Mãe Terra

As três maiores ameaças à vida na Terra que devemos abordar em 2021

 

08/01/2021 11:33

Pulp Mills em uma noite de dezembro, Wauna, Oregon (Jeffrey St. Clair)

Créditos da foto: Pulp Mills em uma noite de dezembro, Wauna, Oregon (Jeffrey St. Clair)

 
Grandes porções do mundo – fora China e outros poucos países – encaram um vírus fugitivo, que não foi parado por causa da incompetência criminosa dos governos. Esses governos de países ricos cinicamente ignoram protocolos científicos básicos divulgados pela OMS e por organizações científicas e isso revela suas práticas maliciosas. Qualquer coisa menos do que focar a atenção no controle do vírus com testes, rastreamentos de contatos e isolamento – e se isso não for suficiente, então impor um lockdown temporário – é tolice. É igualmente perturbador que esses países mais ricos tenham perseguido uma política de “nacionalismo vacinal” estocando vacinas candidatas ao invés de uma política de criação de uma “vacina do povo”. Pelo bem da humanidade, seria prudente suspender regras de propriedade intelectual e desenvolver um procedimento para criar vacinas universais para todos.

Embora a pandemia seja o problema principal nas nossas mentes, outros grandes problemas ameaçam a longevidade da nossa espécie e do nosso planeta. Entre eles estão:

Aniquilação nuclear

Em janeiro de 2020, o Boletim dos Cientistas Atômicos moveu o ponteiro do Relógio do Juízo Final para 100 segundos para a meia noite. O relógio, criado dois anos após o desenvolvimento das primeiras armas atômicas em 1945, é avaliado anualmente pelo Conselho de Ciência e Segurança do Boletim, que decide se vai mover o ponteiro do minuto ou deixá-lo onde está. Quando armarem o relógio novamente, poderemos estar mais perto da aniquilação. Tratados de controles de armas já estão sendo rasgados enquanto as maiores potências sentam em cerca de 13.500 armas nucleares (mais de 90% das quais são controladas pela Rússia e pelos EUA sozinhos). A potência dessas armas poderia facilmente tornar esse planeta ainda mais inabitável. A Marinha dos EUA já enviou ogivas nucleares táticas W76-2 de baixo alcance. Ações imediatas pelo desarmamento nuclear devem ser inseridas à força na agenda global. O Dia de Hiroshima, comemorado cada ano em 6 de agosto, deve se tornar um dia mais robusto para contemplação e protesto.

Catástrofe Climática

Um artigo científico publicado em 2018 veio com uma manchete chamativa: “a maioria dos atóis estará inabitável em meados do século 21 por causa do aumento do nível do mar agravando as enchentes conduzidas pelas ondas”. Os autores descobriram que é provável que os atóis das Ilhas Seychelles até as Ilhas Marshall desapareçam. Um relatório da ONU de 2019 estimou que 1 milhão de espécies de plantas e animais estão sob ameaça de extinção. Some a isso os incêndios catastróficos e a descoloração dos recifes de corais e fica claro que não precisamos nos debruçar em clichês sobre uma coisa ou outra servindo de alerta para a catástrofe climática; o perigo não está no futuro, mas sim no presente. É essencial que as grandes potências – que falham em escapar dos combustíveis fósseis – se comprometam com a abordagem das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas” estabelecida na Conferência da ONU sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro em 1992.

Sabemos que países como Jamaica e Mongólia atualizaram seus planos climáticos antes do final de 2020 – como exigido pelo Acordo de Paris – embora esses países produzam uma pequena fração das emissões globais de carbono. Os fundos que foram destinados para os países em desenvolvimento pela sua participação no processo secaram enquanto a dívida externa cresceu. Isso mostra uma falta de seriedade da “comunidade internacional”.

Destruição neoliberal do contrato social

Países na América do Norte e na Europa evisceraram sua função pública ao passo que o estado foi entregue aos exploradores e a sociedade civil foi transformada em commodities pelas fundações privadas. Isso significa que as avenidas para a transformação social nessas partes do mundo foram grotescamente prejudicadas. Desigualdade social terrível é o resultado da fraqueza política relativa da classe trabalhadora. É essa fraqueza que permite que bilionários estabeleçam políticas que causam o aumento dos índices de fome.

Os países não deveriam ser julgados pelas palavras escritas em suas constituições, mas sim pelos seus orçamentos anuais; os EUA, por exemplo, gastam quase $1 trilhão (se você adicionar o orçamento de inteligência estimado) em sua máquina de guerra, enquanto gastam uma fração disso no bem público (como saúde, algo evidente durante a pandemia). As políticas externas dos países ocidentais parecem ser bem facilitadas pelos acordos de armas: os Emirados Árabes Unidos e o Marrocos concordaram em reconhecer Israel sob a condição de que poderiam comprar $23 bilhões e $1 bilhão referentes a armas estadunidenses, respectivamente. Os direitos dos palestinos, dos Sahrawi e do povo iemenita não foi levado em consideração nesses acordos. O uso de sanções ilegais pelos EUA contra 30 países incluindo Cuba, Irã e Venezuela se tornou uma parte normal da vida, mesmo durante a crise de saúde pública da covid-19.

É uma falha do sistema político quando as populações do bloco capitalista são incapazes de forçar seus governos – que são em muitas maneiras democráticos apenas no nome – a analisarem uma perspectiva global em relação a essa emergência. Altos índices de fome revelam que a batalha pela sobrevivência é o horizonte para bilhões de pessoas no planeta (tudo isso enquanto a China é capaz de erradicar a pobreza absoluta e amplamente eliminar a fome).

A aniquilação nuclear e a extinção pela catástrofe climática são ameaças gêmeas ao planeta. Enquanto isso, para vítimas do ataque neoliberal que infestou a geração passada, os problemas de curto prazo como sustentar sua mera existência deslocam questões fundamentais sobre o destino dos nossos filhos e netos.

Problemas globais dessa escala exigem cooperação global. Pressionados pelos estados do Terceiro Mundo nos anos 60, as maiores potências concordaram com o Tratado de Não-proliferação de Armas Nucleares de 1968, embora tenham rejeitado a profundamente importante Declaração sobre o Estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional de 1974. O equilíbrio de forças disponíveis para conduzir tal agenda de classe no palco internacional não está mais lá; a dinâmica política nos países do Ocidente, em específico, mas também nos maiores países do mundo em desenvolvimento (como o Brasil, a Índia, Indonésia e a África do Sul) é necessária para mudar a natureza dos governos. Um internacionalismo robusto é necessário para levar atenção adequada e imediata aos perigos da extinção: extinção por guerra nuclear, pela catástrofe climática, e pelo colapso social. As tarefas a seguir são assustadoras e não podem ser adiadas.

*Publicado originamlente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares



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