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Atraso é mortal: o que Covid-19 nos ensina sobre como enfrentar a crise climática

Os governos de direita tem negado o problema e demorado para agir. Com o coronavírus e com o clima, isso custa vidas

26/03/2020 18:27

Donald Trump durante um briefing sobre coronavírus na Casa Branca no domingo. (Patrick Semansky/AP)

Créditos da foto: Donald Trump durante um briefing sobre coronavírus na Casa Branca no domingo. (Patrick Semansky/AP)

 

A pandemia de coronavírus trouxe urgência para a questão política definidora de nossa era: como distribuir riscos. Como na crise climática, o capitalismo neoliberal está se provando particularmente inadequado para isso.

Como o aquecimento global, mas em close e em avanço rápido, o surto de Covid-19 mostra como vidas são perdidas ou salvas, dependendo da propensão de um governo para reconhecer riscos, agir rapidamente para contê-los e dividir as consequências.

Sobre essas questões, competência e ideologia se sobrepõem. Governos dispostos a intervir têm sido mais eficazes em conter o vírus do que os capitalistas do laissez-faire. Quanto mais à direita é o governo, mais inclinado estará a adiar a ação e colocar a culpa em outros. Comparações internacionais sugerem que isso pode estar provocando taxas de infecção e mortalidade mais acentuadas.

Tomemos os EUA, onde Donald Trump só agora reconhece a seriedade da pandemia após semanas alegando que os medos eram exagerados. Até recentemente, seu governo investia mais dinheiro na proteção da indústria do petróleo do que em fornecer kits de teste adequados. Segundo informações, ele ordenou que as autoridades minimizassem os avisos preparatórios porque não queria más notícias em um ano eleitoral. O número de novos casos, agora nos EUA, é o que cresce mais rapidamente no mundo.

No Brasil, o presidente da ultradireita, Jair Bolsonaro, é igualmente imprudente. Ele alegou que os riscos do coronavírus eram exagerados, até que 17 de seus assessores e segurança pessoal deram positivo após uma viagem aos EUA. No fim de semana passado, ele ignorou o conselho de seu próprio governo e optou por apertar mãos e posar com rostos próximos para selfies em um comício de apoiadores. À medida que surgem casos e mortes, seu apoio popular tem caído fortemente.

No Reino Unido, Boris Johnson reconheceu o risco, mas pouco fez. Embora não seja tão extremo em sua negação quanto Trump ou Bolsonaro, o governo de Johnson hesitou primeiro, depois se envolveu com uma política de "imunidade de rebanho" que teria sido impulsionada pelo desejo de Dominic Cummings de proteger a economia, mesmo que isso custasse a vida dos aposentados. Desde então, o Reino Unido mudou de rumo e aplicou um bloqueio, mas seus controles ainda são aleatórios. Na semana passada, a curva ascendente de mortes diárias, no Reino Unido, era considerada mais acentuada do que a Itália no mesmo estágio.

Por outro lado, governos mais intervencionistas - geralmente, mas não exclusivamente, os de centro ou de esquerda - agiram mais rapidamente e compartilharam o ônus do risco mais amplamente. Noruega, Dinamarca e Suécia já parecem ter achatado a curva do coronavírus. Espanha e França implementaram o confinamento quando chegaram a cerca de 200 mortes, que o Reino Unido e os EUA superaram em muito.

Na Ásia, a China inicialmente tentou esconder o problema do público quando o vírus surgiu em Wuhan, mobilizando enormes recursos públicos para impor um bloqueio rígido e fornecer camas hospitalares extras. A Coreia do Sul, Taiwan e Tailândia também parecem ter dobrado a esquina, graças a diferentes combinações de testes extensivos, medidas de quarentena e educação em saúde pública.

Outros fatores estão em jogo. Os países asiáticos, com experiência anterior com a epidemia de Sars, parecem estar mais bem preparados. A Itália, um dos países mais afetados, tem uma das populações mais idosas velhas do mundo. No caso do Japão, a curva relativamente plana de casos confirmados também pode ser o resultado da falta de vontade do governo em fazer testes generalizados, pois isso poderia comprometer as Olimpíadas.

Da mesma forma, o número relativamente baixo de casos no sul do mundo aumentou a esperança de que o clima mais quente pudesse retardar a doença - mas isso está longe de ser certo. Um número comparativamente baixo de casos de coronavírus pode ser o resultado de um atraso causado pela distância da origem da doença, níveis relativamente baixos de tráfego internacional e menos recursos para testes.

Essa pandemia ampliou a importância de avaliar e controlar o risco antes que fique fora de controle. Mas os defensores políticos da direita neoliberal, como Trump e Bolsonaro, estão mais inclinados a negar e adiar, como a política climática tem nos mostrado nos últimos anos.

Quando se trata de uma pandemia como o Covid-19, essa posição é insustentável. Nenhum líder pode negar a ciência, nem pode adiar interminavelmente as ações, como fizeram no aquecimento global. Confundir até a próxima eleição não é uma opção; os líderes serão julgados por mortes na próxima semana, não por reduções de emissões em 2050.

Os dados demográficos também são completamente diferentes. Diferentemente da crise climática, o vírus ameaça predominantemente os idosos - o principal grupo de apoio da direita - e não a geração do milênio. Até agora, as regiões mais afetadas também estão mais próximas do centro de poder econômico: o norte industrializado de clima frio, e não o sul mais quente (embora este último possa sofrer mais no futuro devido aos sistemas de saúde mais fracos).

À direita, isso faz da pandemia uma ameaça política maior do que a crise climática jamais foi. A menos que eles consigam rapidamente controlar a doença, eles perderão qualquer pretensão de serem defensores da segurança nacional. É inteiramente possível que os efeitos dessa pandemia componham uma das falhas mais catastróficas do capitalismo de livre mercado.

Isso também deve ser uma lição para a esquerda. Se a intervenção estatal e o aconselhamento científico são eficazes para lidar com o vírus, os mesmos princípios devem ser aplicados de forma mais agressiva às ameaças ainda mais apocalípticas de perturbação climática e colapso da natureza. Até agora, a esquerda reconheceu esses perigos, mas pouco fez para agir contra eles, porque o crescimento econômico sempre teve precedência.

A pandemia provou que os atrasos são mortais e caros. Se quisermos evitar crises futuras em cascata, os governos devem pensar além do retorno aos negócios costumeiros. Nossa concepção do que é "normal" terá que mudar. Precisamos investir em sistemas naturais que suportem a vida, como clima estável, ar fresco e água limpa. No passado, esses objetivos eram descartados como irreais ou caros, mas as últimas semanas mostraram a rapidez com que a bússola política pode girar.

Primeiro, porém, precisamos aceitar - e compartilhar - os riscos. Em vez de adiar riscos para as gerações futuras, para populações mais fracas e para sistemas naturais, os governos precisam transformar riscos em responsabilidades com as quais arcaremos todos. Quanto mais hesitarmos, menos recursos teremos à nossa disposição e mais riscos teremos que dividir.

• Jonathan Watts é o editor de ambiente global do Guardian

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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