Mãe Terra

Ambientalistas criticam apoio do governo à energia nuclear

07/07/2004 00:00

Rio de Janeiro – Já pode ser vislumbrada no horizonte uma nova polêmica sobre as políticas energética e ambiental praticadas no Brasil. Na mesma semana em que uma conferência internacional das Nações Unidas discute na Rússia os 50 anos de utilização da energia nuclear no mundo e aponta uma tendência de queda em seu emprego pelos países desenvolvidos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que deu um prazo de três meses para que um grupo de assessores elabore um estudo em que sejam apontados "caminhos para a reativação do programa nuclear brasileiro".

O anúncio de Lula pegou de surpresa as entidades de defesa do meio ambiente, que prometem ir a luta para impedir que o governo trilhe o caminho nuclear. Os setores organizados da sociedade, que normalmente mantêm com o Planalto alguma interlocução sobre a questão energética, já andavam meio ressabiados com o governo desde outubro do ano passado, quando o país começou a produzir urânio enriquecido em escala industrial. O anúncio da parceria nuclear com a China também não foi recebido com alegria, e o ânimo redobrado do presidente para com o programa nuclear brasileiro pode azedar de vez a relação com esses setores.

"A energia nuclear é obsoleta e inviável financeiramente. Se decidir incentivar essa fonte energética, o Brasil estará indo na contramão do mundo desenvolvido e o nosso governo de esquerda, quem diria, estará retomando um programa da era militar", lamenta Lucia Ortiz, coordenadora do Grupo de Trabalho de Energia do Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais de Defesa do Meio Ambiente (FBOMS). Ela afirma que o governo "não ouviu a sociedade civil" sobre a retomada do programa nuclear, e lembra que o FBOMS, ao lado do Greenpeace, entregou a Lula em outubro de 2003 um abaixo-assinado com 50 mil assinaturas pedindo a não construção da usina nuclear de Angra 3 e o fim da utilização da energia nuclear no Brasil: "Mas até hoje não sabemos a posição do governo. O acordo com a China já nos havia causado surpresa", diz.

Lixo atômico é o problema
Os setores dentro do Planalto que defendem junto a Lula a expansão da produção de energia nuclear usam como um de seus argumentos o fato de esta ser uma energia menos suja e poluente do que a obtida com combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão. Mas o maior problema, lembra Lucia Ortiz, é a destinação do lixo atômico e os riscos ao meio ambiente e a saúde humana trazidos por seu transporte e manipulação: "O lixo atômico permanece radioativo por cerca de 30 mil anos. Esse perigo está levando os países desenvolvidos a abandonar a energia nuclear. O mundo começa a descobrir que não existe solução para o problema do lixo atômico", afirma.

O deputado estadual Carlos Minc (PT-RJ) alerta que o Brasil cumprirá o papel de "lixeira do mundo" se promover a expansão da produção nuclear: "A Alemanha, país que forneceu os equipamentos de Angra 2 e já mandou para cá parte do que eu espero que não venha a ser Angra 3, decidiu desativar completamente o seu parque nuclear até 2020. Isso, porque descobriram ser impossível solucionar a questão do lixo atômico, sem falar nos custos incalculáveis que representam os passivos ambientais das usinas", disse.

Críticas ao enriquecimento de urânio
Outra preocupação dos ambientalistas é o desejo do governo Lula de levar o Brasil a auto-suficiência na produção de urânio enriquecido. Anunciada pelo então ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, a produção brasileira de urânio deve responder até 2010 por cerca de 65% do combustível que hoje alimenta as usinas nucleares Angra 1 e 2. Segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o Brasil tem a sexta maior reserva de urânio do mundo, além de dominar a tecnologia de enriquecimento – desenvolvida pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) – desde a década de 1980. Atualmente, apenas seis países possuem essa tecnologia direcionada à produção de eletricidade: Rússia, Japão, China e um consórcio europeu formado por Alemanha, Inglaterra e Holanda.

As metas traçadas pelo governo indicam que em 2014 o Brasil já estará apto a exportar o excedente de urânio enriquecido produzido no país. Quando chegar a esse patamar, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil estará fazendo uma economia de recursos de US$ 10 milhões por ano. Além de questionar os números apresentados pelo governo, o FBOMS reforça sua posição contrária a todas as etapas do ciclo produtivo do urânio enriquecido: "Existem enormes riscos de acidentes e contaminação, seja durante o processo de enriquecimento, de transporte ou de embarque do urânio. Os impactos ambientais existem e o governo não tem condições de exercer corretamente a fiscalização", afirma Lucia Ortiz.

Expansão e retração
Um estudo divulgado pela AIEA no primeiro dia da conferência internacional realizada em Obninsk, na Rússia, mostra que estão hoje em funcionamento 442 usinas nucleares, espalhadas por 30 países e responsáveis pela geração de 16% da eletricidade consumida no mundo. Apesar da maior parte das usinas ainda estar localizada nos países desenvolvidos, a agência da ONU indica uma tendência de abandono dessa produção pelos mais ricos. O melhor exemplo disso é o fato de que quatro países com importante presença econômica mundial – Alemanha, Bélgica, Suécia e Holanda – já anunciaram a intenção de encerrar seus respectivos programas nucleares.

O cenário inverso, segundo a AIEA, ocorre na Ásia, onde se encontram 18 das 27 usinas nucleares atualmente em construção no mundo. Quem lidera o ranking da construção de usinas é a Índia, que tem oito em andamento, seguida pela China, pelo Irã e pelo Japão. O mesmo se passa no antigo bloco soviético que, quase sempre com poucas opções energéticas, aderiu de vez ao nuclear. O líder do ranking é a Rússia, com quatro usinas em construção, mas essa é uma atividade crescente também em países como Hungria, Romênia e Ucrânia, entre outros. Todo esse apetite faz com que a AIEA preveja um aumento de 70% na utilização de energia nuclear em todo o mundo até 2030.


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