Mãe Terra

A ecologia de Marx

Supostamente, Marx e Engels não tinham resposta alguma às questões ecológicas que constituem a principal preocupação em nossos dias. Entretanto, uma revisão séria de seus escritos mostra os vislumbres ecológicos contidos em sua obra

15/03/2019 19:16

 

 

*Prólogo do livro A Ecologia de Marx - Materialismo e natureza, escrito pelo próprio autor

O título que originalmente dei a este livro, quando comecei a escrevê-lo, era Marx e a Ecologia. Em algum momento decidi ser mais direto e me referir a uma “ecologia de Marx”. Esta mudança no título tem sua origem na mudança radical que meu pensamento sobre Marx (e sobre a ecologia) tem experimentado nestes últimos anos, e também devido à influência de diversas pessoas.

Muitas vezes, Karl Marx é caracterizado como um pensador antiecológico. Mas eu, que sempre estive familiarizado com sua obra, nunca levei a sério essas críticas. Em vários momentos, entre suas teorias, se pode identificar mostras de uma profunda consciência ecológica, e eu sabia disso. Porém, quando escrevi The Vulnerable Planet: A Short Economic History of the Environment (“O Planeta Vulnerável: Uma Curta História Econômica do Meio Ambiente”, de 1994) ainda acreditava que as coisas que Marx visualizava com relação à ecologia eram tratados como elementos secundários em seu pensamento; ou que não contribuíam com o essencial ao nosso atual conhecimento da ecologia como tal, e que a importância de suas ideias para o desenvolvimento desta estava no fato de que proporcionava a análise histórica materialista que a ecologia, com suas noções geralmente anti históricas e malthusianas, necessitava desesperadamente.

Que seria possível interpretar Marx de um modo diferente, de um modo que outorgasse à ecologia uma posição central em seu pensamento, era algo que eu sem dúvida era consciente, já que lá pelos Anos 80, minha amiga Ira Shapiro suscitava esses pensamentos quase diariamente – ela havia se mudado para Nova York, onde se tornou agricultora, carpinteira e filósofa da classe trabalhadora, na mesma época em que frequentava as minhas aulas. Contra todas as convenções da interpretação de Marx, Ira me dizia “olha isto” e indicava as passagens nas que Marx se ocupava dos problemas da agricultura e da circulação dos nutrientes do solo. Eu escutava atentamente, mas não detectava ainda toda a importância do que ela dizia (sem dúvida, o que me impedia de observar melhor era a minha falta de experiência real no trabalho da terra, que Ira sim possuía). Naqueles mesmos anos, meu amigo Charles Hunt, ativista radical, sociólogo, professor de meia jornada e apicultor profissional, disse que eu deveria me familiarizar mais com a dialética da natureza de Engels, devido à sua visão científica e naturalista. Novamente, eu escutava, mas mantinha minhas dúvidas. A “dialética da natureza” não havia falhado desde o começo?

O caminho ao materialismo ecológico estava bloqueado pelo marxismo que eu havia aprendido durante anos. Minha base filosófica havia sido Hegel e a rebelião do marxismo hegeliano contra o marxismo positivista. Rebelião esta que se iniciou nos Anos 20 da década passada, com as obras de Lukács, Korsch e Gramsci, e que levou à Escola de Frankfurt e à Nova Esquerda (como parte da rebelião mais ampla contra o positivismo que dominou a vida intelectual europeia de 1890 até 1930, e além). Havia uma insistência no materialismo prático de Marx, que tinha suas raízes no conceito de práxis, que, em meu próprio pensamento, combinava com a economia política da tradição da Monthly Review nos Estados Unidos, e com as teorias históricas de E. P. Thompson e Raymond Williams na Grã-Bretanha. Contudo, em uma síntese como esta, sobrava pouco lugar para um enfoque marxista de temas relacionados com a natureza e com as ciências físico-naturais.

