Mãe Terra

As soluções para a crise climática que ninguém está falando

 

26/04/2020 13:05

(Reprodução/Time)

Créditos da foto: (Reprodução/Time)

 
Tanto a nossa economia como o meio ambiente estão em crise. A riqueza está concentrada nas mãos de poucos, enquanto a maioria dos norte-americanos luta para sobreviver. A crise climática está piorando a desigualdade, pois aqueles que são economicamente mais vulneráveis arcam com a parte mais dura de inundações, incêndios e interrupções no fornecimento de alimentos, água e energia.

Ao mesmo tempo, a degradação ambiental e as mudanças climáticas são, elas próprias, subprodutos da crescente desigualdade. O poder político das empresas ricas de combustíveis fósseis bloqueia, há décadas, a ação sobre as mudanças climáticas. Concentradas apenas em maximizar seus interesses de curto prazo, essas empresas estão se tornando ainda mais ricas e poderosas - enquanto afastam trabalhadores, limitam a inovação verde, impedem o desenvolvimento sustentável e obstruem ações diretas para conter nossa terrível crise climática.

Não se enganem: a concomitância das crises de desigualdade e do clima não é uma casualidade. Ambas são o resultado de décadas de escolhas deliberadas feitas e políticas adotadas por corporações ultrarricas e poderosas.

Podemos resolver as duas crises fazendo quatro coisas:

Primeiro, criar empregos verdes. Investir em energia renovável poderia criar milhões de empregos sindicalizados, com salários que permitiriam manter adequadamente a família, e construir a infraestrutura necessária para que comunidades marginalizadas tivessem acesso a água e ar limpos.

A transição para uma economia movida a energia renovável pode adicionar 550.000 empregos a cada ano, poupando US$ 78 bilhões da economia dos EUA até 2050. Em outras palavras, um Green New Deal [Novo Acordo Verde] poderia transformar a crise climática em uma oportunidade - que cuidaria da emergência climática e criaria uma sociedade mais justa e equitativa.

Segundo, parar de usar energia suja. Um investimento maciço em empregos em energia renovável não é suficiente para combater a crise climática. Se quisermos evitar os piores impactos das mudanças climáticas, precisamos resolver o problema na sua fonte: parar de desenterrar e queimar mais petróleo, gás e carvão.

As potenciais emissões de carbono desses combustíveis fósseis nos campos e minas atualmente desenvolvidos no mundo nos levariam muito além do aumento do aquecimento de 1,5° C que os cientistas globais, ganhadores do Prêmio Nobel, nos dizem que o planeta pode supontar. Diante disso, é absurdo permitir que as empresas de combustíveis fósseis iniciem novos projetos de energia suja.

Mesmo que as empresas de combustíveis fósseis afirmem estar voltadas para a energia limpa, elas planejam investir trilhões de dólares em novos projetos de petróleo e gás que são inconsistentes com os compromissos globais de limitar as mudanças climáticas. E planeja-se que mais da metade da expansão do setor aconteça nos Estados Unidos. Permitir esses projetos significa amarrar-nos a emissões de carbono que não podemos aguentar agora, muito menos nas próximas décadas.

Mesmo se os EUA fizerem a transição para 100% de energia renovável hoje, continuar a extrair combustíveis fósseis do solo nos levará ainda mais para dentro da crise climática. Se os EUA não pararem agora, o que extrairmos simplesmente será exportado e queimado no exterior. Todos seremos afetados, mas os mais pobres e vulneráveis entre nós sofrerão o impacto dos efeitos devastadores das mudanças climáticas.

Terceiro, expulsar as empresas de combustíveis fósseis de nossa política. Durante décadas, empresas como Exxon, Chevron, Shell e BP vêm poluindo nossa democracia, despejando bilhões de dólares em nossa política e financiando funcionários eleitos para aprovar políticas para proteger seus lucros. O setor de petróleo e gás gastou mais de US$ 103 milhões apenas nas eleições federais de 2016. E esse valor é somente o que eles são obrigados a informar: não inclui as quantias incontáveis de "dinheiro obscuro" que eles usam para comprar políticos e corromper nossa democracia. As estimativas mais conservadoras ainda apontam que seus gastos são 10 vezes superiores aos dos grupos ambientalistas e do setor de energia renovável.

