão numa toada só: participação da sociedade, diálogo aberto, comunicação mais intensa com as populações.

O discurso do executivo da Blackberry é clássico :

- “Fiquei muito feliz pelos resultados do fórum, a oportunidade de dar um novo paradigma, uma nova liderança para a economia verde. É interessante todos os novos relacionamentos entre governo, academia e empresas, para definir a forma que o crescimento econômico acontecerá. Os seres humanos são melhores quando resolvem um problema junto. O estímulo a criatividade humana é muito poderoso. Vemos muitas oportunidades de mudanças com a Rio+20, disse James Balsillie.”

Outro painelista, o sul-africano, Malgapuru Makgoba ressaltou que o conhecimento tem marca registrada, história e pertence a alguém ou a um grupo. O Fórum dedicou um dia de discussões sobre a utilização do conhecimento tradicional, de povos indígenas e outros que conservam valores culturais e sociais avançados sob o conceito de civilização. O que é uma novidade em termos científicos. Os cientistas sempre gostaram de usar o conhecimento, ou a matéria-prima desse conhecimento, como plantas, sementes, animais, para produzir sintéticos e vender as corporações. Não é à toa que 2/3 das tecnologias estão na mão das empresas, como já registrou o economista Márcio Pochman. Assim como as maiores 500 empresas do planeta produzem 50% dos bens.

O secretário executivo do fórum, Steve Wilson enfatizou: “estamos anunciando uma evidência científica sobre a situação do planeta que necessita de uma ação clara e imediata. A ciência tem o papel crítico em encontrar soluções junto com a sociedade e com colaboração internacional”

Justamente pensando na parte prática das ações dos cientistas, resolvi visitar o Pier Mauá, no centro do rio, ao lado do porto, onde quatro armazéns antigos, reformados, estão na programação da Rio+20.

Particularmente a minha curiosidade era para conhecer a estande da CNA (Confederação Nacional da Agricultura). É um lugar às margens da Baía de Guanabara, de frente pára a ponte Rio Niterói.

Na entrada, um imenso painel de imagens em movimento mostrando o que tem de mais belo no Brasil, d CREA para 155 milhões de toneladas, enquanto a área plantada pantanal, com suas águas azuis de Bonito, piraputangas desfilando no vídeo, cachoeiras, córregos, florestas, rios com mata ciliar, garças, colereiros, e por aí vai. Um paraíso verde, cercado de vida, ou de megabiodiveresidade, conforme o clichê do momento. Logo em seguida a maquete de uma fazenda degradada, com pastagens queimando, área de preservação permanente detonada, pecuária em solo degradado, atividades em excesso, sem proteção de nascentes.

A megaestande chamada de AgroBrasil mostra em seguida os passos para reverter à situação. Recuperar áreas de defesa do ambiente, dividir racionalmente a propriedade, respeitando os parâmetros ambientais, enfim, fazendo uma verdadeira revolução verde no agronegócio brasileiro. Que a entidade faz questão de esclarecer: representa 22,4% do PIB, 37% exportações e 1/3 dos empregos. “Esses resultados não comprometeram o meio ambiente, pois 61% do território estão preservados. São 329,9 milhões de hectares ocupados por propriedades rurais.

- Nas últimas três décadas, a produção de grãos no Brasil cresceu 228% passando de 47 para 155 milhões de toneladas. O ganho de produtividade evitou a abertura de novas áreas . Atualmente o Brasil usa apenas 27,7% do seu território, 236 milhões de hectares, com produção de alimentos e silvicultura e bicombustíveis”.

Quase a metade da produção de grãos, perto de 70 milhões de toneladas é de soja. Se não foram abertas novas áreas, não sei o que aconteceu no oeste da Bahia, na região de Barreiras e Luis Eduardo Magalhães em expansão, nem no Mapito (triângulo formado por terras do Maranhão, Piauí e Tocantins. De qualquer forma vamos acrescentar algumas coisas mais nesse paraíso verde da CNA :

- O Brasil tem cerca de 200 milhões de bovinos, um terço já está na Amazônia. A Embrapa, empresa de pesquisa agropecuária diz que existem 85 milhões de hectares de pastagens degradadas. As perdas estimadas em áreas degradadas atingem três bilhões de toneladas por ano de solo. A desertificação já atingiu 16% do território brasileiro, ou 1,3 milhão de kMc, afetando 1.488 municípios e mais de 30 milhões de brasileiros, 85% dos cidadãos considerados pobres. Os dados são do Ministério do Meio Ambiente. Atinge principalmente o nordeste, mas também atinge o norte de Minas e o Espírito Santo e o Rio Grande do Sul.

-O Programa de combate a desertificação do MMA identificou 1.500 bacias hidrográficas necessitam de intervenção, a um custo de R$120 milhões. Além de 2.250 voçorocas nos estados de SP, PR, MG e MS. Uma voçoroca, um grande buraco provocado pela erosão das chuvas, carrega cerca de 10 toneladas de terra por ano.

Segundo o PNUMA, programa de meio ambiente da ONU a faixa mais superficial do solo armazena sozinha cerca de 2,2 trilhões de toneladas de carbono, três vezes mais do que o nível contido na atmosfera. Desde o século XIX aproximadamente 60% do carbono armazenado nos solos e na vegetação foram perdidos como resultado de queimadas, desmatamento e uso inadequado do solo.

Mesmo assim a CNA se compromete, pelo Brasil a “recompor e conservar a vegetação nativa das nascentes, margens de rios e áreas de recarga dos aqüíferos subterrâneos. Essa é uma proposta brasileira para todos que se preocupam com a preservação do meio ambiente e a redução da fome no mundo”.

Por isso também eles criaram um projeto com a Emprapa de proteção dos principais biomas brasileiros, vão ensinar aos produtores como administrar a propriedade usando a capacidade da árvore para seqüestrar carbono. A árvore, no caso, é pinus, eucalipto ou Teka. Não tem uma citação em toda a exposição do AgroBrasil sobre agroecologia ou produção de orgânicos. Nem poderia, a Monsanto, maior vendedora de agrotóxico (glifosato, um herbicida) para sementes transgênicas é uma das patrocinadoras, junto com a John Deere, fabricantes de colheitadeiras e a Vale, com coprodução do SEBRAE.

O Brasil é o campeão em uso de agrotóxicos no mundo, mais de um milhão de toneladas consumidas em 2011. Para encerrar não pude deixar de constatar a coincidência do navio do Greenpeace, o Rainbow Warrior (guerreiro do arco-íris), atracado na baía de Guanabara exatamente na frente da estande da CNA, no armazém 1, com uma placa enorme – Desmatamento zero.

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