É verdade que pensadores como Thompson e Williams na Grã-Bretanha, e Sweezy, Baran, Magdoff e Braverman, associados nos Estados Unidos com a Monthly Review, insistiam todos na importância de relacionar o marxismo com o reino físico-natural em geral, e cada um deles contribuía da sua forma ao pensamento ecológico. Mas o legado teórico de Lukács e Gramsci, que eu havia interiorizado, negava a possibilidade de aplicar os modos de pensamento dialético à natureza, o que essencialmente levava a ceder todo este campo ao positivismo. Por então, eu conhecia apenas uma tradição alternativa, mais dialética, que se dava dentro das ciências biológicas contemporâneas, associadas em nossos dias com a obra de pensadores tão importantes como Richard Lewontin, Richard Levins e Stephen Jay Gould. (Quando finalmente adquiri consciência sobre isto, foi graças a que a revista Monthly Review, que tentava vincular o novo marxismo com as ciências naturais e físicas). Tampouco estava familiarizado ainda com o realismo crítico de Roy Bhaskar.

Para piorar ainda mais as coisas, como a maioria dos marxistas (com exceção dos dedicados às ciências biológicas, onde esta história se havia conservado em parte), eu desconhecia por completo a história real do materialismo. Meu materialismo era, por inteiro, de una índole prática, político-econômica, informado filosoficamente pelo idealismo hegeliano e a rebelião materialista de Feuerbach contra Hegel. Mas ignorava a história geral do materialismo dentro da filosofia e da ciência. Neste sentido, a própria tradição marxista, como vinha sendo transmitida, oferecia uma ajuda relativamente escassa, já que o problema era que não se entendia adequadamente a base sobre a qual Marx havia rompido com o materialismo mecanicista, ao mesmo tempo em que seguia sendo materialista.

É impossível explicar (ou talvez sim, apontado o argumento que segue) as etapas do processe pelo qual cheguei à conclusão de que a visão que Marx forjou do mundo era profunda e talvez sistematicamente ecológica (em todos os sentidos positivos nos que o termo se utiliza hoje), e de que esta perspectiva ecológica era derivada do seu materialismo. Se houve um único ponto de decisiva mudança em meu modo de pensar, teve seu começo pouco depois da publicação de The Vulnerable Planet, quando meu amigo John Mage, jurista radical, erudito clássico e colega da Monthly Review, disse que eu tinha cometido um erro em meu libro e em um artigo posterior, ao adoptar a visão verde romântica, segundo a qual as tendências antiecológicas do capitalismo se referiam, em grande parte, à revolução científica do Século XVII e, em particular, à obra de Francis Bacon. John suscitou a questão da relação de Marx com Bacon, e do significado histórico da ideia de “domínio da natureza”, que surgiu naquele século. Fui percebendo gradualmente que todo o tema da ciência e da ecologia tinha que ser reconsiderado desde o começo. Aqui temos algumas das perguntas que me preocupavam: por que a teoria verde costumava apresentar a Bacon como o inimigo? Por que se ignorava tantas vezes a Darwin nas discussões da ecologia do Século XIX (independente de se limitar a atribuir a ele os conceitos do darwinismo social e do malthusianismo)? Que relação tinha Marx com tudo isto?

Em meio a este processo, não tardei em chegar à conclusão de que as tentativas dos “ecossocialistas” de injetar teoria verde em Marx ou de introduzi-lo na teoria verde nunca gerariam a síntese orgânica que se faz necessária. A este respeito, me impressionaram as famosas palavras de Bacon: “em vão, buscaremos o avanço do conhecimento científico como proveniente de interpor ou implementar coisas novas às velhas. É preciso partir por um novo começo, iniciando com os próprios fundamentos, a menos que queiramos andar eternamente em círculos e fazer progressos mínimos, quase desprezíveis”. O problema consistia em voltar aos fundamentos do materialismo, onde as respostas pareciam residir cada vez mais, exigindo uma reanálise desde o começo da nossa teoria social e sua relação com a ecologia, ou seja, atentando melhor ao seu surgimento.

O que descobri, para grande surpresa minha, foi uma história que tinha, de certo modo, o caráter de história literária de detetives, nas quais várias pistas distanciadas levam a uma mesma fonte surpreendente. Neste caso, o materialismo de Bacon e de Marx, e inclusive o de Darwin (embora de forma menos direta) possuem um ponto de origem em comum: a filosofia materialista antiga de Epicuro. O papel que desempenhou Epicuro como grande esclarecedor da Antiguidade – uma visão de sua obra que é reconhecida por pensadores tão distintos como Bacon, Kant, Hegel e Marx – me proporcionou, pela primeira vez, uma imagem coerente do surgimento da ecologia materialista no contexto de uma briga dialética em torno à definição do mundo.

Numa linha de pesquisa relacionada especificamente com este tema, descobri que a investigação sistemática que Marx realizou sobre a obra do grande químico agrícola alemão Justus von Liebig, iniciada a partir de sua crítica do malthusianismo, foi o que o conduziu ao conceito central da “fratura metabólica”, que se produz na relação humana com a natureza: a análise que fez da alienação a respeito da natureza. Mas, para entender isto plenamente, era necessário reconstruir o debate histórico em torno à degradação do solo, que surgiu em meados do Século XIX, no contexto da “segunda revolução agrícola”, prolongado até os nossos dias. Nesses trechos está a contribuição mais direta que Marx fez ao debate ecológico. Estou sumamente agradecido a Liz Allsopp e aos seus colegas da IACR-Rothamsted, de Hertfordshire, por colaborar com a tradução que Lady Gilbert fez da “Introdução” de Liebig, existente nos arquivos de Rothamsted.

Na realização desta investigação, pude me beneficiar da colaboração com Fred Magdoff e Fred Buttel, na coedição de um número especial da Monthly Review, correspondente aos meses de julho e agosto de 1998, e cujo título é Hungry for Profit (“Fome de Lucro”), posteriormente ampliado e publicado em forma de livro. Também me ajudou bastante o apoio do meu coeditor da revista Organization & Environment, John Jermier. Parte deste trabalho apareceu previamente na edição de setembro de 1997 da publicação Organization & Environment, e na de setembro de 1999 do American Journal of Sociology.

Devido à complexidade da história intelectual que o presente livro se propõe desemaranhar, e suas incursões em áreas aparentemente tão distantes entre si, como a filosofia antiga e a moderna, era evidente que necessitava um interlocutor de extraordinários dotes. Esse papel foi plenamente desempenhado por John Mage, cujo enfoque clássico do conhecimento, e cujos imensos conhecimentos históricos e teóricos, estão unidos à sua grande capacidade dialética, própria de um bom advogado. Não há uma única linha neste livro que não tenha sido objeto das perspicazes perguntas de John. Grande parte do melhor que escrevi aqui eu devo a ele, enquanto os defeitos que podem ter ficar na obra são necessariamente meus.

O magistral livro de Paul Barkett Marx and Nature: A Red and Green Perspective (“Marx e a natureza: uma perspectiva vermelha e verde”, de 1990) não só forma parte do contexto que serve de apoio ao meu trabalho como também como um essencial complemento da análise que faço aqui. Se às vezes renunciei ao desenvolvimento pleno dos aspectos políticos e econômicos da ecologia marxista, isso se deve a que a existência deste livro o torna necessário e redundante. Os anos de estimulante diálogo com Paul contribuíram muito para afinar a análise que segue.

Estou em dívida com Paul Sweezy, Harry Magdoff e Ellen Meiksins Wood, os três diretores da Monthly Review, por seu estímulo e pela força que deram com seus exemplos. A dedicação de Paul à análise meio-ambiental foi um importante fator que me impulsou a seguir nesta direção. Christopher Phelps, que na qualidade de diretor da Editoria da Monthly Review Press, se relacionou com o livro desde o começo, me ajudou em várias ocasiões de uma forma muito importante.

Não posso deixar de dizer que o amor e a amizade são essenciais para todo trabalho criativo. Por isso, gostaria de expressar aqui mi agradecimento a Laura Tamkin, com quem compartilho meus sonhos, e a Saul e Ida Foster, assim como a Bill Foster e Bob McChesney. A Saul e Ida, e a toda a sua jovem geração, dedico esta obra.

*Publicado em elviejotopo.com | Tradução de Victor Farinelli

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