Como resultado, os contribuintes americanos pagam US$ 20 bilhões por ano em subsídios para bancar projetos de petróleo e gás - uma enorme transferência de riqueza para o topo. E isso nem inclui centenas de bilhões de dólares em subsídios indiretos que custam a cada cidadão dos Estados Unidos cerca de US$ 2.000 por ano. Isso tem que parar.

E temos que parar de ceder terras públicas para perfuração de petróleo e gás. Em 2018, sob Trump, o Departamento do Interior faturou US$ 1,1 bilhão em vender terras públicas a empresas de petróleo e gás, um recorde de todos os tempos - o triplo do recorde anterior de 2008, totalizando mais de 1,5 milhão de acres apenas para perfuração, ameaçando vários locais culturais e inúmeros animais selvagens.

Em setembro passado, o governo Trump abriu 1,56 milhão de acres do Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico do Alasca para a perfuração de petróleo, ameaçando o patrimônio cultural indígena e o lar de centenas de espécies.

Isso não é tudo. A proibição de exportar petróleo bruto deve ser reintroduzida e estendida a outros combustíveis fósseis. A proibição, em vigor há 40 anos, foi suspensa em 2015, poucos dias após a assinatura do Acordo Climático de Paris. Após anos de campanha de executivos do petróleo, chefes da indústria e seu exército de lobistas, a indústria de combustíveis fósseis finalmente conseguiu o que queria.

Não podemos esperar que essas alterações sejam introduzidas em 5 ou 10 anos - precisamos delas agora.

Quarto, exigir que as empresas de combustíveis fósseis que lucraram com a injustiça ambiental compensem as comunidades que prejudicaram.

Como se comprar nossa democracia não fosse suficiente, essas empresas também têm, deliberadamente, enganado o público por anos sobre a quantidade de danos que seus produtos causam.

Por exemplo, já em 1977, os cientistas da própria Exxon alertaram os gerentes da empresa que o uso de combustíveis fósseis aqueceria o planeta e causaria danos irreparáveis.

Nos anos 80, a Exxon encerrou seu programa interno de pesquisa climática e passou a financiar uma rede de grupos de defesa, divisões de lobby e think tanks cujo único objetivo era turvar o discurso público e bloquear as ações contra a crise climática. As cinco maiores empresas de petróleo agora gastam cerca de US$ 197 milhões por ano em campanhas publicitárias, alegando que se preocupam com o clima - enquanto aumentam massivamente seus gastos com extração de petróleo e gás.

Enquanto isso, milhões de norte-americanos, especialmente das comunidades pobres, negras, pardas e indígenas, já precisam lutar para beber água limpa e respirar ar puro, pois suas comunidades são devastadas por furacões, inundações e incêndios causados pelo clima. Em 2015, quase 21 milhões de pessoas contavam com sistemas comunitários de água que violavam os padrões mínimos de qualidade.

Indo por população, são essencialmente 200 casos como o de Flint, Michigan, acontecendo ao mesmo tempo [em que a água que abastece as casas está contaminada]. Se continuarmos em nosso caminho atual, muitas outras comunidades correm o risco de se tornarem “zonas de sacrifício”, onde os cidadãos são deixados para sobreviver às consequências tóxicas da atividade industrial com pouca ou nenhuma ajuda das entidades responsáveis por sua criação.

Negação climática e poluição desenfreada não são crimes sem vítimas. As empresas de combustíveis fósseis devem ser responsabilizadas e obrigadas a pagar pelos danos que elas causaram.

Se essas soluções parecem drásticas para você, é porque elas são. Elas tem que ser assim, se temos alguma esperança de manter nosso planeta habitável. A crise climática não é um pesadelo apocalíptico de um futuro distante - é o nosso dia de hoje.

Os incêndios florestais na Austrália destruíram um bilhão de animais, a temporada de incêndios na Califórnia causa mais estragos a cada ano, e tempestades recorde atingem nossas comunidades como nunca aconteceu antes.

Os cientistas nos dizem que temos 10 anos para reduzir drasticamente as emissões. Não temos espaço para meias medidas brandas embrulhadas em folhetos gigantes da indústria de combustíveis fósseis.

Merecemos um mundo sem combustíveis fósseis. Um mundo em que trabalhadores e comunidades prosperem e nosso clima compartilhado venha antes dos lucros do setor. Trabalhando juntos, sei que podemos fazer isso acontecer. Não temos tempo a perder.

*Publicado originalmente no site do autor | Tradução de César Locatelli



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