Mãe Terra

Acordo Bolsonaro-Biden para proteção da Amazônia é paralisado em meio a pressões

Líderes indígenas e ambientais, e legisladores estadunidenses alertam Biden a condicionar o acordo à uma interrupção no desmatamento

23/04/2021 13:36

Povos indígenas da tribo Mura mostram uma área desmatada na floresta amazônica perto de Humaitá, Estado do Amazonas, Brasil em agosto de 2019 (Ueslei Marcelino/Reuters)

Créditos da foto: Povos indígenas da tribo Mura mostram uma área desmatada na floresta amazônica perto de Humaitá, Estado do Amazonas, Brasil em agosto de 2019 (Ueslei Marcelino/Reuters)

 
São Paulo, Brasil – O governo brasileiro quer bilhões de dólares antecipados dos EUA e de outras nações ricas para proteger a floresta Amazônica, bastião natural importante na luta contra a mudança climática.

Mas líderes indígenas, ativistas climáticos e um grupo de senadores Democratas alertaram o presidente Joe Biden a não conceder dinheiro ao governo de Jair Bolsonaro, o presidente populista de extrema-direita do Brasil, cuja administração conduziu ao aumento do desmatamento.

“O atual governo brasileiro simplesmente não é confiável”, disse Sonia Guajajara, coordenadora da APIB, Articulação de Povos Indígenas do Brasil, um coletivo em defesa dos indígenas, ao Al Jazeera.

Ambas as administrações esperavam selar um acordo a ser anunciado em 22 e 23 de abril durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima da Casa Branca, de acordo com pessoas próximas às conversas. Mas essa semana, essas esperanças parecem ter sido interrompidas.

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, disse à Reuters que não esperava que fosse anunciado um acordo essa semana na cúpula, mas que as conversas com os EUA continuam.

“O retorno ao comprometimento do presidente Jair Bolsonaro em eliminar o desmatamento ilegal é importante. Esperamos ações imediatas e engajamento com povos indígenas e a sociedade civil para que esse anúncio possa entregar resultados tangíveis”, tuitou o enviado especial sobre o clima, John Kerry.

Enquanto isso, Raoni Metuktire, um dos líderes indígenas mais icônicos do país, divulgou um vídeo alertando Biden a ignorar a promessa de Bolsonaro de reduzir o desmatamento ilegal para zero até 2030 se o seu governo recebesse financiamento dos EUA.

Ambientalistas observaram que a meta de 2030 já havia sido prometida pelo Brasil quando assinou o Acordo de Paris em 2015 junto à então presidenta brasileira Dilma Rousseff. Mas desde então, o desmatamento continuou a subir ano após anos.

15 senadores estadunidenses, incluindo Bernie Sanders e Elizabeth Warren, também enviaram uma carta para Biden alertando que qualquer auxílio concedido ao Brasil deve estar condicionado a resultados provenientes da redução do desmatamento.

Os senadores usaram como referência o relatório do Human Rights Watch, Máfias dos Ipês (“Rainforest Mafias”), para observar como o “desmatamento foi conduzido amplamente por redes criminosas perigosas que usam a intimidação e a violência – com quase total impunidade – contra aqueles que buscam defender as florestas”.

“A retórica do presidente Bolsonaro e suas políticas efetivamente deram passe livre à criminosos perigosos que operam na Amazônia, permitindo a expansão dramática de suas atividades”, eles dizem.

O desmatamento da Amazônia brasileira permanece bem abaixo do pico de 2004, mas aumentou drasticamente nos dois anos de mandato de Bolsonaro, período no qual o presidente cortou orçamentos de proteção ambientais e indígenas e lotou agências com aliados de confiança.

Em 2020, mesmo com a pandemia do coronavírus, o desmatamento da Amazônia alcançou um recorde de 12 anos com 11.088 km2 de floresta desmatada, de acordo com o INPE, um aumento de 9.5% em relação ao ano anterior.

Enquanto isso, março de 2021 foi o pior março da história recente com 367.61 km2 destruídos, um aumento de 12.4% em relação ao ano anterior. O mês marca o fim das chuvas pesadas em boa parte da região e o começo do período de seca, quando os madeireiros, fazendeiros e posseiros tradicionalmente limpam a terra antes do período de incêndios em agosto.

O aumento do desmatamento e dos incêndios florestais levou a confrontações entre Bolsonaro e líderes globais, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron, e provocou ameaças de boicotes e desinvestimento de empresas europeias e gestoras de fundos.

Durante um debate presidencial dos EUA em setembro do ano passado, Biden sugeriu que o Brasil poderia receber 20 bilhões para “parar de destruir a floresta”, mas alertou para “consequências econômicas significativas” se não cumprisse com o acordo, comentários que Bolsonaro descreveu na época como “desastrosos”.

Salles, o ministro brasileiro do Meio-Ambiente, disse ao Estado de S Paulo no início do mês que com 1 bilhão anualmente dos EUA e de outros países, o Brasil poderia reduzir o desmatamento em 40%.

Mas os ambientalistas zombaram do pedido de Salles, apontando que 3 bilhões de reais estão parados ociosos no Fundo Amazônico desde 2019, fornecido em maior parte pela Noruega e pela Alemanha para projetos de redução do desmatamento.

“Se reduzir o desmatamento fosse realmente a prioridade eles usariam o dinheiro do fundo”, disse Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório Climático Brasileiro, uma rede com 50 grupos da sociedade civil, ao Al Jazeera.

*Publicado originalmente em 'Al Jazeera' | Tradução de Isabela Palhares

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