Mãe Terra

A crise climática é nossa terceira guerra mundial e exige uma resposta corajosa

Os críticos perguntam: "Podemos arcar com os custos?". Mas não podemos nos dar ao luxo do 'não': nossas vidas e a civilização como conhecemos estão em jogo

07/06/2019 19:32

A guerra contra a emergência climática, se corretamente travada, seria, na realidade, benéfica para a economia (Press Enterpr/Rex/Shutterstock)

Créditos da foto: A guerra contra a emergência climática, se corretamente travada, seria, na realidade, benéfica para a economia (Press Enterpr/Rex/Shutterstock)

 
Defensores do New Deal Verde dizem que há grande urgência em lidar com a crise climática e destacam a escala e o escopo do que é necessário para combatê-la. Eles têm razão. Usam o termo "New Deal" para evocar a resposta grandiosa de Franklin Delano Roosevelt e do governo dos Estados Unidos diante da Grande Depressão. Uma analogia ainda melhor seria a mobilização do país no combate à Segunda Guerra Mundial.

Os críticos perguntam: "Podemos arcar com os custos?" E reclamam que os defensores do New Deal Verde confundem a luta pela preservação do planeta, com a qual todos os indivíduos de mente sã deveriam concordar, com uma agenda controversa de transformação social. Nas duas avaliações, os críticos estão errados.

Sim, com as devidas políticas fiscais e com vontade coletiva, podemos pagar o New Deal Verde. E mais importante que isso, nós devemos fazê-lo. A emergência climática é nossa terceira guerra mundial. Nossas vidas e a civilização como conhecemos estão em jogo, assim como na Segunda Guerra.

Quando os EUA foram atacados durante a Segunda Guerra, ninguém perguntou: "Podemos pagar essa guerra?" Era uma questão existencial. Não podíamos não lutar. O mesmo vale para a crise climática. Já experimentamos os custos diretos de ignorar a questão – nos últimos anos, o país perdeu quase 2% do PIB em desastres relacionados ao clima, como inundações, furacões e incêndios florestais. O custo para a saúde causado por doenças relacionadas ao clima está sendo tabulado, mas também chegará a dezenas de bilhões de dólares – sem mencionar o número ainda não calculado de vidas perdidas. Pagaremos pela mudança climática de uma forma ou de outra, então faz sentido gastar dinheiro hoje para reduzir as emissões em vez de esperar para pagar muito mais pelas consequências – não apenas do clima, mas também do aumento do nível do mar. É um clichê, mas é verdade: um grama de prevenção vale um quilo de cura.

A guerra contra a emergência climática, se corretamente travada, seria, na realidade, benéfica para a economia – assim como a segunda guerra mundial preparou o cenário para a era dourada da economia americana, com a taxa mais rápida de crescimento em sua história em meio à prosperidade compartilhada. O New Deal Verde estimularia a demanda, assegurando que todos os recursos disponíveis fossem utilizados; e a transição para a economia verde provavelmente levaria a um novo boom. O foco de Trump nas indústrias do passado, como o carvão, está estrangulando o avanço, mais sensato, da energia eólica e solar. Mais empregos, de longe, serão criados com a energia renovável do que serão perdidos com o carvão.

O maior desafio será reunir os recursos para o New Deal Verde. Apesar da baixa taxa de desemprego nas manchetes, os Estados Unidos têm grandes quantidades de recursos subutilizados e alocados de forma ineficiente. A proporção de pessoas empregadas em idade ativa nos EUA ainda é baixa, menor que no passado, menor do que em muitos outros países e especialmente baixa para mulheres e minorias. Com políticas de licença e de apoio familiares bem projetadas e mais flexibilidade no mercado de trabalho poderia trazer mais mulheres e mais cidadãos acima de 65 anos para a força de trabalho. Devido a um longo legado de discriminação, muitos de nossos recursos humanos não são usados de forma tão eficiente quanto poderiam ou deveriam ser. Juntamente com melhores políticas de educação e saúde e mais investimento em infraestrutura e tecnologia – verdadeiras políticas do lado da oferta – a capacidade produtiva da economia poderia aumentar, fornecendo alguns dos recursos de que a economia precisa para combater e se adaptar à crise climática.

Enquanto a maioria dos economistas concorda que ainda há espaço para alguma expansão econômica, mesmo em curto prazo – produtividade adicional, que pode ser usada para combater a crise climática – há controvérsias sobre o quanto a produção poderia ser aumentada sem nos depararmos, pelo menos, com estrangulamentos de curto prazo. Quase certamente, no entanto, terá de haver uma redistribuição de recursos para lutar essa guerra, assim como houve na Segunda Guerra, quando a incorporação de mulheres à força de trabalho expandiu a capacidade produtiva, mas não foi suficiente.

Algumas mudanças serão fáceis, por exemplo, eliminar as dezenas de bilhões de dólares em subsídios aos combustíveis fósseis e transferir recursos da produção de energia suja para a produção de energia limpa. Você pode dizer, no entanto, que os EUA têm sorte: temos um sistema tributário tão mal projetado, regressivo e repleto de brechas, que seria fácil levantar mais dinheiro ao mesmo tempo em que se aumenta a eficiência econômica. A tributação de indústrias sujas, garantindo que o capital pague impostos pelo menos tão altos quanto quem trabalha para se sustentar e o fechamento de brechas fiscais proporcionariam trilhões de dólares ao governo nos próximos dez anos, dinheiro que poderia ser gasto na luta contra o colapso do clima. Além disso, a criação de um Banco Verde nacional financiaria o setor privado para as emergências do clima – para financiar proprietários que desejem fazer investimentos de alto retorno em isolamento térmico, permitindo-lhes travar suas próprias batalhas contra a crise climática, ou empresas que queiram reformar suas fábricas e sedes adaptando-as à economia verde.

Os esforços de mobilização da Segunda Guerra Mundial transformaram nossa sociedade. De uma economia agrícola e uma sociedade em grande parte rural, tornamo-nos uma economia industrial e uma sociedade em grande parte urbana. A liberação temporária de mulheres, que entraram na força de trabalho para que o país pudesse atender suas necessidades de guerra, teve efeitos de longo prazo. Esta é a ambição dos defensores, nem um pouco irrealista, do New Deal Verde.

Não há absolutamente nenhuma razão pela qual a economia verde e inovadora do século XXI tenha de seguir os modelos econômicos e sociais da economia industrial do século 20, baseados em combustíveis fósseis, assim como não havia razão para que aquela economia seguisse os modelos econômicos e sociais das economias agrária e rural dos séculos anteriores.

Joseph E Stiglitz é professor universitário na Universidade Columbia, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2001, ex-economista-chefe do Banco Mundial e autor, entre outros títulos, de People, Power, and Profits: Progressive Capitalism for an Age of Discontent (Povo, Poder e lucro: capitalismo progressista para uma era de descontentamento em tradução livre, sem tradução no Brasil).

*Publicado originalmente em theguardian.co | Tradução de Clarisse Meireles






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