Mãe Terra

Brasil bate record de pior ano de desmatamento em uma década

Quase 8 mil km2 perdidos em um ano e alarmes de que o novo presidente Bolsonaro tornará a situação pior

28/11/2018 13:11

Ambientalistas alertam que o desmatamento provavelmente se tornará mais agudo quando Jair Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro (Bruno Kelly/Reuters)

Créditos da foto: Ambientalistas alertam que o desmatamento provavelmente se tornará mais agudo quando Jair Bolsonaro se tornar presidente em 1º de janeiro (Bruno Kelly/Reuters)

 

O Brasil divulgou seus piores números de desmatamento anual em uma década em meio a alertas de que a situação pode piorar quando o anti-ambientalista presidente-eleito Jair Bolsonaro iniciar seu mandato.

Entre agosto de 2017 e julho de 2018, 7.900 km2 foram desmatados, de acordo com números preliminares do ministério do Meio Ambiente baseados em monitoramente via satélite – um aumento de 13.7% do ano anterior e a maior área desmatada desde 2008. A área é equivalente a 987.000 gramados de futebol.

A notícia foi vista com desalento por ambientalistas que alertam que é provável que o desmatamento se intensifique quando Bolsonaro se tornar presidente em janeiro.

“É muita floresta destruída”, disse Marcio Astrini, coordenador de política pública do Greenpeace Brasil. “A situação é muito preocupante...o que está ruim ficará pior.”

O ministério do Meio Ambiente disse que o aumento veio mesmo com o aumento do orçamento do ministério e nas operações desenvolvidas pela agência IBAMA.

“Precisamos aumentar a mobilização em todos os níveis do governo, da sociedade e do setor produtivo para combater atividades ambientais ilegais”, declarou o ministro do Meio Ambiente Edson Duarte.

Mas parece que o governo vai em outra direção.

Depois de cair por muitos anos, o desmatamento começou a subir em 2013, o ano após a presidente de esquerda Dilma Rousseff aprovar um novo código florestal que concedia anistia aos que desmatassem em propriedades pequenas. O desmatamento cresceu em quatro dos seis anos desde então, incluindo 2016, o ano que Rousseff foi impichada e substituída pelo seu ex vice-presidente Michel Temer.

Temer fez ainda mais concessões à interesses poderosos do agronegócio em troca de apoio dos seus representantes congressionais – incluindo aprovação de uma medida que legaliza terras que foram invadidas na Amazônia, um condutor comum do desmatamento. No ano passado, Temer apoiou medidas para reduzir a proteção de uma floresta nacional chamada Jamanxim e uma área protegida chamada Renca depois de protestos de ambientalistas, da super modelo Gisele Budchen e até da cantora Alicia Keys no Rock in Rio.

Manobras como essas assinalam que o congresso brasileiro não se preocupa mais com o desmatamento, disse Astrini, o que encoraja o desmatamento.

“Sentimos no nosso ramo de trabalho que essas gangues do desmatamento são muito confiantes que terão anistia ou que estão acobertadas”, ele disse.

Enquanto mais e mais da Amazônia está sendo destruída, a maior floresta do mundo está, agora, chegando perto do seu momento crítico – depois disso experts temem que poderá desaparecer.

“Chegará um momento em que a acumulação desse desmatamento causará efeitos nos quais a floresta deixará de ser uma floresta”, disse Astrini. “Os cientistas calculam que isso está entre 20%-30%. Estamos próximos dos 20%.”

O Observatório do Clima – uma rede sem fins lucrativos de mudança climática – calculou que em 2017, 46% das emissões de gás do efeito estufa no Brasil foram devido ao desmatamento.

Também espera que o desmatamento piore com o novo governo de Bolsonaro. Ele já atacou frequentemente o que chama de “indústria da multa” de agências como o IBAMA, e quer permitir a mineração em reservas indígenas protegidas – algumas das florestas menos destruídas da Amazônia – e até considera unir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente.

Bolsonaro goza do apoio do agronegócio e o ministério da Agricultura será liderado por Tereza Cristina, líder desse lobby no Congresso.

Seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, argumenta que o aquecimento global é uma conspiração marxista. O vice-presidente  eleito General Hamilton Mourão, enquanto admitia que o aquecimento global existe, disse ao jornal Folha de S. Paulo: “o ambientalismo é usado como instrumento de dominação por grandes economias”.

Bolsonaro somente voltou atrás nos planos de retirar o Brasil do Acordo de Paris porque agricultores argumentaram que poderia provocar boicotes de consumidores europeus, de acordo com a mídia local.

“Se o problema está na política e nos políticos e no seu poder de decisão, precisam ser pressionados”, disse Astrini.

*Publicado originalmente no The Guardian | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado